A poesia viva da Lagoa de Messejana

Por Luiza Ester

A índia Iracema e o seu abrigo. Foto: Luiza Ester

O azul do céu, o branco das nuvens, a sombra das árvores e de uma índia. O cenário retratado poderia servir de ilustração para um livro. E, de certa forma, é. O reflexo das águas da Lagoa de Messejana, localizada na capital cearense, espelha a maior tradução da literatura de José Alencar e do cotidiano dos habitantes de um bairro rico em História e estórias.

“É como se a realidade se confundisse com a ficção”, diz Edmar Freitas, 63, poeta, escritor e morador de Messejana. O romance “Iracema”, publicado por José de Alencar em 1865, conta a história de uma índia que, em momentos de melancolia, chorava às margens da lagoa. Na obra, a ave jandaia cantava para Iracema em seu ombro. Atualmente, com a presença monumental da estátua da índia na Lagoa, são as garças que a fazem companhia.

A Lagoa de Messejana abriga a representação de 12 metros de altura da “virgem dos lábios de mel”, como José de Alencar chama Iracema em seu livro. O monumento e o espelho d’água que o cerca são considerados patrimônios culturais. Para Edmar Freitas, além dos relatos contidos no romance, a lagoa se tornou musa para muitos poetas. Em seus poemas, por exemplo, ele diz traduzir tudo isso de maneira lúdica, mas sem esquecer as questões sociais e econômicas que afetam, constantemente, as águas e o seu entorno. Em seu livro “Poemas de Amor à Messejana”, de 2010, quatro poemas são dedicados à segunda maior lagoa de Fortaleza.

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Resistência

“Embora ela tenha, através dos séculos, sofrido com intervenções nada convencionais por parte do homem, ela continuou resistindo. E é essa capacidade que ela tem de se renovar a cada água nova, a cada janeiro, que me maravilha”, conta o poeta. A lagoa, que faz parte da bacia do Rio Cocó, o permite acreditar em uma possível preservação da natureza. Já para a comunidade, Freitas considera ser um espaço de lazer e lembra que, além disso, ela proporciona um “milagre diário”. Todos os dias, tira de suas entranhas peixes que garantem a sobrevivência de muitos pescadores do bairro.

“A Lagoa de Messejana tem um valor histórico inestimável, pois ela testemunhou a vida em seu entorno através dos séculos”, afirma Freitas. De acordo com ele, suas margens acolheram os índios potiguaras, os jagunços (no Nordeste brasileiro, homens que serviam de guarda-costas à personalidades influentes) de Padre Cícero e sertanejos do interior do Ceará.

Para Freitas, a urbanização da Lagoa, embora não tenha sido na medida ideal, foi necessária. “Hoje ela não teria nem metade de sua área”, opina. De acordo com o “Relatório de batimetria das lagoas de Fortaleza”, de 2006, ela tem 33,7 hectares e um volume com mais de 865 mil metros cúbicos de água.

História

Lagoa de Messejana nos anos 20. Foto: Reprodução/ Fortaleza Nobre

A Lagoa assistiu a aldeia “Messejana” se elevar à Vila e, posteriormente, à cidade, onde o escritor José de Alencar nasceu. Hoje, Messejana é um dos bairros de Fortaleza. Segundo Alves Neto, 31, historiador, o arquivo público de Fortaleza e a Biblioteca Menezes Pimentel possuem registros oficiais sobre o bairro. “Para um aldeamento ser elevado à Vila, existia uma inspeção a época, de quantas casas construídas e quais equipamentos o lugarejo já possuía. Existe uma coisa que nós historiadores chamamos de ‘vazio historiográfico’ sobre Messejana”, conta.

De acordo com o historiador, quem pesquisou Messejana o fez há muito tempo e, por isso, não há estudos tão sólidos sobre a lagoa em si. Em sua concepção, existem mais registros literários do que historiográficos sobre o espelho d’água. O que se sabe é que foi ao redor dela que Messejana se formou. “Como ocupação, ela tem importância básica de sobrevivência dos colonos”, afirma.

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