Diversidade étnica em debate na Unifor

Por Ana Luiza Souza

Quem melhor para discutir sobre etnias do que uma mãe de santo e seu filho. Uma cacique, um africano e um antropólogo? O evento Ubuntu – Diálogos da Pluralidade reuniu na noite de ontem (09), na Universidade de Fortaleza (Unifor), estes representantes culturais. Em uma mesa redonda, os convidados discutiram sobre a diversidade de povos no Ceará, o preconceito e a violência religiosa.

O Ubuntu faz parte da 4º Semana de Hospitalidade e Lazer, intitulada “4º Bem-Vindo: Sinta-se incluído!”. O evento é uma iniciativa dos acadêmicos e professores da Graduação Tecnológica em Eventos da Unifor. Segundo a aluna do curso, Marília Sepulveda, 46, uma das organizadoras do evento, a mesa redonda é voltada para o público universitário. “Ubuntu quer dizer amizade, juntar os povos, amor ao próximo, tudo que possa juntar pessoas. O objetivo é trazer essa discussão para a universidade, trazer mais informação para os professores, alunos e quem frequenta a universidade”, explica Marília.

“Ubuntu quer dizer amizade, juntar os povos, amor ao próximo, tudo que possa juntar pessoas. O objetivo é trazer essa discussão para a universidade, trazer mais informação para os professores, alunos e quem frequenta a universidade” (Marília Sepulveda)

Durante a mesa redonda, George Carvalho, antropólogo formado em Ciências Sociais pela Universidade Estadual do Ceará, falou um pouco sobre as perseguições às minorias étnicas. “Os terreiros de candomblé aqui no Brasil são invadidos em nome de um deus que nós não conhecemos, as pessoas são ameaçadas, são absolutamente execradas. A condição humana é completamente roubada. Eu estou aqui falando abaixo de um crucifixo, eu sinto muita falta de uma imagem  de Iemanjá. Eu não tenho absolutamente nada contra o crucifixo, mas foi em nome dele que muitos dos meus foram mortos, assassinados, perseguidos. Para eu estar aqui hoje, ao lado da minha mãe de santo, é preciso que eu me engaje politicamente”, relata.

“Eu não tenho absolutamente nada contra o crucifixo, mas foi em nome dele que muitos dos meus foram mortos, assassinados, perseguidos” (George Carvalho)

A mesa redonda contou também com a presença de Juliana Alves, a cacique Irê. Juliana é filha e sucessora da primeira cacique mulher do Brasil, do povo Jenipapo Kanindé. A cacique relatou sobre as políticas públicas falhas para com os índios, principalmente na área da educação. “Hoje, em algumas aldeias, a educação é garantida pelo Estado, em outras aldeias ela está garantida pelo município, depende de aldeia para aldeia. Alguns parentes decidem ficar [sob responsabilidade] do município, porque a política pública é melhor do que a do Estado. Então, assim, a gente sempre diz que o Estado é um pai irresponsável e acabou deixando o município tomar conta [da educação]. Mas quando ele assume, ele esquece que aquela educação indígena é desde a educação infantil até os anos finais”, relata.

Além desses participantes, quem estava no evento era Mãe Valéria, a mais antiga mãe de santo do candomblé cearense. Valéria conduziu a simulação de uma festividade no terreiro de candomblé. Veja no vídeo abaixo:

Para os presentes no evento, a mesa redonda do Ubuntu foi importante para acender o debate a respeito do tema. Franklin Lemos, 21, estudante de Arquitetura e Urbanismo da Universidade Federal do Ceará (UFC), relata, “É importante debater esses assuntos, para ampliar o debate da diversidade religiosa e também étnica do país, nos vários ambientes. Começar pelo ambiente acadêmico é muito bom, porque pode alcançar um leque de pessoas muito variado”.

“É importante debater esses assuntos, para ampliar o debate da diversidade religiosa e também étnica do país, nos vários ambientes. E começar pelo ambiente acadêmico é muito bom, porque pode alcançar um leque de pessoas muito variado” (Franklin Lemos)

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