Arlindo Névoa, o profissional que lida com a morte

Por Ana Luiza Souza

José Arlindo Névoa, 61, nasceu em Araraquara, uma cidade do interior do Estado de São Paulo, distante 270 quilômetros da capital paulista. Ainda na infância, Arlindo começou a trabalhar no cemitério da cidade. Desde então, lida diariamente com a morte. Mesmo sem formação acadêmica, se tornou especialista em tanatopraxia, uma prática de limpeza e conservação de cadáveres. Apesar de preparar corpos e mais corpos para o sepultamento todos os dias, Arlindo não vê a morte como algo negativo, mas, sim, como algo orgânico e inexplicável. “A morte é uma coisa natural, que acontece pra todo mundo e acontece só uma vez, mas não tem explicação pra ela”, relata.

“A morte é uma coisa natural, que acontece pra todo mundo e acontece só uma vez, mas não tem explicação pra ela” (José Arlindo Névoa)

Arlindo cresceu na casa dos avós maternos, em Araraquara. Ainda muito jovem, com apenas sete anos, ele buscou uma forma de ajudar seus avós financeiramente. Apesar de sua família ser de classe média, eles enfrentavam algumas dificuldades e até moravam em uma favela. Na época, segundo ele, era comum as crianças desenvolverem alguma atividade para aumentar a renda familiar. “Com sete anos eu já buscava trabalhar. Já era o objetivo das crianças trabalhar e pensar em fazer algo para ajudar a família”, conta. Arlindo passou, então, a acompanhar o tio, que era coveiro, e o avô, que era diretor do Instituto Médico Legal (IML) de Araraquara, em suas profissões. Aos 13 anos, ele já trabalhava abrindo jazigos no cemitério e também acompanhava autópsias de corpos e verificações da causa mortis no IML, o que fez com que ele se acostumasse a lidar com a morte. “Então, aquilo foi se tornando algo normal para mim, uma profissão. Porque, dali, eu ganhava um dinheirinho e eu podia ajudar em casa”, relata.

Quando completou 18 anos, Arlindo tirou a Carteira Nacional de Habilitação – CNH e conseguiu um emprego de motorista em uma funerária da cidade. Com a rotina da empresa, Arlindo começou a participar da preparação de corpos para o sepultamento. A partir daí, passou a enxergar seu futuro na área. “Na funerária, aprendi que eu poderia ganhar dinheiro na reparação de corpos, arrumação de corpos para viagens, embalsamento de corpos. Eu fui aprendendo tudo depois que entrei nela. O conhecimento avançou e comecei a enxergar que essa seria uma profissão. Era algo que eu gostava”, relata.

Já experiente no ramo, se tornou gerente da funerária. Isso possibilitou que Arlindo ganhasse conhecimento na área administrativa e abrisse o próprio negócio no ramo funerário, com auxílio dos pais. Entretanto, a relação dele com os pais não era muito boa e o negócio não vingou. Já em 1994, Arlindo foi apresentado à técnica da tanatopraxia, que é diferente do embalsamamento de corpos realizados por ele até então. “Depois de 24 horas, o corpo começa a se decompor e ninguém presta atenção nisso. E ali é a mãe de alguém, é filho de alguém, é irmão de alguém. Com esse tratamento da tanatopraxia nós bloqueamos isso daí”, conta.

“Depois de 24 horas, o corpo começa a se decompor e ninguém presta atenção nisso. E ali é a mãe de alguém, é filho de alguém, é irmão de alguém. Com esse tratamento da tanatopraxia nós bloqueamos isso daí” (José Arlindo Névoa)

Conhecendo a tanatopraxia

Ainda como gerente da empresa, Arlindo se muda para São José do Rio Preto, também no interior paulista, para representar a funerária que ele gerenciava na época. Entretanto, ele pretendia aprender a prática da tanatopraxia e não continuar com seu cargo de gerente da funerária. Foi nesta cidade que Arlindo conseguiu entrar em contato com as técnicas de preservação e preparação de corpos. Ele era curioso e logo se encantou com a prática da tanatopraxia. “Foi tudo na base da curiosidade. Então, eu era doido, alguém falava em fazer uma restauração de corpos e eu ia. Eu podia estar fazendo o que fosse, podia estar de folga, mas abandonava tudo que eu estava fazendo e ia. Então, para mim era uma coisa que eu gostava muito”, relata.

No ano de 2002, novas oportunidades surgiram na vida do tanatopraxista. Convidado por um empresário do ramo fúnebre, Arlindo veio à capital do Ceará, Fortaleza. No Ceará, Arlindo começou a montar uma nova clínica de preparação de corpos para o sepultamento. O espaço, logo após sua inauguração, começou a ter uma grande procura por parte das funerárias, uma vez que o tratamento da tanatopraxia é muito importante para recuperação da aparência do corpo morto. No mesmo ano, ele decide então abrir sua clínica de tanatopraxia. Em um local alugado, Arlindo passa a adaptar o espaço às necessidades da tanatopraxia, suas técnicas e seus materiais. Desde então, Arlindo trabalha todos os dias em sua clínica.

“Foi tudo na base da curiosidade. Então, eu era doido, alguém falava em fazer uma restauração de corpos e eu ia, eu podia estar fazendo o que fosse, podia estar de folga, mas abandonava tudo que eu estava fazendo e ia. Então, pra mim era uma coisa que eu gostava muito” (José Arlindo Névoa)

Local de trabalho do tanatopraxista. Foto: Ana Luiza Souza

Especialista mesmo sem formação

Arlindo trabalha com o ramo funerário desde os sete anos. Foto: Ana Luiza Souza

Em Fortaleza, ele aplicou seus conhecimentos como tanatopraxista e como gestor de empresas em seu negócio. Entretanto, algumas dificuldades surgiram, principalmente em relação a interação com as pessoas. Na carreira de Arlindo, não são os mortos que o assustam e, sim, os vivos. “Nós vivemos num país em que todos querem levar vantagem sobre os outros. Então eu encontrei e encontro dificuldades até hoje”, revela.

Por lidar com a morte a tantos anos, Arlindo tornou-se especialista no assunto. Ele fez cursos, aprimorou técnicas e até inventou fórmulas químicas para a reconstituição da aparência dos corpos mortos atendidos em sua clínica de tanatopraxia. Arlindo é considerado por muitos um especialista no ramo da tanatopraxia. Ele já até ministrou palestras e cursos a respeito do tema, mas revela que não compartilha suas técnicas com ninguém. “Aqui na clínica é como se eu estivesse lidando com a fórmula secreta da Coca Cola, não conto pra ninguém”, conta.

Com 23 anos de profissão, Névoa já chegou a imaginar como serão os cuidados que ele receberá ao morrer. Entretanto, ele evita pensar nisso com frequência. Para ele, o que mais importa é levar uma vida tranquila, segura e sempre em função daqueles que estão ao seu redor. “Para mim, vida é isso, viver um dia após o outro, procurando cuidar. Cuidar das pessoas que estão ao seu redor. Cuidar, ajudar, porque é assim que funciona o mundo, um ajudando o outro” revela o tanatopraxista.

Para José Arlindo, sua motivação é ajudar a família a conquistar uma vida melhor do que teve quando criança. Arlindo tem quatro filhos – duas mulheres, uma enfermeira em São Paulo e a outra comissária de bordo de voos internacionais; e dois homens, um doutorando em Direito em Paris e o outro trabalha em sua clínica, também como tanatopraxista. Foi por meio da profissão de tanatopraxista que ele conseguiu garantir uma vida melhor para os quatro filhos, por isso ele fala com muita gratidão desta carreira.

A tanatopraxia não foi algo que surgiu na vida de Arlindo por acaso. Apesar de não ter escolhido este ramo para si, ele se apaixonou pelo trabalho e, segundo ele, é à tanatopraxia que ele deve tudo o que conquistou para sua família e para si. “O sustento da minha família é consequência daquilo que eu faço e do que eu gosto de fazer. O que mais me motiva são meus filhos, tudo que eu passei de ruim na minha vida eu pensei assim ‘isso eu não quero que aconteça com meus filhos’. Quando eu morrer, vai ficar tudo pra eles. A condição de estudar, de poder ser o que quiserem ser. A herança que eu tô deixando pra eles.”

‘Causo’ incomum

Em todos esses anos, o único caso curioso em sua profissão aconteceu na primeira funerária em que trabalhou, onde era motorista. Em seu primeiro dia de trabalho, ficou responsável de buscar um corpo que havia sido encontrado na margem de um rio. Ao chegar lá, encontrou o corpo em um estado assustador, pois o homem havia morrido afogado muito tempo antes. O cadáver estava em completo estado de deterioração e, inclusive, sem um dos olhos. Mas, o então motorista, realizou seu serviço normalmente. Chegada sua hora de descanso, como já era madrugada, Arlindo resolveu dormir na funerária. Ao dormir naquela noite, conta que o corpo apareceu em seu sonho. E o mais estranho: o morto queria jogar futebol. “Ele tava sem olho, todo estanho e querendo jogar futebol comigo [risos]. Eu dizia pra ele que não. Não, rapaz, cê tá morto, tem que tá no necrotério, não jogando comigo”.

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