Giuliano Cedroni: “Eu acho que ser humano é ter respeito”

Por Luiza Ester

Produzir, gravar e editar. A rotina de quem faz cinema costuma ser frenética durante todo o processo de realização. Por isso, para Giuliano Cedroni, cineasta, jornalista e historiador, é necessário humanizar essa caminhada. É preciso ter, acima de tudo, respeito com os seus personagens e sua equipe. E foi isso que ele pensou quando roteirizou e dirigiu a série “Outros tempos – Velhos”, produzida em julho de 2017 pela Prodigo Films e transmitida pelo canal HBO.

O cantor Ney Matogrosso durante a série “Outros tempos – Velhos”. Foto: Janice D’Avila

Como é envelhecer no século XXI? A série documental retrata histórias de idosos famosos e anônimos do Brasil. Com oito episódios de 60 minutos cada, a obra busca refletir acerca dos tabus que a sociedade impõe sobre o conceito de velhice, por meio das distintas rotinas desses personagens com mais de 60 anos. Segundo o Relatório Mundial sobre Envelhecimento e Saúde, realizado pela Organização Mundial da Saúde, em 2015, o Brasil será o sexto país do mundo em número de idosos até 2025. Na série, longas entrevistas revelam as concepções de vida de cada um sobre esse cenário.

Giuliano Cedroni criou uma abordagem considerada nova sobre a velhice. Ele também realizou a pesquisa e o roteiro dos documentários premiados “Motoboys – Vida Loca”, “Trinta” e “Coração Vagabundo”. Foi editor e diretor de redação da Revista Trip, e trabalhou na editora Abril e na Agência África. Em 2018, lançará a nova temporada de “Outros tempos”, chamada “Outros tempos – Jovens”.

Cedroni concedeu uma entrevista exclusiva ao JornalismoNIC, logo após sua palestra realizada na Universidade de Fortaleza (Unifor), durante o Mundo Unifor 2017, no dia 17 de outubro. Ele fala sobre o processo de produção da série “Outros tempos – Velhos”.

A série “Outros tempos – Velhos” tem oito episódios com 60 minutos cada. O que é preciso para prender o público em uma narrativa tão extensa em um mundo cada vez mais veloz?

Eu acredito que, se você tiver uma ótima história na mão, o povo fica com você. No caso de um documentário, tem muito a ver com a qualidade do personagem. Se você tiver um grande personagem, que tem uma grande história, você já tem meio caminho andado ali. As chances são que o público fique com você. Agora, eu acho que todos os outros detalhes da produção são importantes para segurar o público, a qualidade da fotografia, do roteiro e da montagem. Tudo isso, se você consegue manter um padrão alto, o público vai ficar com você. Além disso, tem uma questão muito importante que são os primeiros minutos de uma produção. A pessoa começa a assistir aquilo e, se ela deixar se encaixar naquela narrativa, no tempo da narrativa, e for boa, as chances são dela ficar com você até o final. Se ela não se deixa, ela está esperando uma narrativa frenética e começa a vir uma narrativa meio lenta, as chances são que ela vá embora. Mas aí tudo bem, porque eu tô fazendo uma série sobre a velhice. Se eu quisesse fingir que eu não tô falando sobre velho, fizesse uma edição muito maluca e botasse uma trilha sonora assim ou assado… talvez eu conseguisse prender um outro público. Mas, também, não me interessa muito esse cara, porque eu acho que, se vamos falar de velhice, nós vamos falar de velhice. A velhice tem a ver com silêncio, tempos arrastados, movimentos lentos. O seu corpo já não tem aquela velocidade. A gente trouxe tudo isso para frente da câmera.

Você disse durante a palestra que a narrativa de produções brasileiras são muito pautadas em celebridades. Isso influencia nas criações cinematográficas?

Influencia absurdamente muito, porque, por exemplo, em ficção, às vezes, você tem uma boa ideia, um bom roteiro já escrito. Mas, em um longa-metragem, se você não tiver um grande ator, um ator famoso, às vezes, você não consegue financiamento para aquela produção ir adiante. Então, a gente tem muito isso. A gente tem essa indústria televisiva muito forte no Brasil, que gerou essa indústria de celebridades. Então, já é uma característica nossa. Eu acho que a gente tem que jogar com isso. Você vê muitos filmes que só têm ator famoso e, às vezes, a narrativa é um pouco estranha, parece que você tá vendo TV em vez de cinema. Eu acho que tem maneiras de você mesclar isso. Às vezes, também, a gente consegue ver filmes sem nenhum ator famoso. É mais difícil conseguir financiamento, não tem jeito. Então, acho que cada cineasta, cada produtor, vai achando o teu equilíbrio, entre o quanto que o famoso é importante e o quanto que o talento é importante. Às vezes, um ator desconhecido é melhor para aquele papel.

Qual é a importância de mostrar também histórias e personagens que não são publicamente conhecidos?

É super importante. Eu acho que, na verdade, essa série ganha [o público] mesmo nos anônimos. Porque, bem ou mal, por mais que a gente tenha se aprofundado nos famosos, e a gente acredita que mostrou um lado inédito dos famosos, você já conhece a história deles. Você já viu eles, você já tem uma relação com aquela pessoa. Agora, a hora que eu coloco o Ney Matogrosso e um alfaiate que você nunca viu, aí eu acho que a narrativa realmente cresce. Porque, no contraponto das duas histórias, a gente cria uma terceira. Não é só o Ney Matogrosso, é ele e mais aquele alfaiate. Então, eu não tenho dúvida que boa parte do sucesso dessa série vem dos anônimos.

De acordo com você, o ritmo de produção de uma equipe é muito rápido. Como você procura ter um caráter humanizado?

Eu acho que essa questão começa muito antes da produção. Eu acho que ter um caráter humanizado significa tratar bem a equipe lá atrás, as pessoas que você trabalha junto, tratar bem os teus personagens. Chegar direito, comunicar direito com os seus personagens. Tem senhores e senhoras que contaram coisas pra gente na série extremamente íntimas, complexas e comprometedoras, inclusive. Então, o que você faz com aquilo? Não é brincadeira. Uma senhora que está no fim da vida dela, tem um arrependimento enorme e de repente ela abre pra você sem ter aberto nem pra família dela aquela história. Tem uma responsabilidade inerente aí muito grande. Eu acho que ser humano, nesse momento, é ter respeito. O que eu faço com isso? Tem coisas que a gente tirou na ilha de edição. Apesar de ser uma história muito boa, isso aqui passou. Isso aqui já é muito íntimo. Não sou eu que tenho que colocar isso no ar, talvez ela tenha que ligar com a filha dela e conversar sobre aquele assunto. Então, essa relação, ela é o tempo todo, no processo inteiro, inclusive depois de lançar uma série. A gente reuniu todos os personagens no lançamento. Eu perguntei para todo mundo, antes de ir ao ar, se alguém ali tinha algum problema com alguma das cenas, pra dar tempo de falar comigo. É o cuidado e o respeito que a gente tem que ter com o nosso trabalho e com todo mundo.

“Eu acho que ser humano, nesse momento, é ter respeito” (Giuliano Cedroni)

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