A falta de ócio causa adoecimento mental, afirma psicóloga

Por Ana Luiza Souza

“A sociedade hoje vive em angústia, vive numa pressa e num aceleramento muito grande. O que nós mais falamos é que temos pouco tempo. E, normalmente, a gente tem tempo para o trabalho, tem tempo para o whatsapp, para o Facebook, mas hoje o indivíduo tem tempo para tudo, menos para ele, menos pra sua saúde mental”, contou a professora doutora em psicologia, Kalyana Fernandes, durante a palestra “Ócio, bem estar e saúde mental”. O evento fez parte da programação do XI Seminário Ócio e Contemporaneidade, organizado pelo Laboratório de Estudos sobre Ócio, Trabalho e Tempo Livre – OTIUM da Universidade de Fortaleza.

Nele, Kalyana Fernandes discutiu sobre a falta de preocupação das pessoas com o bem estar e também a falta de políticas públicas voltadas para a saúde mental. Vivemos em uma sociedade muito preocupada com a saúde física, alimentação saudável, mas que se importa pouco com o bem estar e saúde mental. “Eu escuto quase ninguém dizendo ‘eu vou promover bem estar, prática de ócio, porque eu quero ter minha saúde mental estável e equilibrada’. O bem estar físico é uma preocupação muito maior do que o bem estar mental”, conta Kalyana.

“Eu escuto quase ninguém dizendo ‘eu vou promover bem estar, prática de ócio, porque eu quero ter minha saúde mental estável e equilibrada” Kalyana Fernandes

A docente também destacou que constantes mudanças sociais, condições de trabalho estressantes, discriminação de gênero e exclusão são condições sociais que dificultam a saúde mental da população. Assim, as pessoas estão subjugadas a um sistema que as adoecem mentalmente, pois só é possível alcançar o bem estar, caso haja a saúde espiritual, profissional, física, social e emocional. Enquanto isso, segundo a psicóloga, o governo brasileiro falha na rede de cuidados em saúde mental. “Muitas vezes as políticas estão preocupadas com o adoecimento mental, ou seja, com hospitais psiquiátricos, com CAPS e com CRAS. Mas é muito difícil encontrar políticas públicas que se preocupem com o bem estar, em promover saúde mental”, denuncia.

Além disso, outro tópico debatido foi a interdependência entre a saúde mental, o bem estar e o ócio. Segundo a especialista, para ter saúde mental o indivíduo precisa ter ações que promovam o bem estar e que o ócio possibilita um conjunto de bem estar, físico, mental e social. “O que a gente percebe hoje nos consultórios é que as pessoas dificilmente conseguem estar bem com elas. Porque parar, olhar pra si, se escutar é doloroso. E uma maneira extremamente importante e fundamental de investir em saúde mental e promover bem estar é que o indivíduo conheça, vivencie, experimente momentos de ócio”, explica.

“Uma maneira extremamente importante e fundamental de investir em saúde mental e promover bem estar é que o indivíduo conheça, vivencie, experimente momentos de ócio” (Kalyana Fernandes)

Por ócio, a psicóloga entende todas as ações que contemplem atividades que proporcionem prazer, significado, bem estar, criação e estimulação da saúde mental e que tenham fim em si mesmo. Entretanto, existe um dilema nas sociedades modernas: se por um lado o homem quer se libertar e ter tempo para dedicar a si, por outro, o homem tem que responder às obrigações impostas pelas atividades do trabalho. “As pessoas hoje têm uma dificuldade de exercer atividades de livre escolha, atividades desejadas ou seja, o ócio. Percebemos muitas vezes [que as pessoas] fazem as coisas para o outro, é difícil hoje encontrarmos pessoas que fazem algo para si”, relata Kalyana.  

Professores e alunos de psicologia acompanharam a palestra “Ócio, bem estar e saúde mental”. ​Foto: Amanda Nogueira

Para os interessados, a professora deu sugestões aos presentes, para que eles desenvolvessem atividades de ócio que fossem de livre escolha, com fim em si mesmo e gratificantes. “Como possibilitar a saúde mental e o bem estar? Empreender-se como sujeito, investir em si, ter tempo para si, fazer as coisas que dão prazer, bem estar, perceber que temos autonomia sobre a nossas. Acredito que muitas pessoas têm talentos e sonhos, que ficam adormecidos, porque acreditam que nossos talentos e nossos sonhos serão realizados. Deixamos de fazer as coisas que são importantes para nós, porque fazemos coisas que são importantes para os outros, para a sociedade. Eu preciso ter tempo pra mim, para me auto descobrir, para expressão dos meus sentimentos. Portanto, ócio possibilita constituição de vida do ser, ou seja bem estar e saúde mental”. explica a psicóloga.

Para os alunos de psicologia presentes, como Beatriz Oliveira, 22, a palestra foi um momento de aprendizado. “Eu achei muito interessante. Ela abordou temas muito atuais, que precisam realmente ser debatidos. Coisas do dia a dia que precisam ser discutidas e debatidas. Ela teve uma postura muito boa pra falar sobre o tempo e sobre as doenças mentais, não só psiquiátricas”, conta.  

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