“Amor e sexo sempre tiveram poder de mudança”

Por Clara Menezes

“Se você soubesse como é estranho se sentir apaixonado em Milão”, foi com o trecho dessa música, chamada “Innamorati A Milano”, de Meno Remigi, que o psicanalista e escritor Contardo Calligaris iniciou a sua palestra na Universidade de Fortaleza (Unifor), no sábado (21). O último evento do Mundo Unifor teve como tema a psicanálise. “O que você sabe de melhor, você nunca vai conseguir ensinar a seus alunos”, conta Calligaris.

O italiano Calligaris falou sobre sua adolescência para iniciar a palestra. Foto: Pedro Vidal.

A música italiana serviu de base para a explicação do escritor sobre o contexto histórico de Milão na época em que morava lá. Durante os anos 60, a Itália passava por um crescimento econômico, chamado de “milagre italiano”, devido ao fim da Segunda Guerra Mundial. Essas expectativas, no entanto, se tornaram em anos entediantes para os jovens daquele tempo, incluindo Contardo Calligaris.

O escritor passou um ano em Londres, sem contato com a família, porque foi atrás de um grande amor. Após voltar para a vida em Milão, ele percebeu que a cidade era como uma prisão. “As únicas coisas que importavam era o lucro”, conta. Para Calligaris, era estranho ir ao cinema e ver pessoas rindo de sua própria caricatura na tela.

Pouco entusiasmo

“Em uma cidade com pouco contexto erótico, a ideia de prosperidade econômica ia explodir a qualquer momento”, atiça o psicanalista. Ele estava certo. Dois anos depois, iniciou-se um movimento voltado para a liberdade sexual da juventude. As universidades estavam sendo ocupadas pelos estudantes por anos seguidos. Em apoio ao movimento, professores passavam os alunos universitários mesmo que eles não comparecessem às aulas, chamado, na época, de “30 político”, aludindo à nota máxima (30) no ensino italiano da época. Congressos estudantis eram lugares de encontros sexuais.

“Em uma cidade com pouco contexto erótico, a ideia de prosperidade econômica ia explodir a qualquer momento” (Contardo Calligaris)

Para o psicanalista, essa busca por liberdade sexual era uma forma de encontrar outra forma de instituição tão poderosa quanto a família. Com essa ideia, ocorreram diversos experimentos para tentar encontrar um substituto para a formação familiar. No entanto, ninguém conseguiu achar.gmai

Família

​Os ouvintes fizeram perguntas sobre assuntos da atualidade. Foto: Pedro Vidal.

Para Contardo Calligaris, “a família corresponde ao nosso nível extraordinário de prematuridade”. Em outras palavras, o humano é o mamífero com o desenvolvimento mais lento. A independência completa das pessoas, em geral, surge apenas depois de 18 anos ou mais. Isso, portanto, faz com que o vínculo familiar seja mais forte, já que é preciso que alguém cuide dos dependentes.

No entanto, a família representa o pensamento velho, ultrapassado. Ela reproduz a estrutura social conservadora. Segundo o psicanalista, até a Bíblia cristã coloca Deus acima da família, inferiorizando, em sua própria maneira, a instituição familiar. Esse vínculo das pessoas com seus familiares, apesar de necessário, pode ser prejudicial, porque temos mais dificuldades de sair dos caminhos impostos por essa estrutura social. “Sem a família, acaba o meu trabalho”, brinca Calligaris.

Amor e sexo

“Amor e sexo sempre tiveram poder de mudança”, conta o psicanalista. Para ele, o mundo moderno começa com uma típica história de amor: “Romeu e Julieta”, de William Shakespeare. Duas pessoas que quebram todos os ideais impostos para poder viver um amor impossível.

“Amor e sexo sempre tiveram poder de mudança” (Contardo Calligaris)

Calligaris acredita ser possível estudar momentos políticos da História de acordo com as diferentes relações de amor e sexo. Por exemplo, um imigrante, para se manter no país, muitas vezes, procura se casar com um nativo, ganhando, assim, a oportunidade de permanecer no território.

No entanto, o amor é narcisista. “A gente coloca no outro os nossos ideais, esperando que a pessoa nos aceite pelos nossos ideais”, diz o psicanalista. Apesar dessa situação aparentemente negativa, o amor é capaz de transformar e melhorar as pessoas. Para ele, existe apenas uma coisa que não muda durante o processo amoroso: a fantasia sexual.

Fantasiando

​​O desejo sexual pode ser visto em diversas áreas da vida humana. Foto: Pedro Vidal.

“A fantasia sexual não realizada se transforma em opressão”, conta Calligaris. Esse desejo, quando não é praticado, pode, contraditoriamente, se tornar o todo da vida da pessoa. Isso significa que a fantasia sexual tomará conta de sua rotina em todas as formas. “É fácil reprimir o desejo sexual, mas é inútil”, afirma o psicanalista.

Em termos psicanalíticos, o desejo sexual é mais relevante que a orientação sexual, porque é a partir da fantasia que se descobre quem a pessoa verdadeiramente é. Essa situação ocorre porque a vida da pessoa acontece de acordo com o desejo sexual dela. Uma pessoa, por exemplo, que reprime seu desejo sexual em crianças devido ao contexto social em que está inserido, pode querer matar seu objeto de desejo. A orientação, portanto, não define ninguém.

Idealização da infância

Para Contardo Calligaris, a proteção da infância a todo custo ocorre, também, para reprimir desejo sexual. Além disso, a idealização infantil é decorrente do individualismo visto na modernidade. A pessoa não é mais alguém de um coletivo, ela é um indivíduo sozinho. “Entramos em um mundo em que o indivíduo é mais importante que a coletividade”, conta o escritor.

“Entramos em um mundo em que o indivíduo é mais importante que a coletividade” (Contardo Calligaris)

Portanto, o homem, para continuar sua “história”, preserva as crianças porque elas que vão continuar no mundo depois que os adultos estiverem mortos. Isso pode causar inúmeras consequências boas ou ruins. Por exemplo, com essa preservação da infância, defende-se que nenhuma criança deve ser privada de necessidades básicas, como saúde e boa alimentação. Porém, também dizemos que “elas não podem ter nenhum contato ou desejo sexual” para mantê-las “puras”. Isso faz com que a criança não tenha um desenvolvimento realmente autônomo. Para finalizar sua ideia, Contardo conta, brincando, a história de quando tinha quatro anos de idade e sua família o chamou para ver uma situação “curiosa”. Na fazenda de sua tia, existia um cuidador das vacas. Ele, atraído pelo animal, tentou encurralá-la pelas costas. No entanto, a vaca deu um coice e o matou. No outro dia, a vaca estava pastando, enquanto o homem estava morto. Para ele, nenhuma criança deve ser privada de situações como esta porque a faz pensar sobre a realidade.

Para o professor  Glauber Filho (47), dos cursos de Jornalismo e de Audiovisual e Novas Mídias, “a palestra foi esclarecedora porque o tema que ele abordou passa por diversas áreas. Ele fez uma análise na construção da sexualidade no mundo contemporâneo, trazendo um contexto histórico”. Além disso, Contardo Calligaris, com uma fala lúcida, discutiu sobre o tema sexual na nova era do “obscurantismo”.

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