Dança do ventre estimula corpo e mente

Por Luana Façanha

Baseada em uma mistura de danças antigas praticadas no Oriente, a dança do ventre chegou ao Brasil por volta dos anos 1960, com a vinda de uma bailarina palestina que se apresentava em programas televisivos, restaurantes árabes e teatros. A dança, que conquista um grande público principalmente feminino ainda hoje, traz muitos benefícios para a mente e o corpo de quem a pratica, como algumas bailarinas relatam.

a professora Nathália Rayzel, dançando com um véu, um acessório da dança. Foto: Jamille Queiroz

Como benefícios físicos, é possível apontar a melhora da coordenação motora, da memória, da postura; o alongamento corporal e o fortalecimento muscular de áreas específicas, como na região das costas, do abdômen, dos braços; e também da musculatura pélvica, podendo melhorar as situações de cólicas menstruais e também a habilidade de perceber o seu corpo e a consciência corporal. A professora de dança do ventre, Nathália Rayzel, 29, aponta como sendo essa consciência um dos principais benefícios. “Quando uma pessoa se torna mais consciente de seu corpo, ela se torna mais presente, pois o corpo é um veículo para ancorar a presença, enquanto a mente tende a divagar, entre o passado e o futuro. E considero isso bastante benéfico, pois os sofrimentos que vivemos são gerados na mente por essa distorção do tempo. Quando voltamos para o presente, tudo se simplifica”, explica. A dança também proporciona conhecimentos sobre outras culturas.

Ela possui também muitos benefícios psicológicos, pois trabalha com a autoestima, a timidez, a socialização em um grupo, e a relação da pessoa com ela mesma. Por ser uma atividade muito feminina, muitas mulheres entram em um maior contato com elas mesmas, como Nathália conta em sua experiência pessoal. “Eu mesma passei a gostar muito mais de ser mulher, depois que comecei a dançar. Passei a me aceitar melhor. A aceitar meus ciclos, de viver os ciclos menstruais, passei a respeitar mais outras mulheres, outros seres humanos em geral. São muitos benefícios que percebo em mim, que também observo nas minhas alunas”.

“Eu mesma passei a gostar muito mais de ser mulher, depois que comecei a dançar. Passei a me aceitar melhor. A aceitar meus ciclos, de viver os ciclos menstruais, passei a respeitar mais outras mulheres, outros seres humanos em geral. São muitos benefícios que percebo em mim, que também observo nas minhas alunas” (Nathália Rayzel)

Mel Rayzel, em espetáculo. Foto: Dani Chaves

Mel Rayzel, 31, também é professora de dança do ventre e conta o que percebeu em suas alunas no tempo em que começaram a praticar, “Eu percebo que muitas de minhas alunas aprendem mais sobre o próprio corpo. Muitas que chegam lá não possuem muitas amigas, formam um ciclo de amizade, há a conexão com outras mulheres. Passam a se cuidar mais, a querer desenvolver um estilo próprio”.

A professora de dança Larissa Bibiano, 25, encontra muitos resultados positivos. “Fisicamente, percebo que há uma melhora no tônus muscular, no controle do corpo, no equilíbrio, ativa a memória devido às sequências, entre outros. E, mentalmente, há uma melhora de vínculo com outras pessoas, principalmente mulheres, reconhecendo o seu potencial. É como uma terapia, principalmente para aquelas que estão passando por problemas em casa.”

Origens

Por ser uma dança muito antiga, é difícil encontrar provas concretas sobre suas origens. Mas, como explica a professora Mel Rayzel, a dança com o ventre ficou conhecida no mundo ocidental na época das grandes navegações napoleônicas, quando os franceses visitaram o Egito. “Se formos pensar em danças com o ventre, já vêm de épocas muito antigas que não há nem registros sobre”. Ela conta que a dança do ventre com a imagem mais conhecida, com o figurino, é ainda mais recente que dessa época das navegações. “Nos anos 1920, que foi quando a dança se popularizou no Egito, houve  uma grande transformação, tanto na dança como na música, e houve um pouco de fusão com a cultura européia. Foi quando a dança do ventre adquiriu essa imagem que temos hoje”.

No Brasil, de acordo com o portal Central Dança do Ventre, a prática da dança começou quando a bailarina palestina Shahrazad Shahid Sharkey iniciou suas apresentações em restaurantes árabes, em teatros e em programas de televisão. Mesmo assim, a dança ficou por muito tempo limitada no país, com poucas músicas e poucas informações.

Foi na década de 1990 que começaram a surgir publicações em jornais e em revistas sobre a dança do ventre, assim como em outros meios de comunicação. E o estilo de dança passou a ser ainda mais procurado depois da exibição da novela “O Clone”, na Rede Globo, ainda de acordo com o portal.

Como a dança é vista no Brasil

Pintura com dançarina.
Foto: Reprodução.

Muitas são as opiniões sobre essa dança, pois no Brasil ainda é muito popularizada a ideia de que se resume apenas a uma dança sensual . “Ainda é comum vermos esse tipo de pensamento ligado a sensualidade, pois foi como ela se constituiu, através dos filmes da ‘Era de Ouro da Dança do Ventre’, como uma imagem da dança que foi vendida por muitos anos, e isso é normal”, explica Mel.

“Já entrei em contato com várias opiniões sobre a dança de pessoas que não a conhecem de verdade. Algumas acham muito bonito, outras lembram da Jade (personagem da telenovela “O Clone”) e outras acham que é dança para seduzir homens. Enfim, são muitas as opiniões que encontramos nesse caminho”, conta. Mas, como ela explica, é seu papel como professora mostrar a verdade sobre o assunto.  “O nosso papel é justamente desmistificar muitas ideias que vêm pela falta de conhecimento das pessoas mesmo, sobre ela. O nosso papel é fazer o trabalho de ensinar essas pessoas. E com carinho e cuidado, conseguimos.”

A professora Mel Rayzel afirma que essa ideia está cada vez mais ultrapassada, e a dança está sendo procurada cada vez mais com fins terapêuticos.

Depoimentos

A professora Larissa Bibiano em apresentação.
Foto: Pedro de Farias

A dança modificou a vida de muitas pessoas. Um exemplo é o da professora Larissa Bibiano. Ela conta sobre o que sentiu quando começou a dançar. “Eu senti liberdade. Sempre fui uma pessoa muito reservada e, na época, tinha um trabalho um pouco estressante”, conta. A dança, para ela, se tornou uma válvula de escape. “Eu precisava liberar energia, conhecer coisas novas”. Como já trabalhava com ensino, gostava tanto que foi chamada para ensinar por sua professora. “Sempre adorei o fato de saber que estava compartilhando algo com outras pessoas e ver a felicidade delas”, fala.

Jeanne Facundo, 44, é empresária e aluna de dança do ventre há 2 anos. Ela conta que nunca havia praticado nenhum outro estilo de dança e, no momento que se iniciou na dança, passava por muitos problemas. O terapeuta foi quem a indicou a praticar a dança do ventre e, no início, foi bastante difícil. “Eu realmente só fiquei na dança porque tinha muita consciência de que queria melhorar, mas sentia muita dificuldade. Eu continuava dançando e, então, fui sentindo que essa minha persistência. Eu estava me agrupando cada vez mais, então, o próprio grupo, o estar com outras mulheres, uma dança que permite isso, lhe fortalece”.

Jeanne, em apresentação.
Foto: Marina Cavalcante.

Ela conta que a dança do ventre é bastante semelhante às danças ciganas. “São danças nas quais há uma valorização do corpo da mulher, há uma valorização de cada mulher. Quando uma está dançando, praticamente as outras param para prestigiar, e consequentemente isso faz um trabalho muito intenso de autoestima”, ressalta.

“Então vejo, hoje, a dança do ventre como uma dança circular que resgata o seu feminino, que resgata sua autoestima. É uma dança onde os movimentos do corpo são movimentos que achamos inicialmente mais difíceis, mas, depois que você libera o seu corpo, vê que são movimentos simples do feminino. E ela resgata muito o seu lado feminino. Tanto que houve esse meu resgate.” Jeanne também comenta sobre como é interessante experimentar danças típicas de outros países, e entrar em contato com a cultura deles.

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