Nova biografia traz um Lima Barreto visionário

Por Melissa Carvalho

“Há muito mais passado no presente do que a gente pode imaginar”, afirmou a professora e antropóloga Lilia Moritz Schwarcz, durante o lançamento do seu mais recente livro, “Lima Barreto: Triste visionário”, em palestra realizada na manhã da última quarta-feira, evento que lotou o Teatro Celina Queiroz. Ela falou de momentos da vida do escritor de forma descontraída e leve, prendendo a atenção do público por conectar acontecimentos do passado com questões atuais.

“Há muito mais passado no presente” (Lilia Moritz Schwarcz)

A obra precisou de quase 10 anos de pesquisa para a sua produção. A obra mostra como assuntos atuais se ligam ao passado do autor. Barreto nasceu em 13 de maio de 1881, sete anos antes da abolição dos escravos, e acreditava que seu nascimento fora uma espécie de ‘premonição’. O escritor negro era filho de um tipógrafo e de uma professora. Perdeu a mãe cedo e, durante a juventude, cuidou do pai que estava doente. Lutou contra o alcoolismo durante boa parte da vida e acabou internado no manicômio por um tempo devido a esse problema. Aos 41, contraiu uma pneumonia e faleceu um dia antes da morte do pai.

O subtítulo “Triste visionário” chamou a atenção da plateia. A antropóloga afirmou que Lima Barreto foi bastante vitimizado por outros autores. De acordo com ela, o escritor era muito mais do que uma vítima, ele tinha visão e projetos, mas nem sempre tinha humor. “Eu queria dois termos que fossem opostos entre si. Na crítica eles falam ‘você está engrandecendo, colocou visionário’ ou ‘você acabou com ele, colocou triste’. É isso que eu quero”, explica.

Foto: Pedro Vidal.

A história se repete

Lilia destacou alguns pontos importantes da sociedade atual. O Brasil, depois de muitos anos, continua com os mesmos problemas sociais, como a má distribuição de saúde e de educação. Para a professora, muitos problemas de hoje são um reflexo de consequências do passado. A história de Lima Barreto é marcada por problemas que são encontrados na sociedade atual, como o racismo, aproximando a narrativa de nossa realidade. “Muitas pessoas pensam que a história é feita de mudança. O material da história é a mudança, mas a história também é feita de muito esquecer e de muita reiteração. História lembra e história esquece. História muda e história repete. O Brasil, depois de 30 anos, não virou um Brasil mais justo”, ressalta.

“História muda e história repete” (Lilia Moritz Schwarcz)

A antropóloga falou também sobre a censura que está acontecendo na arte. A autora acredita que o Brasil é um país rico culturalmente, mas vivemos sob um regime intolerante. “A gente pode gostar, a gente pode não gostar. O que não vale é censurar. Um Brasil melhor vai ser feito se nós pudermos criticar. A noção de crítica vem de um olhar que indaga, que transgride. Regimes intolerantes foram feitos na base da censura”.

“A gente pode gostar, a gente pode não gostar. O que não vale é censurar.” (Lilia Moritz Schwarcz)

“Triste fim de Policarpo Quaresma”

A obra de Lima Barreto de maior destaque, segundo a pesquisadora, é “Triste fim de Policarpo Quaresma”. Foi publicado como livro em 1915, mas já havia sido veiculado antes como folhetim. Narra a história de Policarpo Quaresma, um patriota que sonha em implantar o Tupi como língua oficial do Brasil. Ao longo do livro, Policarpo se reinventa e exerce diversas profissões, como funcionário público, agricultor e até se alista para o exército. Mas como o título revela, não há um final feliz. O personagem acaba preso e melancólico com o país que não tinha sido o que haviam lhe prometido. “Coloca em questão o nacionalismo, esse problema que é tão nosso, da nossa agenda contemporânea. Olha o que os nacionalismos estão fazendo, olha quanto ódio vai sendo destilado com os nacionalismos”, questiona Lilia.

Sobre a autora

Lilia Moritz Schwarcz. Foto: Pedro Vidal

Lilia Moritz Schwarcz esteve pela segunda vez na Universidade de Fortaleza (Unifor). É professora titular do departamento de antropologia da Universidade de São Paulo (USP), da Global Scholar na Universidade de Princeton (EUA) e curadora adjunta do Museu de Arte de São Paulo Assis Chateaubriand (Masp).

É autora de diversos livros, como, por exemplo, “As barbas do imperador: D. Pedro II, um monarca nos trópicos” que ganhou um prêmio Jabuti na categoria “Livro do ano”, em 1999.

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