“Para o adolescente é tudo ou nada”

Por Melissa Carvalho

Transformações físicas e emocionais marcam a adolescência. Durante essa fase, a busca pela aceitação e a necessidade de pertencimento fala mais alto. A vontade de estarem incluídos em algum grupo faz com que jovens ajam de forma impulsiva, na tentativa de ter a aprovação dos amigos. Drogas, automutilação e depressão podem ser decorrências dessas tentativas de inclusão.

“O consumo de álcool pode ser iniciado cedo, dependendo do envolvimento dos amigos com a substância.”
Foto: reprodução.

Uma pesquisa realizada pela Universidade de São Paulo, em 2014, constatou que a influência dos amigos sobre a chance do uso de alguma droga depende da categoria e do envolvimento com a substância. “Os adolescentes que relataram ter amigos que usam regularmente álcool e/ou drogas tiveram 3,4 vezes mais chances de usar apenas álcool, 4,6 vezes mais chances de usar apenas tabaco, 7,2 vezes mais chances de usar álcool e tabaco e 8,6 vezes mais chances de usar drogas ilícitas do que aqueles que não tinham amigos que usavam drogas regularmente”, comprovou o estudo “A influência dos amigos no consumo de drogas entre adolescentes”. A pesquisa também revela que a interferência dos pais nas amizades pode incentivar a aproximação dos filhos às más influências.

Em alguns casos a influência pode acontecer bem cedo. Para, Carlos Silva (nome fictício), 32, o  primeiro contato com drogas aconteceu aos 15 anos, por insistência de amigos. Logo, se tornou viciado em cigarro e maconha. A dependência em substância persistiu até os 27 anos e, durante esse período, Carlos passou a usar drogas mais pesadas. “A recuperação, por incrível que pareça, se deu por iniciativa própria. Nunca tive recaída. Hoje, tenho contatos esporádicos com muitos daqueles amigos do colégio, a maioria ainda usa substâncias, uns com controle, socialmente, outros totalmente reféns”, relata.

“Hoje, tenho contatos esporádicos com muitos daqueles amigos do colégio, a maioria ainda usa substâncias, uns com controle, socialmente, outros totalmente reféns” (Carlos Silva)

Francisca Vieira, psicóloga e palestrante.
Foto: Arquivo pessoal.

Quando nem fatores, como álcool e drogas, conseguem incluir os adolescentes em um grupo de amigos, alguns métodos podem servir como “refúgio”. Segundo a psiquiatra Jackeline Suzie Giusti, para o portal “Universo Humano”, a automutilação pode ser uma forma de lidar com fortes emoções. “Com o decorrer do tempo, o paciente observa que obtém alívio de sensações ruins e passa a repetir a automutilação com o objetivo de obter alívio novamente”, afirma.

O Jornalismo NIC conversou com a psicóloga Francisca Vieira, 42, palestrante nas áreas Psicoeducacionais (Depressão, Depressão Pós Parto, Baby Blues, Autoestima, Prevenção ao suicídio). A entrevista abordou assuntos relacionados à influências que os adolescentes recebem dos amigos, os problemas que podem acarretar e como os pais podem lidar com essa situação.

Por que existe essa necessidade tão intensa de aceitação durante a adolescência?

Pela necessidade de pertencimento que é o primeiro princípio da Lei Sistêmica – PERTENCER (família, grupos sociais e tribos por afinidades). E quando se fala em Sistema Familiar, todos, sem exceções têm esse direito de pertencer. É importante salientar que essa busca por aceitação a todo custo pode começar na infância, principalmente quando esta criança enfrenta problemas na construção da autoestima. Quando ela não é valorizada no seio familiar. Se o adolescente não se sente valorizado na família e pela família, ele pode procurar outras referências fora dela. Na transição da puberdade para adolescência, o sujeito deixa de olhar para o contexto familiar, que até então era sua única referência social, e passa a olhar para a esfera externa, para fora do núcleo familiar (escola, igreja, clubes ect). Então, ele começa a buscar grupos\tribos por afinidades, e nesta busca ele pode encontrar grupos que não reivindique nenhuma ação considerada “anormal” pela família, mas também, pode encontrar grupos que ele tenha que se adequar ao grupo para ser aceito. Se ele está com uma personalidade fragilizada, emoções abaladas, certamente vai se submeter ao que o grupo solicita.

Quando se olha para o sujeito em construção, percebe-se que a necessidade de pertencimento abarca todas as fases da vida. Quando lançamos um olhar Sistêmico para vida e\ou para o ser humano em geral, é perceptível que todos querem pertencer a algo ou alguém.  Ou seja, todos têm, em maior ou menor grau essa necessidade externa de ser aceito. Quando se trata da adolescência isso é mais forte, mais intenso, porque a intensidade é uma das características da adolescência. Tudo para o adolescente é tudo ou nada. Eles têm uma necessidade maior de pertencimento. O primeiro núcleo que o indivíduo pertence é a família, depois vem a escola, a igreja, o clube etc.

Automutilação e depressão são problemas que podem ser agravados ou ocasionados devido a essa falta de aceitação?

Sim. Para o hospital das Clínicas de São Paulo, a automutilação cresce assustadoramente no Brasil, chegando a ser considerado um estado de calamidade pública. A necessidade da automutilação surge a partir do auto ódio, baixa estima, solidão, culpa e dor psicológica, abusos físicos, psicológicos ou sexual.

A Depressão também, tem desapontado com muita força nos últimos tempos, atingindo principalmente crianças, adolescentes e jovens. O Transtorno Depressivo, segundo a OMS – Organização mundial da Saúde, afeta 322 milhões de pessoas em todo mundo (dados de 2015). No Brasil, afeta 5,8% da população, ou seja, 11,5 milhões de Brasileiros enfrentam esse Transtorno, inclusive crianças e adolescentes.

A não aceitação de si, normalmente surge na relação familiar. Quando uma família é disfuncional, gera pessoas disfuncionais também. Aqui entra a questão da construção da autoestima como já supracitado acima, bem como, a construção da identidade do sujeito que começa na família. Quando esse adolescente tem uma imagem distorcida de si, ele não se sente aceito, acolhido dentro da família, pode desencadear uma necessidade “patológica” de ser aceito pelo grupo.

A automutilação é um indicador que o adolescente está enfrentando algum problema de cunho emocional\psicológico e não sabe como lidar com a situação. O ato de se automutilar é uma forma dele expressar isso. A Depressão por exemplo, o Transtorno Alimentar, Transtorno Borderline dentre outros. Quem se corta, não o faz porque quer fazer, mas sim, para aliviar a dor psicológica\emocional que o atormenta. Certa vez ouvi de uma paciente (adolescente) a seguinte frase: “Eu sinto tanta dor no meu psicológico que eu tenho que sentir a dor física, preciso ver o sangue correr na minha pele para tirar atenção da minha cabeça”. Segundo a psiquiatra Jackeline Giusti, uma média de 20% dos adolescentes já se automutilaram uma vez na vida. Uma pesquisa feita pelo Hospital das Clínicas de São Paulo, trás a automutilação como sendo um estado de saúde pública.

Como evitar que o “eu” da pessoa se perca no grupo de amigos?

Tudo parte do princípio básico da educação – exemplo. Segundo Augusto Cury, médico psiquiatra, o exemplo é a única forma eficaz de se educar um filho. É salutar que os pais se façam presentes nos primeiros anos de vida dos filhos. Que aprendam a lidar com as diversidades, com as fases do desenvolvimento humano. Busque conhecer sobre criar e educar filhos. Buscar dar uma base familiar sólida, dialogar, ouvir e dar espaço para esse/a filho/a falar de seus sentimentos, emoções. Ajudar o/a filho/a construir uma crítica saudável acerca de suas amizades. Não acusar e não julgar.

Muitos pais cometem esse erro de julgar o “amigo” como não “adequado” para seus filhos ou suas filhas. Fazendo isso, vai ter guerra sim, porque o adolescente vai rebater e vai defender os amigos. Quando os pais a ajudam nessa construção crítica do que é saudável ou não, a tensão na família diminui.  Quando o adolescente tem a segurança na família, tem a abertura para o diálogo nessa fase, dificilmente o vínculo se rompe. Estimulá-lo a buscar autoconhecimento também é uma forma de evitar que as influências dos amigos prejudique. Esse conhecimento que o “eu” tem sobre “si mesmo” tem dois aspectos distintos: por um lado, um aspecto descritivo chamado autoimagem (como ele se ver) e por outro, um aspecto valorativo, a autoestima (como eu sou, quem eu sou nessas relações). Se a estima estar firme, fortalecida nada o abalará. Fortalecer as funções egoicas desse adolescente é um caminho.

Durante a adolescência, é comum o comportamento rebelde? Como a família pode lidar com esses problemas?

Sim. É fase de muitas transformações e inquietudes para o indivíduo. São mudanças em todas as esferas da vida: física, hormonal, psicológica, tecnológicas (é nessa fase que os pais dão um celular com internet para os filhos se comunicarem melhor), mudanças de sentidos e sensações e na maioria das vezes o adolescente não é preparado para fazer essa travessia com menos impacto emocional. Os pais não estão preparados para preparar seus filhos, por mais que saibamos quem é uma fase inerente ao desenvolvimento humano. É importante ratificar que é comum a rebeldia, a “aborrescência” como alguns falam, porém, existem as exceções. Quando a família é funcional, tem condições psíquica para ajudar na construção da estima do(a)s filho(a)s, tem sim adolescentes que não sofrem tanto os impactos dessa transição.

Sendo pai ou mãe ou pais de seus/suas filho(a)s e não amigos apenas. Não confundir os papéis, deixá-los bem claros. É importante que esses pais se informe, leia, estude sobre adolescência, descubra quando ela começa e termina. Perceba o que funciona com seu adolescente. A psicoeducação, é o melhor caminho para essa busca. Conectar ao seu filho, ao invés de ficar 24h conectado nas redes sociais (Instagram, facebook, whatsapp, telegram, youtube…). Procurar investir tempo na relação familiar, ouvi-lo, deixar claro que você é o pai, amigo(a) e  parceiro(a), mas não amigo(a) simplesmente. Esclarecer bem os papéis nessa relação, limites e muita conversa. Dê abertura para seus filhos expressarem seus sentimentos, falarem de suas angústias, dores e dúvidas, respeitando o espaço e o tempo dele, mais sem mudar os valores da família. É uma fase que eles se distanciam mais fisicamente. Por exemplo, filhos que eram carinhosos, costumam ficar menos. Ao leva-lo num encontro com amigos, evitar falar com ele como se fosse uma criança, ele vai se sentir ridicularizado” perante aos amigos. Estejam atentos às mudanças comportamentais e emocionais dos filhos, as atitudes, se está mais irritado, isolado, indo mal na escola, precisa ficar ligado. Caso a família não se sinta apta a ajudar este adolescente, procure um profissional – psicólogo ou psiquiatra que poderão ajudá-lo, sem dúvida. E a família também, pode fazer parte do processo terapêutico, se a questão for crítica.

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