Robô Laura pode diminuir mortes em hospitais

Por Clara Menezes

“A IA (inteligência artificial) é o nosso desejo inerente de forjar deuses. É tudo aquilo que nós usamos para ajudar o nosso processo criativo ou facilitar nossa produção”, conta o especialista em segurança corporativa, Jacson Fressato, em sua palestra no Mundo Unifor, na quarta-feira (18). O conceito desse sistema, idealizado pelo matemático John McCarthy, em 1971, já existia dois séculos antes. Segundo Fressato, um “mágico”, em 1770, tinha uma máquina chamada “O Turco”, que vencia nobres em partidas de xadrez. Apesar de, depois do homem morrer, terem descoberto que tinha um anão dentro da máquina, a ideia de inteligência artificial já fazia sentido em uma época com pouquíssima tecnologia.

“A IA é o nosso desejo inerente de forjar deuses. É tudo aquilo que nós usamos para facilitar o nosso processo criativo ou facilitar nossa produção” (Jacson Fressato)

O autodenominado “hacker ativista”, Fressato trabalha descobrindo fraudes de sistemas em grandes empresas, e se deparou com a necessidade de criar uma inteligência artificial, em 2010. Após sua filha, Laura, morrer de sepse com apenas 18 dias de vida, ele percebeu o desconhecimento das pessoas, incluindo médicos, acerca dessa doença. A sepse mata cerca de 368 mil vítimas por ano, mas 93% da população desconhece essa situação, segundo dados de 2015, do Instituto Latino Americano de Sepse (ILAS).

A sepse é a maior causa de morte em UTIs, segundo o Instituto Latino Americano de Sepse. Box: Clara Menezes.

O Robô Laura

Para ajudar outras pessoas a descobrirem a sepse em um estágio que ainda pode ser tratado, Fressato criou o Robô Laura em homenagem a sua filha. O primeiro robô de Inteligência Artificial gerenciador de riscos do mundo funciona de maneira independente. Ele monitora os pacientes do hospital e avisa, por meio de uma tela, o grau de necessidade de visita de um profissional ao leito, chamado de “ansiedade de Laura”. Por meio de uma percepção cognitiva, a IA indica cores no painel de verde a vermelho, dependendo do grau de saúde de cada paciente.

A inteligência virtual, além de monitorar os registros dos pacientes, acessa todo o sistema do hospital e das máquinas de laboratório. Com isso, ela pode indicar dados sobre a eficiência do local, criando um gráfico que mostra o que pode ser melhorado. Isso, portanto, pode contribuir para a diminuição dos erros médicos. Um vídeo feito pela “Laura Networks”, empresa criada por Jacson Fressato explica bem o funcionamento do robô.

 

Sonho de Laura

A animação de Laura e o seu respectivo robô. Foto: Reprodução.

Fressato passou nove meses estudando um hospital em Curitiba para entender o motivo da morte de sua filha. Ele percebeu que a principal razão da evolução da doença eram as empresas que lucravam com os hospitais. Uma máquina de alta tecnologia, por exemplo, não era utilizada no local porque não tinha uma pessoa que conseguisse programá-la. A única empresa que poderia fazer o trabalho cobrava cerca de 500 dólares por hora e não havia dinheiro suficiente para pagar. Desde então, o sonho de Fressato e do projeto é disponibilizar tecnologia de ponta para todos os hospitais do Brasil. Não necessariamente o “Robô Laura”, mas material tecnológico suficiente para diminuir as mortes.

Apesar de contrariado, o analista de sistemas alcançou grande parte de seu objetivo. “Antes, eu era considerado um idiota, louco por fazer isso”, conta. No entanto, os dados mostram como ele estava certo em sonhar. No Hospital Nossa Senhora das Graças de Curitiba, o primeiro a adquirir o Robô Laura, as mortes por sepse diminuíram 63%. Além disso, o tempo médio entre a visita ao leito e a inserção dos dados do paciente no sistema hospitalar passou de três horas para 42 minutos.

“Antes, eu era considerado um idiota, louco por fazer isso” (Jacson Fressato)

Filosofia da inteligência artificial e o futuro

​Jacson Fressato ​falou sobre as ideologias por trás de sua criação Foto: Maria Julia Giffoni.

Para Jacson Fressato, a filosofia está diretamente ligada à tecnologia. Alguém decidiu, por exemplo, que um centímetro era um tamanho específico. “Minha tecnologia tinha que ser tão eficiente que ela conseguiria trabalhar e operar mesmo sem luz. Para mim, isso é mais filosófico que científico”, conta.

No entanto, de acordo com o pai de Laura, a tecnologia traz consequências que nós não temos ideia. As três primeiras revoluções trouxeram um empoderamento humano. A sociedade transformou o que antes a prejudicava em uma arma de poder. Para Fressato, foi apenas na 4ª revolução industrial, a era das tecnologias digitais, que o homem perdeu sua força porque ele desqualificou sua produção. Quase tudo é feito e pensado por máquinas. “Nós não estamos conseguindo perceber o impacto que estamos causando no mundo”, afirma.

O Robô Laura, apesar de inicialmente ter o objetivo de identificar a sepse, atinge, também, outros ramos. A inteligência artificial é o primeiro gerenciador de riscos do mundo, ou seja, ela identifica um problema e previne a empresa de causar danos. Por isso, ela não necessariamente segue o ramo da medicina. Mas, Jacson Fressato deixa claro: ele não quer explorar a área de saúde como um espaço lucrativo no mercado. O “hacker ativista” prefere ganhar com a parte de manutenção de indústrias porque, dessa forma, ele não prejudica um hospital que a única intenção é ajudar um paciente a sobreviver.

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