“O capitalismo se especializou em comprar pessoas”, diz Márcia Tiburi em palestra do Mundo Unifor

Por Clara Menezes

A filosofia é, em sua essência, o amor pela sabedoria, a busca por saber sobre o próprio conhecimento. Portanto, para que ocorra o exercício dessa reflexão é necessário que a sociedade viva uma democracia. Foi com essa ideia que a filósofa, artista plástica e colunista da Revista Cult, Marcia Tiburi, iniciou sua palestra do Mundo Unifor, na quinta-feira (20), numa noite em que discutiu filosofia, ética, ensino e política.

Para Márcia, o novo plano educacional do Ensino Médio, que objetiva tirar a Filosofia do ensino obrigatório, é uma forma de calar o pensamento filosófico. A proposta do presidente Michel Temer torna o ensino escolar mais técnico, voltado, principalmente, à matemática e as ciências naturais. A reflexão do pensamento já não é mais necessária. No entanto, apesar de significativa parte dos brasileiros ter argumentado contra, essa proposta, que pretende começar em 2018, caiu no esquecimento. “Eu fico impressionada como as pessoas tocam em frente como se nada tivesse acontecido no nosso país”, desabafa Márcia Tiburi.

“Eu fico impressionada como as pessoas tocam em frente como se nada tivesse acontecido no nosso país” (Márcia Tiburi)

Liberdade de pensamento

Márcia falou sobre a importância da liberdade de expressão na contemporaneidade. Foto: Juliano Almada.

A liberdade de pensamento é a proposta, em geral, da filosofia. O filósofo “tem no pensamento algo que faz os outros pensarem sozinhos”, ensina Tiburi. A preservação dessa liberdade tanto de pensamento quanto de expressão, precisa ocorrer respeitando, acima de tudo, o espaço de fala do outro. É necessário ter mais diálogos e menos silenciamentos.

No entanto, o presente vivido no mundo, principalmente no Brasil, é uma desestabilização da democracia do pensamento. “É necessário que as pessoas possam pensar por conta própria sobre o que está acontecendo”, conta Márcia. Essa reflexão é proporcionada, também, pela filosofia, que traz para o contemporâneo o lugar de diálogo, o encontro entre dois ou mais corpos. “Compreensão e conhecimento é um espaço mágico da comunicação”, reflete a colunista da Revista Cult.

Ética

É impossível falar de filosofia sem falar de ética. Para Márcia Tiburi, as pessoas têm que discutir a ética sempre a partir do ponto de vista que ocupam. A forma como elaboram e mostram o próprio ponto de vista também precisam ser discutidas. É preciso ter uma teorização sobre o que está sendo falado. No entanto, qualquer pessoa que expõe sua opinião passou por um processo de fundamentação da teoria.

Ética vem da palavra grega ethos, que é “o lugar que a gente está e como a gente se arranjou para estar aqui”, diz Márcia. Em outras palavras, é a maneira que as pessoas têm para conseguirem conviver em um determinado espaço. Porém, para a filósofa, a nossa adaptação com ethos nunca estabiliza. “A nossa experiência começa quando a gente se põe no lugar que a gente está. Mesmo depois da morte, nunca ficamos prontos”, afirma a artista.

“A nossa experiência começa quando a gente se põe no lugar que a gente está. Mesmo depois da morte, nunca ficamos prontos” (Márcia Tiburi)

Durante a palestra, Márcia Tiburi falou que a ética precisa refletir como as pessoas tratam umas às outras. Comparar-se com os outros, por exemplo, gera inveja, destruindo nossas relações. “A inveja é intensificada pelos meios de comunicação de massa. É um meio de capturar para destruir”, conta.  Para a filósofa, não é possível conviver com as pessoas naturalmente. Portanto, é preciso trabalhar nossos sentimentos para que não ocorra a destruição dos relacionamentos.

Política

Márcia Tiburi assinando seu livro, “Ridículo Político”. Foto: ​Jamia Figueireido.

A política é o que decorre da ética. É o exercício da filosofia das coisas humanas e de sua ação. No entanto, essa política, durante o processo de colonização do Brasil, se transformou em uma profissão, uma mercadoria que não deveria ter sido vendida. Governar uma sociedade por meio, unicamente, da ética não existe mais. A dignidade da política foi tirada.

Mas, o que é verdadeiramente dignidade? Para Márcia Tiburi, “a dignidade está naquela parte de nós que não vendemos”. No entanto, na sociedade contemporânea, esse direito está em falta porque o “capitalismo se especializou em comprar pessoas”. As mulheres, por exemplo, são trabalhadores escravas do lar e do homem. Os homens são vendidos para o trabalho fora de casa. Os dois se venderam para as redes sociais, para o narcisismo vangloriado pela Internet, segundo Márcia Tiburi.

 

 

“A dignidade está naquela parte de nós que não vendemos” (Márcia Tiburi)

​Box: Clara Menezes

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