Inclusão de libras é assunto de palestra no Mundo Unifor

Por Lígia Grillo

“Se eu conseguir fazer as pessoas se sentirem tocadas diante dessa realidade e enxergarem a libras não só como objeto de trabalho, mas também como uma possibilidade de inserção social, já vai me deixar feliz”. Esse é o desejo da psicóloga Isabelle Cacau de Alencar, apresentado na palestra “Psicoterapia em libras: desafios e possibilidades”, realizada no Mundo Unifor. O tema do atendimento clínico psicológico em libras foi abordado, junto aos desafios e implicações da dificuldade de socialização de pessoas surdas na sociedade. Emocionada, a profissional discutiu um assunto que não tem muita visibilidade, diante de um auditório lotado na Universidade de Fortaleza.

“Se eu conseguir fazer as pessoas se sentirem tocadas diante dessa realidade e enxergarem as libras, não só como objeto de trabalho, mas também como uma possibilidade de inserção social, já vai me deixar feliz” (Isabelle Cacau De Alencar)

De imediato, Cacau desmistifica um termo muito usado pelas pessoas, o “surdo e mudo”. Não necessariamente uma pessoa surda também é muda. Essa dificuldade da fala surge com a falta da audição, já que usamos como parâmetro o que ouvimos para reproduzir. Se uma pessoa não pode escutar, ela vai ter dificuldade em falar, mas ela não necessariamente ficará muda. Esse termo pejorativo é visto como ofensa por muitos deficientes auditivos, segundo a psicóloga. O relatório da International Ear Care Day, de 2014, mostra que existem cerca de 360 milhões de pessoas com perda auditiva, o que representa 5,3% da população mundial. Apesar da quantidade de pessoas que sofrem com a falta da audição, ainda existe uma grande parcela da população que não demonstra interesse em formas de comunicação com pessoas surdas.

Psicoterapia

Isabelle Cacau falando sobre a importância do atendimento em Libras para pacientes surdos. Foto: Alana Pereira/Foto NIC

Isabelle Cacau abordou a psicoterapia voltada para surdos e a importância da libras (acrônimo de Língua Brasileira de Sinais) no tratamento com o psicólogo. Normalmente, quem procura uma terapia está sofrendo de alguma forma, e precisa de ajuda profissional para a pessoa poder entender a si mesma. Para uma pessoa surda, a dificuldade é ainda maior. Devido à falta de socialização ocasionada pela barreira na comunicação, deficientes auditivos tendem a necessitar de atendimento para conseguir desenvolver sua vida social.

Devido à sua especialização em terapia comportamental (TAC), Isabelle, mesmo com pacientes surdos, trabalha com o comportamento verbal, já que esse tipo de comunicação não acontece apenas através da fala. O atendimento propõe  a análise operante do comportamento verbal, a relação terapeuta/cliente e a análise dos eventos privados sem perder o cunho externalista de causalidade.

O processo na comunicação do cliente com o profissional é algo essencial. Quando a consulta é com um paciente surdo, tudo no ambiente importa. Cacau cita um caso antigo, com o seu primeiro paciente com déficit de audição, em que a sala de atendimento era escura e as cadeiras eram mal posicionadas, dificultando a experiência visual do paciente. Nesses casos, é necessário mudar de lugar, já que alguns pacientes surdos são oralizados, ou seja, conseguem fazer leitura labial e até mesmo falar, e aquele ambiente era prejudicial para sua experiência. Por isso, o local é importante, pois para pessoas surdas o visual é de suma importância.

Além do processo de psicoterapia, as relações com a família e com os amigos são importantes. Cacau comenta sobre o caso de seu primeiro paciente surdo, em que sua família não interpretava libras, isso dificultava a socialização do rapaz, provocando crises de ansiedade e outros problemas. “Eu acho um absurdo um gringo chegar no país e encontrar várias pessoas que falam a língua dele, mas um cara que é brasileiro que nem eu, meu irmão de nação, que está no país dele e as pessoas não estão preparadas para cumprimentá-lo”, explica a profissional.

“Eu acho um absurdo um gringo chegar no país e encontrar várias pessoas que falam a língua dele, mas um cara que é brasileiro que nem eu, meu irmão de nação, que está no país dele e as pessoas não estão preparadas para cumprimentá-lo”. (Isabelle Cacau De Alencar)

Na língua portuguesa, algumas palavras possuem variações nas diferentes regiões. Em libras, não é diferente. Isabelle conta que, por ter aprendido a interpretar libras em São Paulo, existiam algumas variações linguísticas das gírias de Fortaleza. Consequentemente, sua sessão com seu paciente surdo era uma troca de aprendizado, já que um ensinava o outro.

Tecnologia como ferramenta

Nos últimos anos, a tecnologia permitiu uma facilidade na comunicação de pessoas surdas. Aplicativos como WhatsApp, Facebook e outras formas de enviar mensagens permitiram a interação de deficientes auditivos, seja no âmbito escolar, profissional e social. Além do texto, chamadas de vídeo tornaram possível a execução de libras para a comunicação, o que é um avanço para a comunidade surda. “A gente consegue desenvolver recursos para facilitar e viabilizar a comunicação, para criar pontes, o que sempre vai ser bem vindo”, conta Isabelle.

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