Mundo Unifor abordou perspectivas do autismo

Por Lígia Grillo

“Atualidades sobre o autismo e perspectivas inclusivas”, esse foi o tema debatido pela professora e psicanalista, Maria Cristina Kupfer, durante a Jornada de Psicologia do Mundo Unifor, na última sexta-feira (20/10). O evento reuniu, em sua maioria, estudantes do curso de psicologia e profissionais da área, que lotaram três auditórios do bloco A. A quantidade de pessoas presentes no local era tão grande que foi preciso realizar uma transmissão ao vivo para que todos pudessem assistir à palestra. Foram debatidas questões polêmicas sobre um termo usado por psicanalistas, denominado  “pós-autismo”, além de tratar a importância da inclusão de crianças autistas no âmbito escolar e na sociedade.

O principal argumento debatido durante o evento foi o impacto do autismo no mundo moderno. Após o surgimento do Manual de Saúde Mental, lançado em 2013, no Brasil, pelo Ministério da Saúde, a classificação de criança autista passa a ser “criança com TEA (Transtorno Espectro Autista)”. Independente da categoria do autismo, a maneira mais comum de diagnosticar pacientes é analisando os três grandes eixos dessa condição: a inabilidade de interação social, a dificuldade no domínio da linguagem e a realização de comportamentos restritivos e repetitivos. Para a psicanalista, os diagnósticos, hoje, estão sendo feitos com base nessas categorias, mas existem outras que podem classificar uma criança com TEA.

Maria Cristina Kupfer, professora e psicanalista.
Foto: Reprodução.

Ela cita pesquisas de um centro americano que faz as estatísticas, as prevalências e as incidências de doenças em nível mundial. Em relação ao autismo, em 2000, foram computados 1 caso entre 50 crianças. Em 2006, 1 a cada 110 crianças. Em 2017, 1 em cada 68 crianças são diagnosticadas. Por que esse número aumentou? A profissional explica que, com a mudança da classificação do autismo, muitas categorias são incluídas no TEA, então, tornou-se normal o crescimento de diagnósticos. Além disso, mais resultados corretos estão sendo feitos justamente por causa do aumento de suas categorias.

“É possível detectar precocemente uma criança com riscos de uma evolução autista”, diz a especialista. Para ela, nem toda criança nasce autista, pois pode desenvolver essa condição no período inicial de sua vida. Durante a palestra, exemplificou o argumento com vídeos de bebês, ainda com meses de vida, que não conseguiam manter contato visual com a mãe. Segundo explicou, esse é um dos primeiros sinais de uma evolução do TEA.

 

Prazer compartilhado

Para a psicanalista, a diferença entre crianças autistas e não autistas é o desenvolvimento do prazer compartilhado. Crianças com autismo não conseguem desenvolver e demonstrar importância em relação a certas coisas, a ponto de não exporem seus sentimentos e pensamentos para os outros, mesmo que seja para uma pessoa próxima. A criança com TEA pode até pensar sobre tudo, mas ela guarda esses pensamentos para ela mesma. Um comentário feito por Kupfer, durante o evento, era relacionado a um de seus pacientes, que, ao avistar uma janela, apontou e exclamou “olha!” para a psicanalista. Isso representa, para a psicanálise, que o autista, na verdade, era um pós- autista, pois ele efetuou o prazer compartilhado. Suas dificuldades vinham de outro lugar que precisava ser explorado.

Uma transição para a psicose

Além da condição autista, Maria Cristina Kupfer falou sobre a transição de crianças do autismo para a psicose infantil. “O mundo do autista é diferente do mundo do psicótico. Com alguns exemplos, a profissional explica sobre esses dois tipos de comportamento e afirma que, ultimamente, existem muitas ocorrências assim. Falando sobre um raio, a profissional conseguiu explicar as diferenças dessas condições para o público. Para um autista, o raio não significa nada, pode ser percebido como um barulho. Para uma criança psicótica, o fato do raio ter caído representa, para ela, uma forma de perseguição, como se ela fosse o motivo.

Essa transição do autismo para a psicose acontece, de acordo com a profissional, devido ao fato do autista ter sempre uma ausência em relação ao outro. Portanto, quando é introduzido a ele o prazer compartilhado, ele entra em um estado de espelho, que consiste na percepção do outro. Então, a criança cria uma identificação com seu semelhante. Ela liberta-se da angústia das fantasias do corpo despedaçado. Esta identificação é entendida como processo simbólico no qual a criança faz a primeira estruturação do eu, da sua imagem. Um paciente psicótico é caracterizado justamente por ser aquele que está inserido no estado de espelho, e que não consegue sair dele, por isso essa transição de condição.

A psicóloga, que se identificou apenas como Marcela, 22, disse ter adorado a palestra. “É muito bom poder ter a oportunidade de ter esse contato com a Cristina Kupfer. O autismo tem sido muito discutido, hoje em dia, principalmente na área da psicanálise”. Ela afirma que, quando entrou para a área da psicologia, ela só observava atendimentos voltados para a terapia comportamental e não conseguia encontrar estudos pela via da psicanálise. O que, para ela, é muito importante, pois devemos ver o autismo como uma propriedade, também, dos psicanalistas. Para Kupfer, o assunto é importante para que a inclusão seja mais efetiva. “É preciso que as pessoas trabalhem para ajudar os pais. O trabalho deles é algo muito duro. Então, é muito importante a divulgação e a informação”. Para ela, o autista é muito mais do que dados sobre a doença.

 

“É muito importante a divulgação e a informação, mas daquilo que o autista é, muito mais do que dados sobre a doença” (Maria Cristina Kupfer)

 

Perspectivas inclusivas

Para uma criança com TEA, o trabalho da escola é essencial. Após um estudo feito por Kupfer, em escolas de São Paulo, revelou que os princípios da educação sustentam e incluem crianças autistas na sociedade. “Quando uma criança está com outra criança, o efeito do estar pode, em muitas ocasiões, ser maior que o efeito de um adulto terapeuta”. Ela afirma que o contato de crianças autistas com outras crianças é essencial para o desenvolvimento de habilidades sociais. “Igualdade é o direito à diferença. Todas as crianças devem ir à escola na qual são tratadas iguais, para, a partir daí, surgir as diferenças. É preciso construir, de caso a caso, o percurso de cada criança em direção à conquista da igualdade escolar, caminho que poderá torná-la diferente de outras crianças”, afirma Kupfer.

 

 

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