Turismo afeta áreas conservadas de Jericoacoara

                  Por Lígia Grillo

Jijoca de Jericoacoara, com 201,9 km² de extensão, está localizada a 287 km de Fortaleza e é considerada um paraíso natural por todos que a visitam. Devido a tanta popularidade, “Jericoacoara, o paraíso é aqui” tornou-se uma expressão usada por moradores e turistas, como uma espécie de slogan. A cidade virou um dos pontos turísticos mais atraente para brasileiros e estrangeiros, recebendo turistas o ano todo. De acordo com a SETUR (Secretaria de Turismo do Estado do Ceará) o número médio é de 600 mil visitantes por ano. O pequeno município já conta com mais de 314 hotéis e pousadas, e o turismo é a atividade mais lucrativa da região. Tudo isso tem gerado um impacto no seu meio ambiente.

Foto: Lígia Grillo

Luiza Tonidandel, 20, vive em Jericoacoara desde pequena. Ela conta, na sua experiência como moradora, que as transformações, devido ao turismo, foram significativas. “A mudança é altamente notável pra quem mora em Jeri há anos, como eu. A Duna do Pôr do Sol, que é a que sofreu mais nesses anos de aumento de popularidade, tá cada vez mais dentro do mar por conta do número de pessoas que sobem e descem todos os dias nela. Isso fez e faz com que a altura [da duna] diminua cada dia mais. Outra coisa é a contaminação do lençol freático pelo excesso da extração de água e esgotamento sanitário. A quantidade de pousadas e hotéis construídos ao passar desses anos e o aumento acelerado de turismo, fez com que nosso lençol freático ficasse cada vez mais contaminado”, explica.

Jeri não tem estrutura nenhuma para  a quantidade de lixo que é produzida todos os dias. “Tem lixo espalhado na maioria do parque nacional e, também, o excesso de carros passando por dentro do Parque (Ecológico…). A verdade é que Jericoacoara deixou de ser uma vila pequena de pescadores, e passou a ser uma praia de hotéis luxuosos com um alto fluxo de turismo”, opina Luiza. Por outro lado, Maria Alencar (28) mora em Jericoacoara desde que nasceu. Ela afirma que já viu lixo no chão, mas que é difícil de encontrar. “Uma mudança que veio com o aumento do turismo foram as pousadas que invadiram a orla marítima”, conta.

“A verdade é que Jericoacoara deixou de ser uma vila pequena de pescadores, e passou a ser uma praia de hotéis luxuosos com um alto fluxo de turismo” (Luiza Tonidandel)

Ricardo Gusso Wagner, secretário de Turismo de Jijoca de Jericoacoara, afirma que,  com um maior número de visitantes, há uma  maior produção de resíduos sólidos, de esgoto e demanda por água. Fatores que podem afetar o equilíbrio ambiental.  “A parceria do município com o Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (órgão federal, que gerencia o Parque Nacional de Jericoacoara) e a Secretaria Estadual do Meio Ambiente (que gerencia a Área de Proteção Ambiental da Lagoa de Jijoca) também é constante. Com essas ações, buscamos que os impactos negativos causados pelo aumento dos turistas sejam diminuídos ao máximo e que possamos propiciar um meio ambiente cada vez mais equilibrado e agradável para a população e para os visitantes de Jijoca de Jericoacoara”, responde.

Fiscalização

Foto: divulgação

O Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio) é responsável pela conservação, administração e monitoramento do parque natural de Jericoacoara, além de realizar a gestão de suas unidades em conjunto com a sociedade através de seus conselhos gestores, no caso do Parque, um conselho consultivo. “Com  a intensificação do turismo ocorreram impactos sobre as dunas, devido à interferência nos campos de aspersão eólica (campos com estruturas de proteção contra a corrosão de estruturas de turbinas eólicas) que as alimentavam e que foram  impactados pelo fluxo de veículos ou por edificações. O trânsito sobre as dunas, lagoas temporárias e faixa de praia também impacta fauna e flora local”, explicou por e-mail a assessoria de comunicação do instituto acerca dos impactos ao ecossistema causados pelo aumento do turismo na região.

Os fiscais da ICMBio contam com o apoio do Batalhão da Polícia Militar Ambiental (BPMA) e com o Batalhão de Policiamento Turístico (BPTUR) do Estado do Ceará. Em virtude das características da unidade, a demanda de fiscalização mais expressiva é aquela relacionada ao uso público, em especial, referente aos veículos e condutores de visitantes no interior da unidade. Entretanto, há demandas de fiscalização relacionadas a ocupações irregulares e ao uso irregular de  recursos da unidade.

O professor de geografia, Lusergio dos Reis, 52, afirma que as dunas são na sua maioria, móveis, e sua direção muda de acordo com a direção dos ventos. Enquanto não existir nada que altere o fluxo natural dos ventos, tudo ocorre dentro do esperado. No entanto, construções indevidas podem favorecer mudanças no comportamentos das correntes de ar. Dessa forma, as dunas se deslocando podem reduzir a formação de lagoas, secar outras e, com isso, diminuir a oferta de água. Caso a interferência seja na faixa de areia, altera a movimentação das correntes marítimas e podem modificar a quantidade de sedimentos, gerando excesso em algumas áreas da costa.

“A especulação imobiliária é outro problema. O número de hotéis e pousadas que vem aumentando nas novas áreas naturais são modificadas. Com a modificação, os sistemas naturais serão desarticulados e desequilibrados. Espera-se que a consciência ambiental seja bem trabalhada pelo poder público, população e visitantes. Caso não seja, as relações naturais tendem a sofrer impactos pelo mau uso e ocupação do espaço”, explica o professor.

“Espera-se que a consciência ambiental seja bem trabalhada pelo poder público, população e visitantes. Caso não seja, as relações naturais tendem a sofrer impactos pelo mau uso e ocupação do espaço” (Lusergio dos Reis)

Taxa

A prefeitura de Jijoca de Jericoacoara decretou no dia 21 de Agosto, uma taxa de turismo sustentável, no valor de $5 reais por visitante ao dia. A lei tem como objetivo a utilização efetiva, ou potencial, por parte dos visitantes, da infraestrutura física implantada e do acesso e fruição ao patrimônio natural da vila de Jericoacoara. Ou seja, visa o controle do fluxo turístico e preservação do meio ambiente.

Infografia: Lígia Grillo

Visita

Situação dos cavalos-marinhos. Foto: Lígia Grillo

Ao visitar Jericoacoara, em julho deste ano (2017), alta estação, a reportagem presenciou em vários locais lixo no chão, passagem de carros motorizados onde é proibido, mesmo com as placas de aviso, e diversas formas de agressão ao ecossistema, como animais mortos na praia.

O que mais chamou a atenção foi o passeio dos cavalos-marinhos, que é praticado com o uso de barcos em uma lagoa da região. Após a aparição de um dos animais, um dos barqueiros retirou o cavalo-marinho da água com um pedaço de madeira e o colocou em um pote, para que os turistas pudessem tirar fotos. Questionado sobre o cuidado com o animal, ele respondeu: “Não se preocupa, senhora, fazemos isso todos os dias”.  

Resposta

“A secretaria não teve a oportunidade, ainda, de realizar um monitoramento para poder avaliar com maiores detalhes os impactos que o aumento de visitantes causou nos diversos ecossistemas do município, entretanto estamos trabalhando para melhorar nosso sistema de gestão de resíduos sólidos e mantemos contato direto com órgãos do governo federal e estadual para melhorarmos a estrutura de saneamento básico como um todo”, explica o secretário de turismo, Ricardo Gusso Wagner.

Com relação ao passeio dos cavalos-marinhos, a ICMBio afirma que “atividades de uso público não manejadas têm a possibilidade de causar danos a uma unidade de conservação. No caso específico do passeio desses animais, há a necessidade de formação constante dos condutores, o que ocorre com o apoio de instituições parceiras. Além disso, para se pensar na conservação de uma espécie ou ecossistema, é necessário entender que outros impactos os afetam além daqueles existentes na unidade de conservação”, explica a assessoria do órgão. O estuário do rio Guriú, parcialmente inserido no Parque Nacional, sofre influência de outras atividades que podem impactar a conservação dos cavalos marinhos. O ICMBio destaca também que “representantes dos condutores de visitantes na área em questão, vêm trabalhando com a equipe da unidade para encontrar soluções que viabilizem a continuidade da atividade e a conservação do mangue, incluídos os cavalos marinhos que o habitam”.

 

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *