“Tem que ter energia para mudar o mundo que a gente vive para melhor”

Por Luiza Ester

Cena do filme “Madame Satã”, de Karim Aïnouz. Foto: reprodução

“Quem a gente precisa tornar herói?”, esse é o questionamento que antecede o processo criativo do cineasta Karim Aïnouz, 51. A resposta está em suas obras. Nelas, os protagonistas são os invisíveis da sociedade. Ele utiliza da arte de fazer Cinema para falar de urgências e, assim, modificar o mundo à sua maneira. Para o diretor, obras cinematográficas têm a responsabilidade de dar visibilidade aos esquecidos e marginalizados.

Negros, mulheres, gays. O primeiro longa de Aïnouz, “Madame Satã” (2002), fala de João Francisco dos Santos, um travesti, ex-presidiário, homossexual e filho de escravos. “O Céu de Suely” (2006) conta a história de uma mulher que, abandonada pelo marido, rifa o próprio corpo entre os homens de sua cidade natal. Em “Praia do Futuro” (2014), um salva-vidas falha na missão de livrar um homem de um afogamento, mas acaba se apaixonando pelo amigo da vítima.

Cena do filme “O Céu de Suely”. Foto: reprodução

Karim Aïnouz é cearense e um dos maiores nomes do cinema nacional e internacional. As obras “Madame Satã” e “O Céu de Suely” estão na lista dos 100 melhores filmes de todos os tempos da Associação Brasileira de Críticos de Cinema (Abraccine). Roteirizou os premiados “Cidade Baixa” e “Viajo Porque Preciso, Volto Porque Te Amo” – neste último, também co-dirigiu. Já foi convidado para integrar o júri do Festival de Cannes e do Festival de Berlim. O cineasta integrará a banca do Oscar em 2018.

Aïnouz concedeu uma entrevista exclusiva ao JornalismoNIC, logo após o “II Encontrão de Cinema” realizado na Universidade de Fortaleza (Unifor) no dia 2 de outubro, na qual ele fala sobre a importância de se fazer cinema, confira.

O II Encontrão de Cinema é, de certa forma, uma reunião de experiências entre os jovens e os veteranos do Cinema. Para você, qual a importância dessa troca de bagagem?

Eu acho que é injetar energia em uma geração nova. Assim, eu acho que deve ser muito angustiante… viver em um mar de imagens que são produzidas constantemente. São 50 milhões de filmes. Então, é sempre relevante lembrar que vale à pena e que tem que ter uma energia para continuar fazendo coisas que, de alguma maneira, possam mudar um pouco o mundo que a gente vive para melhor.

Você é tutor e um dos coordenadores do Laboratório de Audiovisual do Porto Iracema da Artes (escola de formação e criação do Ceará). No cenário nacional, você vê um aumento na qualidade e na quantidade dos profissionais do ramo, por conta da abertura dessas escolas de cinema?

Eu vejo. Porque eu acho que Cinema, como qualquer outro ofício, tem que ter formação. Então, eu acho que são escolas que são muito diferentes. Tem escolas que são mais centradas na reflexão crítica, outras escolas que são mais centradas na prática e outras mais centradas na experimentação narrativa. Então, eu acho que é muito bacana que você viva esse momento hoje, em que você tem uma geração que está exposta a diferentes maneiras de se fazer cinema, de se pensar cinema e em diferentes formações possíveis de cinema. É um privilégio, eu acho.

Dois dos seus longas, “Madame Satã” e “O Céu de Suely” estão na lista dos 100 melhores filmes brasileiros de todos os tempos da Associação Brasileira de Críticos de Cinema (Abraccine). Além disso, você foi convidado para integrar o júri do Oscar 2018. Contudo, o que realmente faz com que você se sinta reconhecido?

Não é nada não. Eu acho que é importante ser reconhecido porque você se mantém forte fazendo [Cinema], assim. Mas, eu acho que não dá para você acreditar muito nisso [na importância de ter filmes ganhadores de festivais], não.

O deslocamento de personagens é uma narrativa bastante presente em seus filmes. Você, também, é uma pessoa bastante viajada. Como as experiências individuais podem influenciar da melhor forma o jeito de se fazer filmes?

Eu acho que elas afetam muito. Mas, ao mesmo tempo, eu acho que os filmes não podem ser sobre experiências privadas, né? Eu acho que a experiência íntima e a experiência individual sempre resvalam [escorregam] nas histórias. Mas, eu acho que as histórias têm que ser sobre outras pessoas que não eu. Eu acho que tem que ser personagens que, de alguma maneira, são personagens que vão encantar o mundo.

Você também fala de assuntos em seus filmes que a sociedade não quer falar, como a homossexualidade, a prostituição e a cultura do patriarcado.

Claro, eu acho que é uma das funções, do porquê que a gente faz Cinema. Cinema é uma arte popular. Cinema vem do circo, eu acho, de uma certa maneira. Então, eu acho que é importante que a gente aproveite a visibilidade que o Cinema pode dar para falar dos invisíveis.

Então isso é pensado de alguma forma?

Completamente. Isso é pensado e muito bem pensado.

 

Assista ao trailer de “Praia do Futuro”:

 

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