“O corpo tem alguém como recheio”

Por Luiza Ester

“O corpo existe e pode ser pego
É suficientemente opaco para que se possa vê-lo
Se ficar olhando anos você pode ver crescer o cabelo
O corpo existe porque foi feito
Por isso tem um buraco no meio
O corpo existe, dado que exala cheiro
E em cada extremidade existe um dedo
O corpo se cortado espirra um líquido vermelho
O corpo tem alguém como recheio”

Foto: Juliano Almada

Esse foi um dos poemas recitados por Arnaldo Antunes, poeta, artista plástico e músico, em uma performance rítmico poética realizada na Universidade de Fortaleza (Unifor). O evento aconteceu na última sexta-feira (20), durante a programação do Mundo Unifor 2017. Temas como o tabu, as manifestações do ser humano, o corpo, o tempo e o mundo foram abordados pelo artista, em uma apresentação altamente sensorial. Unindo palavras, música, objetos e projeções visuais da artista plástica Márcia Xavier, Antunes excitou a interpretação do público com muita poesia. E foi aplaudido de pé.

O artista levantou cartazes escritos “tabu” e “totem” (símbolo sagrado de algum grupo social). Amassando cada papel, os colocou dentro de sua roupa, fazendo referência à expressão “estou de saco cheio”. Para Isabel Dantas, 37, é preciso dar atenção à proposta de desmistificação do corpo realizada pelo artista. Ela afirma que a performance tem muito a ver com o momento político do Brasil. “Achei muito interessante, principalmente na parte que ele fala do tabu. Nós estamos enfrentando muita censura. Uma censura que ainda não está escancarada. Muitas pessoas não estão vendo, mas estão começando a querer censurar a arte e a música”, opina.

“Estão começando a querer censurar a arte e a música” (Isabel Dantas)

Foto: Amanda Nogueira

Arnaldo Antunes utiliza diferentes formas do dizer. Fala, berra, canta e sussurra. As palavras apresentam-se em movimento, em uma sinfonia auditiva que se confunde com a voz ao vivo e a voz gravada. Em diversos momentos, o artista recita seus poemas com objetos. Além dos cartazes, utiliza globo terrestre luminoso, a chama de fósforos e letras de metal para compor a experiência.

A apresentação também contou com a breve presença de Brás Antunes, filho do poeta. Confira um trecho desta união:


A poesia do momento

“Eu achei muito autêntico, muito gostoso de assistir porque te prende na presença do momento. O Arnaldo tem uma coisa de um pensamento acelerado, uma coisa quebrada, usando meios eletrônicos juntos. É uma personalidade muito única” declara Rebeca Praxedes, 24. A jovem também atribuiu à performance os adjetivos “incrível” e “cativante”.

João Pedro Cavalcante, 24, afirma ter se surpreendido com a apresentação. “Eu não esperava que fosse algo tão complexo, envolvendo música e a grande complexidade dos conteúdos que ele traz. A questão do mundo, do Brasil, da família, aquela questão do totem e do tabu. Eu achei muito interessante como ele conseguiu juntar tudo isso em uma apresentação só”, constata. De acordo com Cavalcante, Arnaldo Antunes tem uma força na voz que contagia.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

css.php