As diferentes gerações na família contemporânea

Por Luana Façanha

Álvaro Rebouças. Foto: arquivo pessoal

Uma “geração” é um termo que ajuda os sociólogos a entender de que forma pensam as pessoas nascidas em um certo período de tempo. É possível perceber, de forma generalizada, os valores, crenças e a visão de mundo dos indivíduos, classificados nas gerações X, Y, baby boomer, entre outras, de acordo com o psicólogo Álvaro Rebouças Fernandes. Essas mudanças de pensamento são influenciadas principalmente pelas tecnologias e pelas suas experiências com a geração passada. Essas diferenças são importantes fatores que influenciam a relação entre pais e filhos.

O cearense Álvaro Rebouças Fernandes, 45, é formado em Psicologia pela Universidade Federal do Ceará, e é especialista em Psicodrama e Abordagem Sistêmica da Família em uma linha de pesquisa chamada Sociodrama Familiar Sistêmico que, de acordo com o portal Terapia Familiar, “é uma modalidade psicoterápica inovadora que busca recuperar a espontaneidade dos sistemas por meio de um trabalho terapêutico, no qual o grupo familiar como um todo é considerado protagonista de um drama relacional”.

Álvaro Rebouças Fernandes concedeu uma entrevista ao Jornalismo NIC sobre as diferenças entre as gerações e como estas podem influenciar as relações entre pais e filhos.

O que são as gerações e como uma exerce influência sobre a outra ?

Começando pela definição da geração X, são as pessoas nascidas na década de 1960 e 1970, depois da geração baby boomer, nascida na época pós-guerra mundial. Enquanto a geração Y são pessoas nascidas na décadas de 1980 e 1990. Eles têm grandes diferenças, por questões sociais e tecnológicas. A tecnologia tem tudo a ver com a questão da geração X e Y. A geração em que eu nasci [X] é muito menos tecnológica, busca muitas relações, mas está questionando muito a geração anterior. A geração baby boomer procurava estabilidade, enquanto a geração X não tinha interesse por estabilidade. Esta, queria outras conquistas, e viriam questionando a compreensão de família e sociedades estáveis. A geração X sabe que a maturidade profissional e pessoal depende do tempo, e compreende que é preciso uma hierarquização, ou seja, é preciso aprender com quem sabe mais do que eu. Questionavam a estabilidade, mas assumiram que a hierarquização é algo necessário. A geração Y já não entende dessa forma. Em razão, inclusive, da inserção tecnológica e os questionamentos em termos sociais envolvidos nesse período, a velocidade que se ganhou, ou de que se viveu a geração Y, favoreceu para que ela se tornasse uma geração que procura respostas imediatas. Certamente, o período de maturação é algo que a pessoa deve construir, e não esperar que aconteça.

De que forma esses diferentes pensamentos podem interferir nas relações familiares?

Essa questão é bem interessante, apesar de ser diferente daquela vivida na geração X. A geração X estava questionando valores de uma família da década de 1950, mostrando que podiam ser uma família mesmo não sendo casados. Eram questionamentos voltados ao casamento, separando essa instituição da relação conjugal, esses valores de estabilidade. Tanto que o estabelecimento da lei do divórcio foi estabelecida [no Brasil] em 1977, na geração X. A geração Y já não questiona nesse alvo, já achava que precisava estabelecer uma vivência e que certa maturação precisava acontecer [antes de estabelecer uma relação com uma pessoa]. Já que são valores diferentes, vão ser movimentos diferentes, por exemplo, os movimentos de uma pessoa da geração X, dentro da internet, seriam movimentos de uma pessoa que se adaptou, enquanto na geração Y vão ser de pessoas que nasceram na era digital. Como eles são nativos [na era digital], a geração Y e posterior não acham isso [mundo virtual] estranho. Porque seus valores e suas crenças se adequam, e até se apropriam daquilo como sendo do seu contexto. Enquanto para a geração X, o contexto não era esse. Era o contexto de uma relação presencial em termos de presença real [física]. Não existia virtualidade. O mais virtual que via era a televisão, o contato à distância era por telefone.

Quais as diferenças entre a gerações Y e Millennial ?

Eu acho uma diferença bem mais sutil, bem menos entre a geração Y e geração X. Mas o que me parece é que a geração millennial é bem mais imediatista e perfeccionista do que a geração Y. As pessoas da geração Y ainda esperam, pelo menos, 2 anos para que o seu investimento tenha retorno. A geração Millennial não espera nada. É agora, ou aconteceu ou não aconteceu. Ou é aquilo, ou não é aquilo. É uma geração que escolhe com muita propriedade, porque tem as mesmas informações como a geração Y, mas esperam o retorno com mais velocidade. Em termos familiares, quando você junta todas as gerações, de fato, quem sai perdendo nessa história é quem se adaptou. Tanto é que a relação da geração Y com a geração Millennial, é muito mais tranquila em termos de compreensão do que é esse imediatismo e perfeccionismo da geração X. Por isso as grandes dificuldades são entre os pais e os filhos, e os professores e alunos.

E com toda essa diferença, como está a relação entre pais e filhos?

Hoje a relação, em termos de processos de era digital e de era das redes sociais, a dificuldade tem sido em termos de diálogo e em termos de presença. Não é uma presença virtual, é aquela presença física, e até emocional, na relação. As dificuldades que eu percebo têm sido justamente em termos de tempo. Porque as coisas são muito rápidas, e um está com o tempo de uma determinada vivência virtual, porque hoje não existe a distinção entre virtual e o não virtual [atual]. Tudo hoje é o virtual, porque ninguém está mais desconectado em nenhum momento. Estamos o tempo todo inseridos em uma compreensão virtual. E a dificuldade está sendo em termos de comunicação de como e com quem nós escolhemos estar juntos ou não, porque eu posso escolher estar com você, mas você pode escolher estar com A B ou C.

As diferenças poderiam também ter pontos positivos, apesar de terem pontos de vista diferentes ?

Então, nessas circunstâncias os valores e crenças de cada geração podem contribuir demais para o nosso crescimento, mas estamos disputando. Nós estamos fazendo uma competição, que deixou de ser competição e passou a ser luta. Imagina dentro da família, como é que fica uma relação conjugal? Esse discurso [de disputa] não é o discurso da geração Millennial, nem da geração Y. Mas eles fazem. Elas nem falam mais sobre isso, quem fala sobre isso é a geração X. Esse discurso aponta para a geração Y e geração Millennial. “Eu não aceito segundo lugar. Eu não aceito a derrota.”

Então, se estamos em uma competição que virou uma luta encarniçada para ver quem é o campeão, me diga o que você ganha? Você ganha um poder que você só pode exercer sozinho, e contra todos. Vai dizer que essa é a vitória? Então, essa vitória, de verdade, é a nossa grande derrota. Então, ou nós caminhamos para a cooperação e colaboração, ou esse processo de individualização vai fazer com que a nossa vivência, nossa crise de relação coletiva, se agrave muito mais. As crises políticas, crises financeiras, são todas crises de coletividade. Nós temos medo de viver coletivamente. Qualquer coisa nos ameaça. Porque o grande valor, é a individualidade.

E como, nas famílias de hoje, poderíamos contornar essa situação?

É preciso descobrir de família por família. Digo isso como terapeuta. Agora, o que é importante se descobrir é, justamente, uma relação de codependência sem vício. Porque, hoje em dia, tudo pode virar vício. Se você pega o celular e, daqui a pouco, você tem uma compulsão e não consegue mais largar o aparelho, você já está viciado. Não falo de uma relação que te leve ao vício, mas algo que leve você a depender do outro. Uma relação que me leve a compreender que “eu preciso do outro, porque eu não sou perfeito. Porque eu não sou o campeão sozinho. Porque eu não consigo fazer isso só, e muitas outras coisas”. Não é uma relação de submissão, não é uma relação assimétrica. É uma relação simétrica, em que eu possa dizer, “eu estou fazendo com você, e não contra você”.  

Você não precisa usar de coação com os pais e dizer algo de mesmo nível porque pode ser uma relação democrática. Mas, os  pais precisam dizer qual é o limite que os filhos têm que ter, dizendo, “desculpe, mas eu estou cuidando de você, e você precisa que eu cuide”. É essa relação de cooperação em que o filho diria, “eu preciso que você cuide de mim, e eu vou captar o que você está fazendo porque isso é bom para mim.” Porque quando filhos tem um problema, pode gerar um problema para todos. Esses pais precisam participar da vida desses filhos. E necessitar, porque “eu preciso que você seja meu filho, para dizer para mim como eu sou como pai”. Uma relação de complementaridade, que as duas pessoas se precisam, pois não posso ser pai se não tiver filhos. Ser provedor, é um outro papel. Uma relação entre pai e filho é uma relação de necessidade mútua, estabelecidas e resolvidas a partir do momento em que as pessoas se relacionam.

E também pode ser de um modo virtual. Mas esse modo não pode ser o único modo. O virtual, é uma ferramenta que ajuda o sujeito a se relacionar. Não uma barreira que o sujeito ergue para se relacionar. Então nessas circunstâncias, são os pais que precisam de filhos e filhos que precisam de pais.

É necessário dizer isso mesmo, e não é difícil falar isso. Agora, você assumir isso, é assumir que você pode fracassar como pai, e isso é maravilhoso, porque devemos aceitar o fracasso. Para qualquer geração, é preciso entender que você vai fracassar. E se você fracassar, vai precisar entender primeiro porque fracassou. Depois, você precisará dizer ao outro que fracassou. E depois se perguntar, “o que eu posso fazer?”. O outro que vai me dizer. Na relação de reciprocidade, você, como filho, vai dizer como gostaria que os seus pais se relacionassem. E os pais dizem se podem, se conseguem ser dessa forma ou não. E estabelecer os devidos limites, se podem aceitar ou não. Mesmo que o sujeito tenha responsabilidade por si, ainda há uma relação de codependência. Você não é totalmente dependente, e nem totalmente independente. E nessas circunstâncias você vai fazendo aquele jogo de diferenciação do papel um do outro e o estabelecimento de limites. Pois os filhos também podem dizer para os pais o que não aceitam. Assim, é possível estabelecer ótimos acordos sobre tudo isso.

Mesmo quando os pais são da geração Y, ainda há problemas de limites na família?

Existem. Muitos problemas, até porque são famílias de nova configuração. Já não são famílias consideradas de um núcleo só, são famílias de vários núcleos. Tem pessoas que se casam, mas que tiveram dois casamentos anteriores, com filhos desses casamentos. E constituíram um novo núcleo. Então, constituindo um novo núcleo, é preciso fazer uma série de ajustes, de acordo com um núcleo bastante flexível. Os parâmetros de limites também não podem ser rígidos, devem ser ‘acordados’. O outro tem que entender porque que você está dizendo isso.  É dizer “nós temos um problema, como podemos resolver?”

 

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