Mulheres ainda enfrentam intolerância no jornalismo esportivo

Por Andressa Câmara

O mundo do jornalismo esportivo por muito tempo foi dominado pelos homens, mas as mulheres têm procurado ocupar um lugar nessa área. A presença feminina nas redações de jornais e até nos gramados vem mostrando a força e a capacidade das mulheres dominarem o assunto. Entretanto, o preconceito no país do futebol ainda permanece.

Tatiana Alencar. Foto: arquivo pessoal

É cada vez mais comum encontrar alguma mulher interessada no jornalismo esportivo nas turmas de Jornalismo. Segundo uma pesquisa divulgada pela Federação Nacional dos Jornalistas (Fenaj), as mulheres representam 64% dos profissionais nas redações. Nas editorias de esportes, porém, seguem como minoria. Segundo a International Sports Press Survey (ISPS), apenas 8% dos textos jornalísticos pelo mundo na cobertura esportiva são assinados por mulheres. No Brasil, apenas 7%.

Tatiana Alencar, estudante de Jornalismo na Universidade de Fortaleza, teve o esporte como algo que sempre foi presente na sua vida e lutou pelo seu espaço mesmo com os preconceitos. “Sou ex-atleta de futsal. Meu pai, antes de falecer, disse que seria bacana se eu unisse a minha paixão pelo esporte e a minha facilidade com a escrita e a comunicação. Entrei no curso para ser jornalista esportiva e estou me formando já realizando este sonho”, relata.

Thais Pontes. Foto: arquivo pessoal

Thais Pontes também é estudante de Jornalismo da Unifor e ingressou no curso admirando os profissionais consagrados da área. “Tive o interesse de fazer jornalismo quando eu estava no 9º ano do Ensino Fundamental, com mais ou menos 15 anos. Sempre tive um amor muito grande pelo esporte desde pequena, principalmente pelo futebol. Sempre assistia, não perdia um dia do programa Globo Esporte e assim o meu amor pelo jornalismo esportivo foi crescendo. Desde então, assisto muito jogos, leio muitas notícias o tempo todo, acompanho a maioria delas pelo Twitter, para sempre ficar ligada no mundo do futebol, o que está acontecendo. Não passo um dia sem ver algo de futebol”, comenta.

Preconceito

Ainda vítimas de preconceito, as mulheres lutam pelo seu espaço, uma situação rotineira no dia a dia da jornalista “A ideia de que mulher não pode falar de futebol está ultrapassada apenas para a bolha em que a gente vive. Eu vivo muito na bolha das minorias, de amigas que, como eu, são empoderadas, de pessoas mais esclarecidas. Mas a realidade é diferente. A grande maioria ainda não vê com bons olhos. É uma luta diária ser uma mulher num meio predominantemente masculino”, conta.

Segundo Tatiana, o assédio é algo muito presente e já passou por episódios embaraçosos no ambiente de trabalho. “Não só por torcedores, mas também por colegas de trabalho. A gente escuta piada machista o tempo inteiro e aprende a ter jogo de cintura. O começo é sempre mais difícil, hoje em dia isso é mais raro, mas acontece. É uma luta diária, como eu disse, mas a gente é massa, a gente é mulher, a gente luta e resiste!”, exalta.

Thais acredita que  “o papel da mulher nesse meio mostra que o futebol é para todos, independente quem for mulher ou homem. Quebra o paradigma que o esporte deve ser bruto, machista e perigoso. Mostra que o futebol pode ser entendido por todos os gêneros, que não é tão complicado de entender, como a maioria pensa. Até fazem piadas perguntando ‘você sabe o que é impedimento?’”.

Temática

O esporte não é só uma predominância masculina dentro das redações como também dentro das temáticas, ainda na pesquisa realizada pela International Sports Press Survey (ISPS), mostrou que o jornalismo esportivo é um mundo masculino também na temática: do material veiculado em jornais de 22 países, 85% das reportagens é sobre atletas e modalidades masculinas e apenas 9% sobre mulheres atletas ou modalidades femininas (os outros 6% não especificam gênero).

Para Thais, a explicação no foco masculino está no modo como ficou estabelecido em sua origem. “Acontece porque o futebol sempre foi relacionado ao mundo masculino, desde quando foi o esporte foi criado. O ‘sempre’ que eu digo é que falam que o esporte é apenas para os homens. Infelizmente, a maioria ainda pensa dessa maneira. A mídia também é uma das grandes culpadas dessa estereotipização. Muitas vezes passa uma imagem de que a mulher só serve para ser líder de torcida, para sexualizar, justamente por pensarem que o esporte é para os homens. Assim, nós perdemos o respeito para exercer a nossa profissão e até por simplesmente só gostar de futebol”, diz.

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