Curso de Psicologia promove mesa-redonda sobre intolerância à diferença

Por Lia Bruno e Lara Montezuma

O preconceito contra a população LGBT, idosos e povos indígenas foram os principais pontos abordados na Jornada de Psicologia, realizada no quarto dia do Mundo Unifor, nesta quinta-feira (19). O evento contou com a participação das psicólogas Marília Barreira, Selena Mesquita e Sílvia Barbosa. Além do preconceito, foram abordados temas como formação de estereótipos, padrões impostos pela sociedade, movimentos de resistência e a luta por direitos dessas comunidades.

“Por que tantas pessoas são assassinadas em virtude de sua sexualidade e identidade de gênero?”, questionou a professora e psicóloga Marília Barreira ao iniciar a discussão sobre o preconceito contra diversidade sexual e de gênero. Para a psicóloga, é preciso entender que a intolerância contra homens gays não é a mesma que acomete lésbicas, bissexuais, travestis e transsexuais.

O termo da heteronormatividade carrega uma obsessão social em normatizar as sexualidades através de discursos e práticas sociais onde a heterossexualidade é tida como a única forma aceitável de expressão da sexualidade, explica a professora Marília. “Diferente desse termo (heteronormatividade), quando falamos de travestis e transsexuais, utilizamos a expressão cisnormatividade”, completa. Esse termo é utilizado para descrever o indivíduo que se identifica, em todos os aspectos, com o seu gênero de nascença. Portanto, segundo a professora, a cisnormatividade estaria para a questão cisgênero e transgênero assim como heteronormatividade estaria para a questão heterossexual e homossexual.

“Quando falamos de LGBTfobia, estamos dando visibilidade a discriminação que abala as pessoas que compõem essa sigla”, diz Marília. Esse preconceito vem a partir de um aprendizado social que está permeado de estereótipos negativos e que são, muitas vezes,  colocados como característica principal desses grupos sociais. Segundo a psicóloga, o movimento LGBT aparece como uma forma de resistência aos estereótipos de que o gay é promíscuo, de que toda travesti é envolvida com prostituição, entre outros.

“Quando falamos de LGBTfobia, estamos dando visibilidade a discriminação que abala as pessoas que compõem essa sigla.”

Existe um certo preconceito e uma violência simbólica que é sentida e vivenciada por essas pessoas diariamente. “Elas evitam andar de mãos dadas ou trocar carícias com seus companheiros em locais públicos exatamente por isso ser considerado algo ofensivo e desrespeitoso aos olhos da sociedade”, explica Marília.

O ageísmo no século XXI

O envelhecimento foi o tema da segunda palestrante do evento sobre respeito às diferenças. Para a maioria da sociedade atual, a questão do envelhecer bem implica em chegar à terceira idade e conseguir amenizar os sinais da velhice, ou seja, sem linhas de expressão, sem flacidez e aparentando estar vinte anos mais jovem. A supervalorização da juventude está entre as causas enumeradas pela psicóloga e doutoranda da Universidade de Fortaleza (UNIFOR) Selena Teixeira, ao pautar as consequências desta visão contemporânea da velhice.

 A discussão fez com que o público refletisse sobre assuntos contemporâneos. Foto: Amanda Nogueira

Ao listar outras influências para a desvalorização da imagem de idosos, ela cita o surgimento da mídia impressa, que descentralizou o poder de informação das mãos dos mais velhos, enfraquecendo a sua posição de respeito. A mudança de uma sociedade agrária para uma sociedade industrial também é um fator importante, pois a família que antes morava em uma só casa, se distancia para começar longas jornadas de trabalhos em centros urbanos, afastando os familiares e isolando os idosos.

Tais fatos ajudam a culminar o ageísmo, ou seja, a discriminação de indivíduos baseados na sua idade. Segundo a professora, mesmo que implicitamente, vivemos cercados por este preconceito. As piadas, a suavização de expressões, como “a melhor idade”, a culpabilização do idoso e a criação de estereótipos na velhice ajudam a aumentar a taxa de depressão e suicídio das pessoas que se encaixam neste grupo social.

O idoso internaliza essas questões e apropria-se de um lugar social em que se sente inválido. “Os velhos do futuro seremos nós”, lembra Selena. Ela enfatiza que o mundo está cuidando da longevidade, mas não se prepara para receber os idosos, pois ignora suas questões emocionais, o que torna a velhice tediosa e impede os mais velhos de viver uma vida com plenitude.

Reconhecendo as nossas origens

O terceiro aspecto discutido na mesa redonda foi a questão indígena. Após aprofundar os seus estudos sobre os povos originários da América durante sete anos por intermédio de uma Organização Não Governamental (ONG) local, Sílvia Barbosa, psicóloga, propôs que o público construísse um olhar para fora das questões indígenas impostas pelos livros de história.

“Quando a gente usa a expressão índio, nós estamos generalizando. São povos diferenciados com culturas diversas”, explica a professora. Segundo ela, a educação que recebemos é rasa e deixa várias histórias “de lado” propositalmente. A comunidade indígena do Ceará foi reconhecida apenas na década de 1980, devido a etnogênese (termo usado para descrever a constituição de novos grupos étnicos). Ainda assim, 30 anos depois, as lutas desses povos no Estado costumam ser negligenciadas pela mídia.

Isso causa um distanciamento dos outros grupos sociais, o que reforça a discriminação com esse grupo social. O autoreconhecimento indígena, afirma a psicóloga, é necessário para que o preconceito diminua e a causa ganhe forças. “A gente só consegue combater o preconceito se a gente se aproxima, conhece e reconhece essas diferenças”, defende Sílvia.

“A gente só consegue combater o preconceito se a gente se aproxima, conhece e reconhece essas diferenças” (Sílvia Barbosa)

Samara Ayani, estudante de psicologia, indígena e atuante nas pesquisas da área, levantou um debate que considerava pessoal, logo que abriu-se o espaço para discussão no evento. “Eu vim para a palestra porque é muito complicado você falar de povos indígenas, pois é um termo muito abrangente, e é muito fácil de cometer um erro [ao falar sobre o assunto]”. Ela fala que é necessário que existam mais momentos de diálogo como esse para que haja uma conscientização popular acerca do assunto. Samara conta que se sentiu contemplada com a palestra, pois percebeu “um cuidado em relação a palestrante em colocar as nuances dos povos indígenas”, embora tenha sentido “falta de um entrelaçamento entre esses três assuntos”, comentou Samara.  

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