Neila Fontenele: “Existe hoje uma tentativa de separar a política da economia”

Por Luiza Ester

Quando se fala em economia, invariavelmente se pensa apenas em números, gráficos e estatísticas. Contudo, ela é uma área de estudo mais social do que se imagina. Para Neila Fontenele, jornalista especializada na área de Economia, essa ciência é completamente inseparável da política.

Embora muitas pessoas tentem fazer essa distinção, não tem como separar a economia da política de um país. Em “Para uma crítica da economia política” (1857), de Karl Marx, “o modo de produção da vida material condiciona o processo geral de vida social, política e espiritual”. De acordo com Neila, os discursos que se observam nos veículos de comunicação são bem articulados para convencer a sociedade de uma separação inexistente, como o filósofo cita.

A jornalista Neila Fontenele. Foto: Luiza Ester

Entre diferentes assimilações, variáveis e dados, o papel do jornalista é transformar as mudanças de mercado em uma narrativa interessante para os leitores. Neila atua nessa área há mais de 20 anos. Jornalista com MBA em Marketing, atualmente apresenta os programas “O Povo Economia” na Rádio O POVO/CBN e na TV OPOVO. Ela também assina a coluna “O Povo Economia” do jornal O Povo.

Neila concedeu uma entrevista exclusiva ao Jornalismo NIC, momentos antes do “II Seminário de Jornalismo Econômico”, realizado no dia 14 de novembro, na Universidade de Fortaleza (Unifor). Ela fala sobre os desafios da profissão e o cenário econômico atual.

Todos os dias valores e dados são atualizados na economia. Qual o maior desafio do Jornalismo Econômico?

É estabelecer, realmente, os valores. Porque essa oscilação de mercado, subir, cair, faz parte do processo. Oferta e demanda dos agentes. Então, a gente tem que acompanhar isso mesmo. A grande questão hoje pra gente é conseguir acompanhar o que realmente tem valor, o que realmente muda a vida das pessoas, o que realmente tem significado. Porque a gente vive em uma sociedade tão compulsiva, tão acelerada, que a gente, às vezes, não consegue perceber o que realmente influencia a vida das pessoas.

Como é possível tornar compreensível a linguagem econômica para os leitores que são leigos nesse assunto?

A economia é uma área linda. É uma janela para se enxergar o mundo. Tem uma linguagem técnica, como todas as áreas têm, mas é uma linguagem palatável [prazerosa]. Muitas dessas palavras técnicas, desses conceitos, eles já estão introjetados no nosso dia a dia. Como a gente tem uma cultura inflacionista, a gente passou por períodos, nós já temos, na nossa linguagem, palavras que foram já incorporadas do mercado. Então, a gente fala de inflação com muita tranquilidade… a gente fala de indexação de preços, que é um termo, um conceito econômico com muita tranquilidade… no dia a dia. As pessoas simples já falam isso. O desafio para o jornalista é transformar isso em uma coisa interessante, porque isso já está tão desgastado no nosso dia a dia que, muitas vezes, a gente não percebe o que realmente está acontecendo. A gente é engolido por essas mudanças no mercado. Muitas vezes, a gente não consegue dar a verdadeira dimensão do significado dessas palavras na vida. Por exemplo, a inflação subiu a gasolina em 12%, a energia mais 10%, o gás de cozinha mais 13% e a inflação do ano, calculada pelo banco central, vai ser 3%… Como, se tudo subiu 12, 10, 13 por cento, chega a 3% no final? Então, essa mágica dos números é que nós jornalistas temos dificuldades de mostrar para a sociedade.

Qual a relação entre a política e a economia?

Não tem como separar. Existe hoje uma tentativa de separar a política da economia por uma razão administrativa de país, de governo. Porque o governo tá totalmente… esse governo, enfim, extremamente abalado, é um governo extremamente questionável e a equipe econômica precisou ser blindada para administrar e para ter alguma respeitabilidade. Então, o mercado tentou separar a política para blindar a equipe econômica, para não desmerecer os profissionais que estão no poder, administrando questões muito importantes para o país. Não tem separação, isso é mentira. É uma mentira contada muitas vezes, que tentam tornar verdade, mas isso não existe. Inclusive, todo discurso que hoje você vê nas TV’s, nos jornais, é um discurso muito bem articulado por esferas que estão no poder e tentam passar esse convencimento para sociedade. Só que existe no país um mito de que as pessoas não entendem. E as pessoas entendem. As pessoas fazem inovações, as pessoas pegam um celular que cabem três chips, que foi feito para grandes executivos, e compram um celular desse e administra para pagar menos conta de telefone. Então, as pessoas sabem sim. Existe um saber na sociedade que, muitas vezes, não é levado em conta, mas ele existe.

De que forma a imprensa pode influenciar a associação de uma baixa ou alta crise econômica em um povo?

Eu acho que não só a imprensa formal, mas hoje existe uma reverberação muito grande nas redes sociais, que aumentam essa sensação tanto de impotência, quanto a sensação de fragilidade diante das coisas. A gente vive hoje uma crise, uma falta de empoderamento diante da realidade. A gente fica esperando alguém que tome a atitude, que tome uma decisão, que resolva a situação, mas ninguém se sente capaz de organizar, de empoderar esses atores. Há uma descrença muito grande que é reverberada através da mídia, através das redes sociais. E boa parte desses números que estão aparecendo aí [na atualidade] são frutos de um amadurecimento social. A gente tem uma Lava Jato hoje, uma Operação Zelotes e outras tantas que estão acontecendo, em função de um amadurecimento social, que permitiu alguns agentes importantes, como polícia federal, como ministério público e outros que participam dessas operações, se integrarem, integrarem as informações e fazer investigações sérias. Então, isso faz parte de um amadurecimento social. Talvez, antes, houvesse até mais corrupção do que agora, mas a gente chegou a esse momento em função desse amadurecimento.

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