A vida por trás dos likes

Por Melissa Carvalho

Corpo sarado, rosto sem manchas, vida saudável, namoro sem brigas, família unida, viagens caras e casa dos sonhos. A vida perfeita que vemos na tela do celular. Um estudo realizado em 2016, pela Universidade da Califórnia, em Los Angeles, publicado pela revista Psychological Science, mostrou que o cérebro dos jovens fica entusiasmado com likes em publicações. Trinta e dois adolescentes, entre 13 e 18 anos, foram avaliados. A conclusão mostrou que ao visualizarem suas fotos com mais curtidas, a parte do circuito de recompensa do cérebro era estimulado, causando uma sensação de felicidade. A nova tendência das “blogueirinhas” ou das “fotos tumblr transformou as redes sociais em  uma verdadeira disputa pela melhor página online.

“Como ferramentas que são, as tecnologias e redes virtuais podem ter usos saudáveis ou não, depende de cada caso”, declara  Luana Timbó, 35, psicanalista do INCERE e professora do curso de psicologia da FANOR/Devry. Postar é o verbo mais conjugado. Além de querer mostrar o seu cotidiano, a necessidade de saber o que os outros estão fazendo virou vício. “A busca pela felicidade instantânea e de forma fácil faz parte do contexto amplo, então não é de se estranhar que ferramentas tecnológicas entrem nessa lógica e façam parte do anseio das pessoas em serem vistas, curtidas, amadas, admiradas. Esses anseios já existiam antes e agora encontram novas formas de aparecer por meio das redes sociais”, afirma Luana.

“Como ferramentas que são, as tecnologias e redes virtuais podem ter usos saudáveis ou não, depende de cada caso” (Luana Timbó)

Para a psicanalista, não são as redes sociais que criam a ilusão, elas apenas ajudam a ampliar o que já existe. O padrão de beleza imposto pela sociedade ficou mais nítido devido às redes sociais e seu fácil acesso. “As blogueiras são uma versão exacerbada e com mais alcance de algo que já existia antes, modelos ideais de como se portar, do que vestir, comer etc”, ressalta.

“Life in plastic”

O fotógrafo Gabriel Marques, 20, realizou um ensaio mostrando a vida plastificada das pessoas nas redes sociais. “O ensaio veio de um momento que eu tava muito viciado em olhar o Instagram e ficar na internet. Às vezes, quando eu entrava no Instagram tinha gente que eu achava que era super bonita e ficava me comparando, aquela coisa que todo mundo faz de ficar se sentindo meio feio depois de ver gente muito bonita”, relata.

“Às vezes, quando eu entrava no Instagram tinha gente que eu achava que era super bonita e ficava me comparando, aquela coisa que todo mundo faz de ficar se sentindo meio feio depois de ver gente muito bonita” (Gabriel Marques)

“Eu tava deitado no meu quarto e veio aquela música da Barbie, Barbie Girl, da banda Aqua. Eu percebi a música da Barbie como uma alegoria para tudo isso que a gente ‘tá’ vivendo. E eu tinha noção que eu estava inserido nisso, nesse mundo perfeito da Barbie, das redes sociais”, revela. A ideia do ensaio é mostrar a vida de uma garota padrão e dos seus amigos de plástico, num mundo sem vida. O ensaio é composto por cores neutras, tendo o batom da modelo a única tonalidade viva. Os amigos da garota foram representados por manequins.

“Eu percebi a música da Barbie como uma alegoria para tudo isso que a gente ‘tá’ vivendo. E eu tinha noção que eu estava inserido nisso, nesse mundo perfeito da Barbie, das redes sociais” (Gabriel Marques)

Antes de realizar o ensaio, houve um processo de preparação com a modelo. “A gente conversou muito sobre isso, porque a gente criou um universo, mesmo que seja um ensaio simples, do ponto de vista de produção”. Quando as fotos foram concluídas, Gabriel decidiu riscá-las para cada uma ter uma narrativa única e completa.

Veja a seguir o ensaio Life in Plastic:

Life in Plastic

Fotos de Gabriel Marques, para o ensaio “Life in Plastic”

 

A farsa por trás das “blogueirinhas”

Em julho, a blogueira e youtuber Karol Pinheiro, 30, divulgou um vídeo no seu canal falando sobre a farsa da vida nas redes sociais. A digital influencer falou sobre a forma que foi afetada pelas fotos perfeitas no Instagram. Karol falou que se sentiu mal quando percebeu que muito dos seus conteúdos produzidos para a internet também eram ilusórios. O vídeo aborda sobre o processo cansativo para tirar as fotos e as histórias tristes escondidas por trás de imagens felizes.

Essena O’Neill, 20. Foto: arquivo pessoal

Outra blogueira que se manifestou sobre o assunto foi a australiana Essena O’Neill, 20. Após um desabafo sobre a falsa felicidade e a perfeição, divulgou que abandonaria as redes sociais. Essena, que acumulava mais de meio milhão de seguidores no Instagram, apagou mais de duas mil fotos e modificou a legenda das que restaram. Nas legendas, a jovem relatava as dificuldades e os estresses que enfrentava para ter a foto perfeita, como passar o dia sem comer para ficar com a barriga definida e brigar com a irmã até conseguir um ângulo favorável.

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