Karim Aïnouz: “A gente vive um momento de ascensão do fascismo no Brasil”

Por Luiza Ester

O cineasta Karim Aïnouz. Foto: Ares Soares

O que era para ser um debate sobre experiências profissionais de cinema acabou tomando o rumo, não só das artes, mas da política brasileira. Durante o II Encontrão de Cinema realizado esta semana na Universidade de Fortaleza (Unifor), o cineasta Karim Aïnouz destacou o fascismo como a melhor definição para o cenário de perseguição às manifestações artísticas no país. Juntamente com os cineastas Sérgio Machado e Marcelo Gomes, pediu para que os jovens acordassem e reagissem contra a censura e às personalidades da intolerância.

Ao falar da privação do Estado de Direito, situação jurídica para garantia dos direitos fundamentais do ser humano, o diretor de “Madame Satã” e “O Céu de Suely”, Aïnouz, enfatizou a necessidade de agir com firmeza contra as investidas dos intolerantes e fascistas que impedem qualquer liberdade de manifestação. “A gente vive hoje um momento de ascensão do fascismo no Brasil”, revolta-se.

Censura

Foto: Ares Soares

“A gente passou por uma experiência esse final de semana absurda com o trabalho que está no MAM [Museu de Arte Moderna de São Paulo]. A exposição Panorama de Arte Brasileira está sendo atacada de maneira criminosa. Eu fico até sem ar quando falo desse tema…” Neste ponto, Aïnouz soltou a frase que virou depois uma polêmica: “… porque a única vontade que dá de fazer é pegar nas armas”. Aïnouz desabafava, ali, sua indgnação em referência às críticas violentas nas redes sociais sobre a obra “La Bête”, de Wagner Schwartz. Na performance, repercutida na Internet, o coreógrafo carioca despido sobre o chão, tem suas mãos e pés tocados por uma criança que visitava a exposição. Segundo o diretor, as críticas passaram de “sem noção” para, em um instante, acusações de pedofilia.

“Depois que você tem um impeachment [como o da ex-presidente Dilma], você não tem mais Estado de Direito. Você pode tudo, pode fazer qualquer coisa, queimar as pessoas, proibir exposições. Eu acho que é um momento gravíssimo que a gente tá vivendo”, declarou Aïnouz. O cineasta também alertou que a autocensura é perigosa. Ao falar de um vídeo, dirigido por ele, com um idoso dançando e uma criança jogando uma bola de plástico no mesmo plano, ele confessa ter pensado na possibilidade do público relacionar a produção à pedofilia.

“Depois que você tem um impeachment [como o da ex-presidente Dilma], você não tem mais Estado de Direito. Você pode tudo, pode fazer qualquer coisa, queimar as pessoas, proibir exposições. Eu acho que é um momento gravíssimo que a gente tá vivendo” (Karim Aïnouz)

Mesmo com os contratempos, Aïnouz fala que a raiva é necessária, pois ela instiga as criações artísticas. “Ou a gente reage rápido ou rapidamente teremos uma situação sem saída”, brada. Em concordância, o diretor de “Cidade Baixa” Sérgio Machado contou ter se assustado quando, em um passeio pela orla de Fortaleza, se deparou com uma grande oferta de camisas estampadas com o rosto do deputado Jair Bolsonaro, conhecido por declarações extremas de fascismo. Para ele, cada dia sem manifestações contra discursos intolerantes é uma perda de tempo.

Segundo Marcelo Gomes, cada vez mais a necessidade da juventude “ir pra rua e tomar partido” aumenta. “A gente tem que exigir o nosso direito de liberdade. Senão, daqui a pouco, vão começar a tacar fogo nos livros”, cogita. O cineasta de “Viajo Porque Preciso, Volto Porque te Amo” advertiu que, se as reivindicações não forem realizadas, ficarão todos “inertes”, sem atividades, desprovidos de movimentos ou de vida.

Reflexão

Para os diretores, o assunto é imediato. Por isso, para fazer cinema é preciso entender o que é urgente e relevante para a sociedade. As produções podem, de certa forma, gerar visibilidade e, consequentemente, esclarecer ideias. Outras pessoas conseguem adquirir poder de fala quando a arte se torna uma ferramenta de denúncia. Além disso, é importante não fazer filmes pensando em prêmios, segundo eles.

Comparando o cinema com a imprensa brasileira, Aïnouz disse que existe um jornalismo “tipo [revista] Caras” e outro crítico. Já Marcelo Gomes acredita que o cinema precisa ser universal. O diretor precisa ter bons ouvidos e se contaminar dos lugares. Mas, de acordo com Sérgio Machado, a grande questão sobre o uso da Internet é o excesso. As pessoas estão, cada vez mais, em diferentes janelas. “Como as histórias são redesenhadas? Como fazer algo relevante?”, questiona. Para ele, o olhar é muito rico.

Troca de bagagens

Fascinação

“Particularmente, ter descoberto que Marcelo Gomes começou como cineclubista foi algo incrível, pois eu também faço curadoria de um cineclube, o ‘Comeram Minha Pipoca’, junto com amigos estudantes do curso [de Cinema]”, conta Emilly Guilherme, 21. Ela considerou o debate inspirador. A descoberta de como iniciaram os trabalhos, as dúvidas de como acontece o processo criativo e as aflições passadas pelos diretores encantaram a jovem. A ocasião também permitiu a compreensão de Emilly sobre a visibilidade que festivais dão para as obras cinematográficas, situando os filmes em um circuito de Cinema mais elevado.

Clara Gomes, 19, estudante de Cinema, definiu como “engrandecedora” a experiência com os cineastas. Para ela, o contato com tais diretores mostrou que, mesmo não sendo fácil seguir o ramo audiovisual, as motivações persistem. “Como eles falam, a gente sente o amor que têm pelo que fazem. Foi muito bom escutar e bem motivante para a gente continuar fazendo cinema e não desistir”, revela.

Para a também estudante de cinema Lara Frota, 18, o encontro foi, de fato, motivante. Ouvir os relatos dos cineastas serviram para a jovem entender que, mesmo com os contratempos, é importante persistir. “Eu tenho muita dificuldade nessa vida do cinema, porque parece que tudo é muito difícil, parece que tudo é muita pressão. Ver onde chegaram foi muito motivante, por ver que passam pela mesma coisa e a gente não está doido… É realmente difícil, mas eles conseguiram superar isso tudo e levam o amor que têm pelo cinema pra frente”, declara.

O II Encontrão de Cinema aconteceu na última segunda-feira (02). Organizado pelo curso de Cinema e Audiovisual da Unifor e ministrado pelo professor Tiago Therrien, a ocasião contou também com a presença da coordenadora do curso, Bete Jaguaribe, o cineasta Marcelo Müller e a atriz Mayana Neiva.

Polêmica

A frase de efeito “a única vontade que dá de fazer é pegar nas armas”, de Karim Aïnouz, gerou polêmica na Internet. A transmissão ao vivo do evento recebeu comentários de internautas questionando o pronunciamento do diretor. Trechos do vídeo foram editados por grupos de direita associando a fala de Aïnouz à apologia de crimes e guerrilhas.

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