Simpósio debate violência contra LGBT+

Por Clara Menezes

“Se meu amor é igual ao seu, por que eu não sou livre para amar?”. Com esse trecho do videoclipe “IGUAL (Rio Pride)”, a plateia entoou como um grito de guerra para todos ouvirem. A palestra “Se me atacar, eu vou atacar” – que faz parte do III Simpósio LBGT da Unifor, discutiu sobre a violência e a marginalização sofridas pelos representantes da diversidade sexual.

Apenas em 2016, ocorreram 340 mortes motivadas pela homofobia no Brasil, segundo o levantamento feito pelo Grupo Gay da Bahia (GGB). “A raiz da nossa sociedade brasileira é patriarcal”, afirma o cofundador e diretor de Diversidade e Inclusão na startup, Todxs, Ítalo Alves, 25. Após 187 anos da “legalização” do direito de amar quem quer que a pessoa seja, para ele, o Brasil ainda não conseguiu ter um ensino que respeite a diversidade.

“A raiz da nossa sociedade brasileira é patriarcal” (Ítalo Alves)

Com o objetivo de combater esse preconceito, Alves fundou a primeira startup social brasileira sem fins lucrativos que promove a inclusão LGBT+. Denominada “Todxs”, o projeto tem a missão de empoderar essa comunidade, educando a sociedade e transformando o Brasil em um país inclusivo. Para isso, as pessoas podem, na startup, aprender sobre as leis e proteger-se; identificar ONGs LGBT+ perto para usar seus serviços; denunciar casos de discriminação e avaliar o atendimento prestado pelos oficiais.

Discurso conservador

Segundo Ítalo Alves, o discurso tradicional sempre volta com mais força em tempos de crise. Para ele, esse conservadorismo, que tem características provenientes do absolutismo e do dogmatismo, se propõe como Estado. Com isso, eles tentam hierarquizar os direitos. “Eles [conservadores] fazem com que as pessoas que não entendem se posicionem contra os movimentos LGBT+”, conta.

A mesa-redonda teve representantes da comunidade LGBT+ para debater. Foto: Pedro Ximenes.

Mas, “o discurso LGBTfóbico mata”, diz. De acordo com Alves, as pessoas são atraídas por pedaços ditos nos meios de comunicação e baseiam suas opiniões nisso. Para combater esses ideais, o cofundador da Todxs fala que é necessário intervir para mudar “as regras do jogo”.

Já para o ator, jornalista e militante pelos Direitos Humanos, Ari Areia, esses discursos de ódio contra a comunidade ocorre porque parte dos conservadores acredita que a população LGBT está lutando por privilégios. No entanto, segundo Ítalo Alves, a democracia não é apenas um governo da maioria, mas também da minoria. “Essa disposição de querer agredir alguém por sair do padrão de gênero gera violência”, afirma.

Representatividade

Em sua fala, Ítalo Alves demonstra a pouca representatividade vista na sociedade. Em um slide, o cofundador da empresa Todxs mostra que apenas 1 de 513 parlamentares brasileiros é abertamente LGBT. Além disso, ele afirma que não existe nenhuma lei federal que criminalize a LGBTfobia ou a discriminação por ódio. “Nós estamos em um ambiente que parece que nossos direitos estão sendo retirados”, conta.

“Nós estamos em um ambiente que parece que nossos direitos estão sendo retirados” (Ítalo Alves)

No Brasil, os transexuais são o grupo mais vulnerável. Com um total de 144 mortes em 2017, a sociedade brasileira é a que mais mata travestis e transexuais no mundo, de acordo com um levantamento do Grupo Gay da Bahia. Por causa dessa violência, a expectativa de uma pessoa trans é de 35 anos, metade da expectativa do resto da população, segundo dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), de 2016.

Como lidar

Para a professora de Direito Penal da Universidade de Fortaleza e delegada plantonista da Delegacia de Proteção à Mulher (DDM), Yasmin Ximenes, é necessário saber lidar com as pessoas homofóbicas. Ela conta a história de uma situação em que uma mulher chegou na delegacia para relatar que sua filha estava sendo abusada pela sua professora de Educação Física. Ao perguntar as idades, a mãe disse que as jovens tinham 17 e 19 anos, respectivamente. Então, a Yasmin insinuou que, talvez, sua filha estivesse em um relacionamento recíproco. E isso era realmente o que estava acontecendo.

​A plateia contou experiências de LGBTfobia. Foto: Pedro Ximenes.

A delegada acredita que é nas pequenas ações que a LGBTfobia vai se tornando menos frequente. Quando um casal homoafetivo sai de casa de mãos dadas, por exemplo, já é um ato de luta, de representatividade. “O pouquinho que você conseguir iluminar uma pessoa já serve”, conta Yasmin. No entanto, ela recomenda que os integrantes da comunidade LGBT+, sempre que possível, procurem fazer terapia para se fortalecer. A delegada aconselha isso, principalmente, porque viver em constante luta contra o preconceito traz muito estresse.

Enfrentamento

Relatando sua própria experiência, o jornalista Ari Areia fala como lida com os preconceitos em seu cotidiano. Para ele, o mais difícil foi a aceitação de seus pais e de sua sogra. Filho de pastor, o jornalista acredita que a aceitação vem permeada de afeto. Em outras palavras, na maioria das vezes, é necessário que as pessoas, na discussão, tenham um relacionamento afetivo para que se entendam e entrem em um consenso.

Com uma família extremamente religiosa, Areia conta que, apesar da lenta aceitação de seus pais, sua relação familiar ainda é cheia de “farpas”. No entanto, o relacionamento com sua sogra mudou completamente. A mãe de seu namorado, também evangélica, citava a Bíblia e os considerava um pecado contra Deus. Porém, foi só após perceber a tristeza que estava trazendo para seu filho que ela mudou. Hoje, sua sogra faz as compras com ele e seu namorado e os defende para outras pessoas.

Para o cofundador da Todxs, Ítalo Alves, às vezes, as pessoas acham que não são preconceituosas, mas são. Portanto, “é importante se impor para que elas percebam que aquele discurso machuca”, conta. De acordo com a psicóloga e mediadora, Karol Vidal, a LGBTfobia não existe, porque as pessoas não têm medo da diversidade sexual. Para ela, a melhor denominação seria “heteroterrorismo”, pois, na verdade, o que existe é o ódio.

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