Passeio Público é lugar de memória da nossa cidade

Por Melissa Carvalho

Beleza e história se encontram no Passeio Público. Trata-se de uma praça que hoje é patrimônio tombado e que fez parte do processo de modernização de Fortaleza, durante a chamada Belle Époque, no período entre 1850 ao início do século XX, marcado pela influência francesa na arquitetura e urbanização, entre outras áreas. Com o tempo, o local recebeu várias denominações. O nome oficial é Praça dos Mártires, em homenagem aos rebeldes da Confederação do Equador, que foram ali executados. O logradouro é a verdadeira demonstração de como monumentos históricos podem ser conservados e adaptados durante as gerações.

Professor e doutorando Willams Lopes, 29. Foto: arquivo pessoal.

Apesar de ser, atualmente, um local seguro e frequentado por vários públicos, anos atrás a praça recebeu algumas reformas pontuais. A falta de atenção com a Praça dos Mártires, atraiu, durante as noites, prostitutas e usuários de drogas. Em 2007, o local passou por um processo de revitalização. A intenção das mudanças eram, além de melhorar a infraestrutura da praça para o turismo, também trazer de volta os moradores da cidade. A volta desses frequentadores expulsou as prostitutas e os usuários de drogas. Essa segregação esteve presente durante a história do Passeio Público que, na sua fundação, foi dividido em três espaços para separar as pessoas de acordo com a sua classe social.

O JornalismoNIC entrevistou Willams Lopes, 29, professor universitário e doutorando em sociologia, que teve sua tese de mestrado baseada na requalificação do Passeio Público. O professor falou sobre as mudanças que ocorreram durante o tempo e a importância da praça no contexto da cidade.

Jornalismo NIC: Por que existia essa necessidade de divisão da praça em seções? ?

Willams Lopes: Quando o Passeio Público foi criado, na passagem do século XIX para o século XX, a praça foi se constituindo realmente em três planos e esses três planos são apresentados por muitos historiadores e memorialistas como lugares que eram habitados e utilizados por classes sociais diferentes. Isso não era uma necessidade, mas um reflexo da sociedade da época. No livro “Fortaleza de ontem e de hoje”, o [arquivista Miguel Ângelo de] Azevedo mostra o primeiro plano que existe até hoje. Ele era frequentado pela sociedade local e por uma sociedade mais abastada. O plano do meio, que hoje é um estacionamento da 10° Região Militar, era frequentado por um público de classe média, na época. E o terceiro plano, que se estendia desde a Avenida Leste Oeste até o mar, era um plano frequentado por prostitutas, por pessoas que trabalhavam ali no mar e posteriormente no Porto do Mucuripe. Com isso, a gente percebe que essa forma como as pessoas utilizam o espaço mostra a estratificação social que existe na própria sociedade. Então, não é muito como necessidade, eu vejo mais como um reflexo da sociedade da época.

JN:  Um espaço de tanta importância para a cidade, não deveria ser mais preservado?

WL: Realmente, por um determinado período histórico, principalmente entre as décadas de 1980 e 1990, a praça sofreu esse abandono por parte do poder público, o que se refere às intervenções, visando a melhoria do espaço. No caso, as intervenções que apareceram em algumas gestões municipais eram pontuais. Foram poucas as intervenções que aconteceram e elas se voltavam muito pra questão da estrutura física do espaço, não havia uma preocupação com as sociabilidades ali presentes. A praça está situada no Centro de Fortaleza, e não é o que muitas pessoas dizem, de que o Centro deixou de ser visitado. Na realidade, a gente percebe uma mudança do tipo de público que passa a visitar o Centro da cidade. Não é mais aquele público abastado das populações mais ricas, mas, sim, populações de classes mais baixas. Com isso, a gente observa que alguns espaços deixam de ser utilizados por parte de segmentos que, muitas vezes, são vistos como prestígio aos espaços, como as classes médias altas. Mas é importante dizer que isto é uma questão de classe. Então, a praça deixa de ser utilizada por alguns segmentos ao longo da história e não recebe essas intervenções de uma maneira que possa abranger todo o espaço. Então, realmente, a praça se torna um lugar que vai ser frequentado pelas prostitutas, pelas meninas, como elas gostam de ser chamadas. Elas passaram a utilizar o espaço como um ponto para marcar os seus programas e, segundo alguns jornais, elas faziam programas lá mesmo.

JN: Quais motivos levaram ao processo de revitalização do Passeio Público?

WL: Para o Passeio Público, o termo que é mais empregado é o de “requalificação” (isso por escolha dos gestores do departamento histórico cultural e da Secretaria da Cultura). Não são motivos apenas locais, mas, no mundo inteiro, começa a existir um movimento urbanístico de realização de intervenções nos espaços públicos e, principalmente, em espaços que são considerados históricos e que estão degradados. O objetivo dessas intervenções é realizar reformas, não somente na sua estrutura física, mas também possibilitar a utilização do espaço. Ou seja, realizar intervenções que contribuam para a utilização do espaço. Então, isso acontece em praças, em bairros históricos, em orlas de mar e em rios.

JN: A revitalização pode ser considerada uma forma de se adaptar para um novo público?

WL: Essa é a questão central da minha dissertação de mestrado. Eu vou mostrar que a requalificação tem essa proposta, de não somente intervir no espaço de uma forma urbanística, pensando na sua estrutura física, mas pensar na sociabilidades daquele espaço. Muitas vezes esses espaços, que são considerados degradados, são espaços ocupados ou utilizados por um público considerado indesejado para o poder público. Essas intervenções, que visam trazer a melhoria, acabam tirando os antigos usuários que, na opinião deles [poder público], não dão prestígio para esse espaço e levam em conta o que dizem ser a opinião da sociedade. No caso do Passeio Público, essa ideia de atrair um novo público é dar prestígio ao espaço, fazer com que as pessoas vejam que é utilizado por determinados segmentos da sociedade. Não é qualquer tipo de pessoa que utiliza aquele local, existe um público que é desejado, que é almejado. Eu coloco que é um público de classe média alta, que é mais intelectualizado, das universidades, pessoas envolvidas com a própria gestão pública, que todos os eventos giram em torno desses segmentos sociais.

JN: Quais as maiores mudanças que aconteceram na praça?

WL: As mudanças de maiores impactos aconteceram em 2007, há dez anos, e foi a própria reforma da praça. Eles fecharam o espaço e teve toda uma reforma na sua estrutura física, teve uma preocupação com a questão histórica, com os monumentos que se encontram ali na praça, as esculturas, os bustos e as hermas. Também houve uma preocupação paisagística com o espaço, por conta da quantidade de espécies que tem ali, por ser um espaço bastante arborizado. Uma coisa interessante para se destacar é que as outras mudanças vão acontecendo ao longo do tempo, depois da entrega da praça, da reinauguração que, se eu não me engano, foi em outubro de 2007. Com isso, outras intervenções vão sendo realizadas, visando os usos do espaço. Então, você vai perceber projetos sociais, como o projeto “Pôr do sol”, que leva música nos finais de tarde e aulas de Tai Chi Chuan, na época. Teve uma atuação muito importante da ONG “Mediação dos saberes” que levou, durante as tardes dos dias de semana, revistas, jogos de xadrez e dominó, tentando fazer com que as pessoas utilizassem esse espaço. Outra coisa foi estabelecer a segurança no espaço. O discurso da segurança é muitas vezes repetido, não somente pelos gestores que estão no poder, mas, inclusive, pela própria população. Agora o espaço tem segurança, que é a Guarda Municipal de Fortaleza, e por conta disso o local pode ser frequentado. Eu destaco essas mudanças na estrutura física, a preocupação dos usos e das sociabilidades, a utilização do espaço e a questão da segurança.

JN: O Passeio Público é um retrato da história de Fortaleza. A revitalização fez a praça perder algo dessa essência?

WL: Na minha opinião, todo esse processo de revitalização do espaço que aconteceu  não fez a praça perder a sua essência. Projetos de requalificação são fundamentais, mas a crítica que nós fazemos é a maneira como a requalificação é realizada. Muitas meninas, prostitutas, na época, falavam sobre essa questão delas terem sido expulsas do local. Para os gestores, se as meninas são consideradas um público indesejado, eles procuram rapidamente encontrar mecanismos e estratégias para retirá-las daquele espaço, fazer com que desapareçam dali. Se observarmos a praça, vamos perceber que elas se deslocaram de lá, mas foram para o entorno. O entorno tem alguns bares, boates e motéis, onde elas também utilizam. Então, a requalificação traz de volta essa questão da memória e procura reforçar a questão do patrimônio. Mas, a crítica que nós fazemos é a maneira como ela é realizada, porque pode, com isso, está gerando mais segregação, reforçando a estratificação social.

JN: Qual a importância do Passeio Público para a sociedade fortalezense?

WL: O Passeio Público é importante como um lugar de memória da nossa cidade. A partir dali, nós podemos destacar movimentos e acontecimentos, como a Confederação do Equador (movimento republicano separatista de 1824) e o que ela representou para o Estado. Nós podemos  destacar movimentos como a Padaria Espiritual (movimento literário de Fortaleza vigente no final do século XIX) e outras coisas que aconteceram ao longo dos anos, que contam a história da cidade. Então, o lugar é importante como patrimônio, como uma estrutura física e como um espaço que nos traz a lembrança daquilo que nós somos. Ele tem uma importância porque ele conta a história da cidade. É um patrimônio tombado a nível federal, estadual e municipal. Mas, sofre pelo fato de que as intervenções que são realizadas, normalmente, pela gestão da Secretaria da Cultura, pela gestão municipal de uma maneira geral, porque essas intervenções são feitas de uma maneira muito pontual, fazendo que aconteça uma reforma aqui, outra ali e com isso a gente não percebe uma integração. Se nós formos observar, o Passeio Público está em uma rua que é muito importante, que tem uma série de prédios considerados históricos, que muitas vezes as suas histórias não estão conectadas umas às outras. Então, eu destaco sim essa importância do Passeio Público para a nossa sociedade, para contar a história de quem nós somos.

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