Olhar com as mãos. Exposição propõe a percepção da fotografia pelo tato

Por Luiza Ester

Foto: Luiza Ester

Observar, geralmente, é a primeira ação quando se está em uma exposição. Mas como deficientes visuais também podem sentir a arte dos retratos? Na mostra de ontem (25), realizada pelo Projeto Fotografia Tátil, o que atraía o público era, na contramão do óbvio, o contato. O toque em cada peça é o que faz o público refletir sobre a obra.

O Projeto, coordenado pelo professor Roberto Vieira, doutor em Ciência da Computação, busca viabilizar para cegos a assimilação de fotografias por meio de imagens transformadas em painéis. Mais do que isso, ele revela, para quem tem a visão como discernimento, que sentir vai muito além do olhar. Segundo Vieira, é importante “se colocar no lugar do outro”. “Temos o cego como deficiente, mas não entendemos a percepção deles”, afirma.

“Temos o cego como deficiente, mas não entendemos a percepção deles” (Roberto Vieira)

Foto: Luiza Ester

Na exposição, o público pôde sentir, em peças de madeira, a representação de retratos e paisagens. Passarinhos em seu ninho, o pôr do sol na Ponte dos Ingleses (Fortaleza-CE) e o singelo sorriso da menina com dreads (tranças) de rastafari. Para apresentar as fotografias como arte e ferramenta de inclusão social, foram utilizadas máquinas de corte e gravação a laser, além de impressoras com tecnologia tridimensional.

Reno Bezerra, 24, não é deficiente visual, mas apreciou as fotografias táteis como uma arte de relações sensoriais diferentes. Para ele, a ferramenta não tem apenas a vantagem de ser acessível. “Eu acho que é importante pensar que não é só uma coisa acessível e inclusiva [fotografia tátil]. Mas, também, abre novas possibilidades para pensar em uma fotografia de uma forma mais sinestésica. Pensar no que se dá não só pelo olho, mas pelo tato também”, diz.

“Pensar no que se dá não só pelo olho, mas pelo tato também” (Reno Bezerra)

Foto: Luiza Ester

Para Lara Maria, 19, a arte também tem a função de inclusão. “Eu achei muito importante a promoção dessa exposição de fotografias para pessoas cegas. Revelou o quão importante é esse tipo de Projeto”, opina.

O Projeto

“Inicialmente, a ideia era criar um grupo de fotógrafos cegos”, conta o professor Roberto Vieira. O projeto, iniciado em 2015 na Universidade Federal do Ceará (UFC), teve sua primeira parte voltada à realização de oficinas de fotografia para deficientes visuais por meio da audiodescrição. Um monitor ao lado do deficiente visual o alertava sobre os aspectos das técnicas fotográficas, descrevendo os cenários e seus enquadramentos. Com isso, se buscou entender o processo do ponto de vista dos participantes.

O material da oficina serviu de estudo de programação e processamento das imagens. Assim, foram desenvolvidos diferentes algoritmos com padrões artísticos, que materializaram as fotografias táteis. A finalização desse processo se dá nas placas de madeira. O professor conta que aprimoramentos ainda precisam ser feitos, como legendas em braile, audiodescrição e músicas para facilitar a compreensão por parte dos deficientes visuais.

A exposição aconteceu no Laboratório de Inovação e Prototipagem da Universidade de Fortaleza (Unifor), espaço dedicado a apoiar o desenvolvimento de projetos multidisciplinares.

Sinestesia

Visão, audição, olfato, paladar e tato se confundem e reagem ao mesmo tempo. De uma certa forma é isso o que propõe a exposição do Projeto de Fotografia Tátil: misturar os sentidos fazendo com que a pessoa veja com as mãos. Mas o termo sinestesia também está ligado a um distúrbio neurológico que cria uma espécie de mistura de sensações e reações em indivíduos. Ela faz com que um estímulo de um sentido provoque reações em outros. Assim, tocar em algo pode provocar diversas outras sensações, excitando o cheiro, o gosto ou a melodia.

No livro The Man Who Tasted Shapes (“O homem que saboreava formas”), escrito em 1993, o neurologista americano Richard Cytowic conta a história de Watson, um sinestesista. Em uma das narrativas da obra há o resumo, feito por Watson, do sabor da angustura, um composto aromático de ervas. O gosto vai muito além das definições de amargo ou doce. “Eu sinto uma forma orgânica, quase redonda, com a consistência de um cogumelo. Posso colocar meus dedos em pequenos buracos na sua superfície. Não é uma imagem mental. Eu não vejo nada. Eu não imagino nada. Eu sinto isso nas minhas mãos, como se estivesse bem na minha frente. Daí as formas se desenvolvem, surge uma espécie de corda; se eu coloco a mão nessa corda, sinto as folhas oleosas de uma pequena parreira”, diz o relato.

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