Uso do corpo nu nas artes gera polêmica

Por Clara Menezes

O nu artístico, uma forma de arte com diferentes significados para cada artista e observador, propõe, contemporaneamente, o uso da nudez humana como objeto. A arte demonstra o corpo humano como ele é verdadeiramente. No entanto, o fundamento desse conceito não foi o mesmo durante toda a História. Na Grécia Antiga, os artistas buscavam o “nu” como forma de atingir a pureza entre corpo e espírito. Já no período renascentista, em meados do século XVI, a nudez foi a principal forma de representação pela arte. As obras da época se inspiraram, principalmente, nas mitologias greco-romanas e na Bíblia católica.

A estátua “Spirit Of Justice” foi coberta devido aos seios da mulher. Foto: Reprodução.

No entanto, a nudez na arte foi censurada diversas vezes durante seu processo de afirmação. Já no século XV, o então papa Paulo IV ordenou que fossem cobertas as partes íntimas da obra “Juízo Final”, exposta na Capela Sistina. Essas proibições ocorrem ainda, no século XXI. Em 2002, o ex-secretário de Justiça norte-americano, John Ashcroft, ordenou que fossem colocadas cortinas na estátua “Spirit of Justice”. Localizada no Departamento de Justiça, em Washington, o principal motivo para a cobertura da obra foi a mostra dos seios femininos.

A desmistificação

Segundo a doutora em psicologia clínica, Alessandra Xavier, 46, na sociedade ocidental, o corpo é alvo de interdições marcadas pelo pecado por causa da possibilidade de despertar desejo sexual. Isso ocorre porque o ser humano é um ser cultural e precisa estabelecer regras de comportamento para poder sobreviver. “Freud fala que somos portadores de sexualidade e de desejos que serão sempre avassaladores, e terão o corpo ou parte dele como objeto”, explica a psicóloga. Então, para Alessandra, a sociedade ocidental tenta proibir ou amenizar esses desejos.

A nudez pode ser comum em uma sociedade e em outra não. Segundo o curador, artista e professor, Carlos Velázquez, o corpo nu em algumas tribos africanas é natural porque o local em que vivem é quente. No entanto, o Brasil faz parte de uma cultura mais “globalizada”, ou seja, o modo de agir das pessoas de um determinado grupo não é natural, pois recebem a cultura de outros lugares. “Nós temos que justificar uma série de coisas que não conversam com o ambiente, que não condizem com o que convivemos”, sugere Velázquez.

“Nós temos que justificar uma série de coisas que não conversam com o ambiente, que não condizem com o que convivemos” (Carlos Velázquez)

Confira abaixo um gráfico respondido por 67 pessoas, de um estudo feito pelo Jornalismo NIC, sobre a importância da desmistificação da nudez do corpo. A justificativa da maioria das pessoas que responderam “sim” foi a de que a nudez é algo natural e precisa ser desconstruída socialmente. Já para os que discordaram, o principal motivo é que o “nu” é algo íntimo e pertence à pessoa e a quem ela deseja que veja. Então, não há necessidade de mostrar para todos.

O gráfico demonstra a opinião de 67 pessoas sobre a desmistificação do corpo. Foto: Google Forms.

“A apropriação do corpo pelo aparelho psíquico é extremamente importante e necessário para a integração e constituição da subjetividade de cada pessoa”, conta a psicóloga Alessandra Xavier. Para ela, o sujeito é capaz de aprender com o corpo sobre seus medos e fantasias construídos ao longo da vida. Essa melhor percepção dos sentimentos pode ser aceita como sofrimento ou prazer pela pessoa que sente. Então, o sujeito, dessa maneira, está mais apto a ponderar as emoções e equilibrá-las.

O nu artístico contemporâneo

115 pessoas se reuniram na Praça do Museu da República em setembro. Foto: Kazuo Okubo

Para o professor Carlos Velázquez, se por um lado o nu artístico da contemporaneidade pretende chamar a atenção, por outro, ele quer restituir uma experiência da natureza com o homem, destruída pela globalização. Mas, esse contato não pode ser feito completamente. “É um certo sequestro da experiência, porque ela já não é aquela coisa natural que responde ao seu ambiente. Ela tem que acontecer em um ambiente controlado, fechado”.

Em sua opinião, o nu artístico está supersaturado. “É barato ficar nu, chama atenção, causa polêmica, mas já chega. Acho que os artistas precisam de mais invenção, mais criatividade”, acredita Velázquez. Para ele, a maioria dos artistas contemporâneos não têm técnica, que seria a definição de arte para Platão. “São expressões desesperadas e desajeitadas”, opina.

“É barato ficar nu, chama atenção, causa polêmica, mas já chega. Acho que os artistas precisam de mais invenção, mais criatividade” (Carlos Velázquez)

No entanto, isso é explicado com o crescimento das tecnologias e da rapidez, em geral, do mundo globalizado. Para Velázquez, o artista precisou se tornar comerciável para se sustentar. Isso, aos poucos, foi rumando para uma arte conceitual. Porém, o conceito é apenas a ideia que vai ser utilizada na arte por meio da técnica. Sem técnica, não existe arte.

Polêmicas

Criança ​interage com artista em performance no MAM. Foto: Reprodução.

O nu artístico, no entanto, causou repercussão na Internet após vazar um vídeo de uma criança interagindo com um artista despido, no dia 26 de setembro. A performance que ocorreu no Museu de Arte Moderna (MAM) de São Paulo vem sendo acusada, por alguns grupos, de incitar à pedofilia.

Porém, para o advogado Carlos Mourão, 31, não houve exposição da criança com um conteúdo sexual. “Do ponto de vista moral e religioso, é possível discutir se os pais devem levar seus filhos para espetáculos com cenas de nudez. Porém, do ponto de vista do Direito Penal, não há o que se falar, pois não houve prática de crime algum”, afirma ele.

“Do ponto de vista moral e religioso, é possível discutir se os pais devem levar seus filhos para espetáculos com cenas de nudez. Porém, do ponto de vista do Direito Penal, não há o que se falar, pois não houve prática de crime algum” (Carlos Mourão)

Já para a advogada e conselheira tutelar, Gina Albuquerque, 42, se o principal foco do tema não é a prática de crimes, e sim a receptividade da criança com a nudez. Dessa maneira, ela pode ser influenciada mais facilmente por indivíduos mal intencionados.

No entanto, Mourão acredita que pedir a proibição de obras de arte sem um fundamento é uma forma de censura. “Se as exposições não fazem apologia ou possuem conteúdos de crimes contra a humanidade, racismo, xenofobia etc., não podem ser proibidas. Isso, sim, é violar a liberdade de expressão e artística”, afirma.

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