Rosângela da Silva: “Hoje eu me sinto uma vitoriosa”

Por Lígia Grillo

Durante sua vida, Francisca Rosângela da Silva, 43, passou por muitas dificuldades. Nascida em 26 de janeiro de 1974, em Morada Nova (há 152 km da capital), Ceará, Rô, como é carinhosamente chamada pelos amigos, jamais deixou de emanar sua alegria por onde passa. Conhecida por ser generosa e batalhadora, a empregada doméstica nunca desistiu dos seus sonhos, e diz que, hoje, se considera uma vencedora. Os obstáculos sempre vão aparecer, mas Rô tem certeza que, com a ajuda de Deus, ela vai conseguir superar todos. “Hoje eu me sinto uma vitoriosa, com tudo o que eu já passei na minha vida, eu paro pra pensar: poxa, como eu cheguei até aqui? Eu pensei que não ia suportar”.

“Hoje eu me sinto uma vitoriosa, com tudo o que eu já passei na minha vida, eu paro pra pensar: poxa, como eu cheguei até aqui? Eu pensei que não ia suportar”. (Francisca Rosângela da Silva)

Rô é a quarta irmã de dez filhos. Seus pais, agricultores, tinham muita dificuldade de sustentar sua família no interior. Por isso, as crianças nunca tiveram a oportunidade de estudar. Quando completou 9 anos, seus pais decidiram ir para Fortaleza, onde esperavam melhores condições de vida. Logo, seu pai conseguiu um emprego em uma loja e sua mãe começou a trabalhar como doméstica. Na medida do possível, a família conseguiu uma casa no bairro Serviluz, que fica perto da praia. Rosângela conta que tinha momentos em que a maré enchia e destruia casas, e uma vez foi a sua. Nesse momento, ela e suas irmãs tiveram que escolher entre estudar ou trabalhar para ajudar seus pais a reconstruir a casa. “Meu sonho era estudar, crescer, ser alguém na vida, mas como a gente tinha que ajudar nossos pais, não realizei esse sonho”.

Rô (segunda da esquerda para a direita) e suas irmãs. Foto: arquivo pessoal

A família ganhou, em um mutirão, algumas lonas que eles usariam para morar na praia. Rô conta que os irmãos menores dormiam aglutinados em uma pequena rede, e o resto ficava do lado de fora. “Um dia, passou um cara e cortou o fio da lona. Nessa noite, a minha mãe estava fazendo café pra gente. A água virou em cima dela e queimou da parte do umbigo pra baixo. Ela gritou igual um coelho, nós ficamos desesperados, foi uma loucura”, lembra. A mãe de Rosângela teve que ficar internada, devido aos ferimentos. A partir daí, as coisas começaram a ficar mais difíceis para a família se recuperar. Rô conheceu seu futuro namorado e atual esposo, Eliomar da Silva, e, ao chegar aos 16 anos, se matriculou em uma escola para cursar a primeira série. Ela cursou até o quinto ano.

Quando fez 21 anos, a jovem decidiu ir morar junto com Eliomar, no bairro Caça e Pesca. Foi quando engravidou do seu primeiro filho, Brenon, hoje com 23 anos. O casal começou a se estruturar. Rô conseguiu um emprego em um hotel e logo depois ficou grávida pela segunda vez do seu filho Bruno, hoje com 19 anos. Do emprego no hotel, passou para uma barraca de praia e depois para um restaurante, quando as coisas começaram a mudar.

Novos desafios
Samuel, seu filho mais novo. Foto: arquivo pessoal

Na época em que Rosângela conseguiu um emprego em um restaurante, Eliomar começou a se envolver com drogas. “Foi muito difícil, tinha momentos que quando eu chegava do trabalho em casa, ele tinha vendido todos os alimentos e móveis”. Além de ter que lidar com os problemas do seu marido, Rô engravidou pela terceira vez de seu filho Samuel, hoje com seis anos. Em meio a tantas desventuras, ela não sabia a quem recorrer. Então, decidiu ir à igreja. Ela diz que foi onde se encontrou e conseguiu transformar toda a sua dor em amor. Um dia, para ir ao trabalho, Rosângela deixou seu filho Samuel aos cuidados do seu marido, já que ele não tinha condições de trabalhar por ser dependente químico. Quando voltou pra casa, encontrou uma multidão na beira da pista, que fica em frente a sua casa. Ela não sabia o que havia acontecido, mas ouviu uma moça falando sobre o seu filho. Eliomar havia abandonado a criança de apenas três anos sozinha em casa, sem cuidados e sem alimento, por, pelo menos, 12 horas.

Devido aos acontecimentos, Rô teve que deixar o seu emprego no restaurante, e foi quando encontrou o seu trabalho atual como empregada doméstica na casa de uma família. Nesse momento, Eliomar foi internado para poder se recuperar, e os acontecimentos começaram a entrar nos eixos novamente. “Durante essa internação, eu começei a trabalhar mais tranquila, a me recuperar. Voltei a estudar durante a noite, na quinta série”, lembra. Quando seu marido foi liberado, após três meses em casa, a situação piorou. Seu filho do meio acabou sendo influenciado pela situação e se envolveu no mundo do crime. Bruno foi preso. “Sofri muito. Todos os domingos, eu estava lá na porta da cadeia, mas nunca abandonei ele, porque mãe é sempre mãe. Por mais que aconteça qualquer coisa, a gente quer o bem do filho”, diz.

“Sofri muito. Todos os domingos, eu estava lá na porta da cadeia, mas nunca abandonei ele, porque mãe é sempre mãe. Por mais que aconteça qualquer coisa, a gente quer o bem do filho”. (Francisca Rosângela da Silva).

O encontro com a fé
Rô e Eliomar na igreja. Foto: arquivo pessoal

Um ano depois de ser preso, Bruno foi solto. Com a liberdade, a família decidiu se tornar participativa em igrejas, e foi quando Eliomar escolheu seu caminho como membro religioso da sociedade. “Eu amo louvar. A fé é fundamental, acima de todas as coisas. Eu creio que se eu não tivesse aceitado Jesus, eu poderia nem mais estar aqui. A religião somos todos, no momento que você começa a confiar, Ele ajuda”, acredita Rô. “Nós temos que tomar uma atitude, e a minha foi essa, de querer crescer, ajudar, dar força”, ressalta.

Hoje, seu filho mais velho, Brenon, é casado e tem um filho, Benjamim, de dois anos. Ele terminou os estudos e trabalha com organização de eventos. Bruno estudou até o segundo ano e, agora que está em liberdade, quer encontrar um emprego e voltar a estudar. Samuel está na escola. “É a coisa que eu mais queria. Hoje, tô ajudando meus filhos a crescer na vida e estou dando o melhor para eles. Essa é a minha vitória”, exclama Rô. Ela conta que sempre quis ser dentista, mas em sua época tudo era muito difícil. “O meu sonho era ver meus pais felizes e tirá-los daquele sofrimento. Hoje não, hoje está tudo mais fácil, só não estuda quem não quer”.

A construção de um novo sonho
Rô e parte de sua família. Foto: arquivo pessoal

‘O choro pode durar a noite, mas a alegria vem pelo amanhecer’, Rosângela conta que sua alegria veio. Ela afirma que não alcançou todos os seus objetivos, mas que, mesmo assim, é feliz e gosta de trabalhar como doméstica. Ela tenta passar esses ensinamentos para seu filho mais novo, Samuel. “Eu tenho meus filhos como amigos, mas o Samuel é meu melhor amigo. Eu estou lutando, mostrando pra ele aonde ele deve chegar. Eu ensino a ele, e faço tudo o que eu puder fazer para a melhoria dele nos estudos”, afirma. “Eu já passei por tantas lutas. Quando o Bruno foi preso, foi a pior coisa que aconteceu na minha vida, parecia que estavam arrancando um pedaço de mim. Mas como eu estava com Cristo, eu tinha que me segurar nele e hoje estou aqui. A vitória é essa”, exalta.

 

Um comentário em “Rosângela da Silva: “Hoje eu me sinto uma vitoriosa”

  • 10 de novembro de 2017 em 09:22
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    Linda reportagem Ligia Grillo, um exemplo de vida da RO, Parabéns!

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