Gêra e a vida nas quadras de futsal

Por Clara Menezes

Gêra, o quarto menino da esquerda para direita, era o irmão mais novo. Foto: Arquivo Pessoal.

Geraldo Nogueira Sobrinho, conhecido internacionalmente apenas como Gêra, já foi considerado o melhor jogador de futsal do mundo. De uma infância difícil e simples no interior a jogador aclamado mundialmente, o ex-atleta é uma inspiração para crianças e adolescentes que pretendem seguir o mesmo caminho.

Nascido dia 13 de janeiro de 1962, em um pequeno distrito no sul de Acopiara (a 352 km de Fortaleza, capital), Gêra é o mais novo de oito irmãos. Filho de agricultores, ele passou por muita dificuldade durante sua infância em Iguatu (a 380 km de Fortaleza). Mas, o ex-atleta conta que é agradecido por tudo que viveu. Sem isso, a fama conquistada alguns anos depois de sair do interior, para estudar em Fortaleza, poderia ter subido sua cabeça. “Meu pai sempre falou para mim que a                                                                                       humildade está acima de tudo”, conta.

“Meu pai sempre falou para mim que a humildade está acima de tudo” (Gêra)

Paixão pelo esporte

O ex-atleta (embaixo, na ponta esquerda) jogou para um time de Iguatu, chamado Paulinus. Foto: Reprodução.

Desde os 10 anos, Gêra joga futebol e futsal. A primeira competição que participou foi o Festival Dente de Leite de Futsal, que ocorre até hoje. Depois disso, jogou em intercolegiais e intermunicipais. “Desde os meus 15 anos eu fui cogitado para jogar nos clubes de futebol e de futsal de Fortaleza”, lembra.

Aos 19 anos, ele foi morar na capital para ingressar no Ensino Superior. O principal motivo da mudança foi porque seus irmãos mais velhos ou já tinham se formado ou já estavam em algum curso. Então, para fazer uma faculdade que não ocupasse muito seu tempo, ele decidiu fazer Educação Física na Universidade de Fortaleza (Unifor). Além disso, o curso era uma oportunidade de estudar seu corpo como atleta, já que ele se achava muito pequeno para praticar algum esporte profissionalmente.

Apesar de ser reconhecido como jogador de futsal, Gêra sempre foi mais atraído pelo futebol. “Todo sonho de garoto é ser jogador de futebol, e não de futsal”, conta. Aos 23 anos, ele jogava tanto para a Seleção Brasileira de Futsal, quanto para o time do Fortaleza de futebol. No entanto, após ser chamado pelo time do Rio Grande do Sul para jogar futsal, ele desistiu da sua carreira como atleta de futebol para se dedicar somente às quadras.

Dificuldades

Gêra jogando no Campeonato Brasileiro de Showbol. Foto: Reprodução.​

Uma contusão no joelho, nos primeiros cinco minutos da final entre Fortaleza e Ceará, deixou o ex-atleta desacreditado no futebol. Após uma consulta médica, Gêra escutou que nunca mais voltaria a jogar profissionalmente. Esse foi o maior incentivo que recebeu para persistir. “Eu agradeci ao médico por ele ter falado aquilo”, diz.

“Eu pedi para ele pôr no teto do meu quarto ‘vou vencer’, bem grande, para toda vez que eu acordasse, o incentivo estar ali”, lembra o ex-atleta. Após 8 meses de esforço e determinação, ele voltou a jogar. “Foi depois dessa lesão gravíssima que eu tive, que todas as portas se abriram para mim”, disse. Com razão, alguns anos depois ele seria considerado o melhor jogador de futsal do Brasil duas vezes seguidas e o melhor do mundo.

“Eu pedi para ele pôr no teto do meu quarto ‘vou vencer’ bem grande para toda vez que eu acordasse, o incentivo estar ali” (Gêra)

Exterior

No mesmo ano que ganhou o título de melhor jogador de futsal do mundo na Austrália, em 1988, a Seleção Brasileira tinha ganhado da Espanha de 5 a 0. Gêra fez os cinco gols. Então, aparentemente chocados, a seleção do país europeu fez uma proposta para ele jogar fora do Brasil.

No entanto, apesar de incentivado pela esposa, ele tinha muitas dúvidas. A Espanha, na época, não era tão profissional quanto o Brasil. O time era formado por atletas, de alguma forma, provisórios. Não era concedido o visto de trabalho. O investimento era pouco. Porém, foi apenas com as exigências de Gêra que a Espanha profissionalizou seus jogadores. O ex-atleta conta que o principal motivo para ter ido jogar por uma seleção tão “debilitada” foi a grande recessão brasileira durante o governo do então presidente Fernando Collor de Mello.

Melhores momentos

Gêra consegue lembrar detalhadamente o melhor momento de sua profissão. Durante a final do Pan-Americano, em São Paulo, o ex-atleta estava jogando pela Seleção Brasileira. Era a final Brasil x Paraguai, um clássico da época. Até aquele momento, Gêra era apenas um novo jogador de futsal da seleção, conhecido por ser atrevido e bom de bola. O país ganhou de 3 a 0, ele fez todos os gols. O estádio inteiro gritava seu nome. “Eu vim lá do interior, que não tinha nada, para ser ovacionado em uma final de futsal. Foi um dos meus momentos de maior alegria”, conta Gêra.

“Eu vim lá do interior, que não tinha nada, para ser ovacionado em uma final de futsal. Foi um dos meus momentos de maior alegria” (Gêra)

Além desse momento marcante, outro foi o dia em que foi considerado o melhor jogador do mundo. “Todos os jogadores foram sem saber quem ia ganhar. Quando, em 1988, eu ouvi ‘venha subir ao palco o melhor atleta de futsal do mundo, Geraldo Nogueira’, eu fiquei em choque”, conta. No entanto, para ele, a final Brasil e Paraguai ainda foi mais marcante.

Empreendedorismo

Gêra, após terminar seu contrato com o time da Espanha, precisou voltar para o Ceará porque seu pai teve um grave problema de saúde. Apesar de ainda ter ido para a Europa novamente, seu pai faleceu um ano depois. A partir de então, ele voltou para jogar no Sumov Atlético Clube, o clube de futsal cearense considerado, na época, um dos melhores do país.

Gêra sabia que sua carreira um dia iria terminar, e começou a empreender. Montou uma fábrica de bolas, chamada “Bola Gê”, antes de ir para a Espanha e continuou durante sua volta para o Ceará. Além desta, teve uma empresa de carros usados para locação e uma oficina mecânica. Até hoje, Gêra trabalha em seu lava-jato. “Eu sempre vivi dentro do comércio para quando parasse de jogar, eu pudesse ter uma estabilidade”, conta.

Lava-Jato de Gêra. Foto: Google.​

Futuro

Gêra tem apenas uma meta que pretende alcançar no futuro: a realização de seu projeto “Sucesso na bola, 10 na escola”. O principal propósito é ajudar crianças de baixa renda, que têm poucas oportunidades, a conseguirem um destino melhor. O futsal seria apenas uma maneira de apoiar a criança e colocá-la no rumo certo.

Apesar de ainda não ter sido aprovado pelo Governo do Estado do Ceará, o projeto, para Gêra, tem um bom plano. A criança, matriculada na escola pela manhã ou pela tarde, poderia jogar futsal em um turno diferente, se mantiver notas acima da média. Aquelas que se destacassem, teriam uma equipe de apoio para treiná-las para o profissional. Já para as outras crianças que jogam por hobbie, o projeto funcionaria como estímulo para tirar boas notas e ainda ganhar lanche. “A coisa mais interessante do mundo é você poder estender a mão para alguém. No dia que eu puder fazer alguma coisa por um garoto, jovem ou criança, basta ele me dizer ‘muito obrigado pela oportunidade que você está me dando’ e eu serei grato”, sonha Gêra.

“No dia que eu puder fazer alguma coisa por um garoto, jovem ou criança, basta ele me dizer ‘muito obrigado pela oportunidade que você está me dando’ e eu serei grato” (Gêra)

2 comentários em “Gêra e a vida nas quadras de futsal

  • 20 de outubro de 2017 em 21:59
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    Uma experiência marcante pra quem veio do interior, era de baixa estatura e não tinha grandes possibilidades de crescer devido a ppuca visibilidade dos times do interior. Parabéns…

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  • 21 de outubro de 2017 em 07:50
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    Gera poderia ter seu potencial melhor reconhecido pela grande imprensa. Só quem o viu jogar sabe do talentoso jogador de futsal que o futebol de campo perdeu. Chegou a ser cogitado pelo Corinthians e não demoraria a vestir a camisa da Seleção Brasileira. Pena que a profissão de jogador de futebol seja tão curta para não permitir maiores oportunidades aos atletas. Se ao contrário fosse, Gera teria brilhado também no futebol de campo.

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