As mudanças do século XXI na visão de Sérgio Abranches

Por Lígia Grillo

“A era do imprevisto: a grande transição do século XXI” foi o tema abordado por Sérgio Abranches em uma palestra para o Mundo Unifor. O jornalista falou sobre as profissões passageiras e sobre assuntos como a sobrevivência da democracia em uma sociedade intolerante, apontando as redes sociais como as principais ferramentas das mudanças do século, afirmando que “o futuro é uma ficção, uma construção mental, ele não existe”. Recheado de muitas críticas, Abranches debateu temas “polêmicos” e esclareceu temas políticos, filosóficos e sociais da atualidade.

“O futuro é uma ficção, uma construção mental, ele não existe” (Sérgio Abranches)

“É possível, por meio das nossas escolhas, construir um futuro no qual a gente possa ser feliz de viver, no qual seja uma promessa importante para nossos filhos, netos e bisnetos. Um mundo realmente digno da humanidade, que construiu tanto para chegar até aqui”, exalta Abranches na busca de trazer esperança ao público. Em meio a tantos problemas no mundo, ele afirma que, mesmo com retrocessos, é importante acreditar em um futuro melhor, pois são nos dias de hoje que uma nova versão dele será construída. “Nós hoje somos muito melhores do que fomos no passado, precisamos criar condições para o mundo ser ainda melhor no futuro”, conta.

A intolerância transforma a aceitação como desafio na sociedade, impedindo a relação humana harmoniosa, de acordo com o palestrante, a democracia dos dias de hoje deve se transformar em algo representativo, que abrange todos os grupos da sociedade. “A pedra fundamental de uma democracia mais representativa é o exercício pessoal da tolerância”. Sérgio acredita que se houvesse respeito perante a representatividade, as pessoas teriam um relacionamento benéfico. Contudo, a transformação da sociedade pode ser uma tarefa difícil quando existem tantos bloqueadores desta.

“A pedra fundamental de uma democracia mais representativa é o exercício pessoal da tolerância” (Sérgio Abranches)

Os bloqueadores da sociedade

Foto: Jâmia Figueiredo

Abranches considera bloqueadores da sociedade os que elegeram o presidente norte americano Donald Trump, os que levaram o atual presidente do Brasil, Michel Temer, ao poder e os que deram voz aos conservadores europeus, regredindo grandes avanços feitos pela sociedade com o passar do tempo. Para ele, isso é um atraso. “Essa [onda de bloqueadores] é uma classe que já perdeu. Mas eles vão lutar com todas as forças para levar adiante seus interesses, de forma cada vez mais violenta”.

O discurso de ódio tem unido mais pessoas do que argumentos positivos, principalmente nas redes sociais, que, segundo Sérgio, funcionam como a principal ferramenta de mudanças do século. Apesar de evidenciar o oposto, ele acredita na formação de um futuro melhor. “Nós temos que acreditar nos transformadores, eles existem”, exalta. Para ocorrer uma democracia representativa, as três etapas de sua formação devem ser concretizadas: a família, a escola e o trabalho. Elas devem ser uma representação de como devemos agir para se transformar em um grande movimento positivo.

Foto: Jâmia Figueiredo.

“Eu sei que eu sou intolerante, eu sei que eu sou machista e eu sei que eu sou racista. Diariamente acordo fazendo esforço para tolerar, não discriminar e não ter comportamentos indecentes. Isso é verdade para mim como homem branco e para você como mulher branca. Sou convencido de que nós nunca fomos democráticos, não existe a possibilidade da gente exercer uma democracia  no plano macro se a gente não começar vivendo-a.” disse Abranches durante o debate do evento. Para ele, é necessário um controle diário e pessoal para tolerar e aceitar. Porém, isso acontece devido à influência negativa da sociedade em que estamos inseridos.

Para Erismar Silva, aposentado há três anos e estudante de psicologia da Unifor, o evento trouxe assuntos que precisavam ser abordados. “Eu achei muito esclarecedor. O professor Sérgio Abranches trouxe temas muito atuais que são de uma profundidade necessária, principalmente em um ambiente de academia”. Para Roberto Freire, diretor de planejamento e gestão do instituto Dragão do Mar, a intervenção de Abranches faz parte de uma síntese de sua obra “A era do imprevisto”. “Trata do contexto em nível mundial do que a gente vive, uma análise dessa transição e a rigor de uma ruptura de bases do que era tradicional. A mudança política, social e do ambiente. Foi muito proveitoso”, conta.

Confira abaixo uma breve entrevista concedida por Sérgio Abranches ao Jornalismo NIC:

Jornalismo NIC: Você comentou sobre as mudanças do século XXI, você acha que tem relação com mudanças de séculos anteriores?

Sérgio Abranches: Não, são bem diferentes. Tem duas diferenças fundamentais. Houve muitas mudanças radicais no século XX. Começou com a Revolução Russa, depois a Guerra Fria, mudanças tecnológicas, científicas, mas dentro de um modelo geral de pensamento científico, humanístico e filosófico que começou com o Iluminismo. Uma grande era. Essa transição de agora é tão radical quanto foi a transição da idade média para o Renascimento. Isso significa que todos os paradigmas que orientam essas profissões, o nosso entendimento de política, economia e sociedade vão mudar. É uma revolução tecnológica, científica, social, econômica, política e tem outro fator que distingue a gente de todos os séculos, o fato de que agora nós inventamos as mudanças climáticas. Ao longo do século XX, a gente produziu uma transformação no clima por conta das emissões dos efeitos dos gases estufa, uma transformação da biosfera, por causa da extinção de espécies. Agora, no século XXI, nós vamos lidar com os efeitos como retorno disso. Dessa vez, nós temos uma mudança para enfrentar os danos que nos causamos a natureza.

JN: O senhor acha que o maior fator dessa mudança pode ser a tecnologia ou está tudo interligado? 

SA: Está tudo junto. Na verdade, a tecnologia e a ciência produzem muitas mudanças, mas, por outro lado, elas também respondem as mudanças que estão acontecendo na sociedade. Essas mudanças climáticas e a extinção de biodiversidade estimulam a ciência a pensar como preservar e reduzir emissões. É uma interação muito dinâmica em todos esses fatores. Eu não distinguiria um fator como determinante de uma grande mudança. Todos eles estão produzindo uma mudança completamente radical na nossa vida.

 

 

 

 

 

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