O Horizonte pede para ir longe

Por Lígia Grillo

A aventura desta reportagem começa entrando em um bote a caminho do  veleiro Horizonte. A família Passos me recebeu em sua morada com muita alegria e gentileza. Não sou marinheira, mas confesso que depois de vislumbrar sua casa, tive vontade de embarcar nessa aventura. Cheguei com uma expectativa de historia interessante, contudo, não imaginava que sairia daquele barco com a responsabilidade de retratar um sonho. Um sonho que virou realidade.

Família Passos.
Foto: Arquivo pessoal.

Emerson Passos, Rafael Passos e Ivanilda Rocha navegam o Brasil em um veleiro, inicialmente, como parte do Projeto Horizonte. Seu objetivo inicial, como faz referencia o nome, é expandir, e foi concretizado quando o barco deu sua primeira volta ao mundo. Contudo, o amor por velejar nem sempre esteve presente. Nascido em Mogi das Cruzes (a 62 Kms. de São Paulo, capital) Emerson, 44, estava cansado da mesmice. Queria que seu filho, Rafael, hoje com 16, pudesse ter as mesmas oportunidades que ele teve na infância. Andar de carrinho de rolimã e empinar pipa, eram algumas dessas coisas, mas ele não podia imaginar que velejar estaria entre elas.

Quando se mudaram para Ilhabela (litoral norte, a 200 kms. de São Paulo), Rafael, então com 6 anos, foi apresentado à vela. Logo, ele e seu pai começaram a praticar em aulas. Esse foi o início do que se tornaria um estilo de vida. Começaram a participar de regatas e de competições, que aconteciam em quase todos os fins de semana, e o laço de amizade entre eles foi crescendo. Um dia, Emerson conheceu Antônio Carlos Aricó, o proprietário do barco Horizonte, e foi aí que tudo começou. Inicialmente, como um convite feito pelo seu Antônio, depois de pensar e planejar com sua esposa e filho, organizar a relação dos estudos com os trabalhos, a família Passos disse sim para o convite e levantou âncora para a maior aventura de suas vidas.

 

Nem tudo é fácil como parece

A rota do veleiro Horizonte começou com a saída de Ilhabela, em 2016. Apesar das paisagens paradisíacas, nem tudo é fácil na vida de um marinheiro. A vida no barco pode ser difícil devido ao estilo de vida diferente e à convivência em tempo integral. Ivanilda, 46, afirma que, para ela, a adaptação no barco foi difícil, já que ela não é uma pessoa “do mar” e ainda sofre com o isolamento. “Eu tinha um salão antes da viagem, que era cheio de gente das sete horas da manhã até as oito horas da noite. Então, para mim, o negócio complicou, mas você acaba se adaptando com o tempo”.

Interior do veleiro Horizonte.
Foto: Arquivo Pessoal.

Valorizar a água, saber dividir e respeitar o espaço do outro são alguns dos valores aprendidos quando se mora em um barco. Emerson explica que a água da chuva é reaproveitada através de um toldo e de uma cobertura. Quando chove, eles colocam mangueiras dentro do sistema. Nessa situação, a água vira um bem muito precioso.  “Você vai tomar banho. Você quer tomar um banho demorado. Você vai lavar a louça e você quer lavar a louça direito. Você está acostumado a abrir a torneira e deixar a água cair. Aqui no barco não. Você vai ter que lavar com água salgada primeiro para depois tirar o sal com a água doce”, explica.

Sobre a questão da alimentação dos tripulantes, a família conta que, por questões climáticas, é muito difícil manter uma horta, então eles elaboraram algumas estratégias para conservar alguns alimentos por mais tempo. Comprar o tomate e a banana um pouco mais verdes, trocar a alface normal pela alface americana e até a mandioca e a batata doce, opções que sustentam e são mais práticas, foram algumas das medidas adotadas.

Apesar do barco não ter acesso ao sinal de televisão, se engana quem pensa que eles não têm como passar o tempo. Emerson conta que sempre tem alguma tarefa para ser feita. “Estávamos vedando o convés, hoje a gente abasteceu o barco, amanha vou mergulhar para limpar o fundo, depois de amanhã tem que limpar o arco, dar uma geral”. Questionei se eles pensam em criar um canal no Youtube, mas por conta da falta de tempo, eles dizem que não está nos planos no momento. Emerson ainda confessa que, quando se está em um barco, no meio do mar e contemplando o céu, a última coisa em que se pensa é em tecnologia.

Apesar do mar ser um pouco mais calmo no Brasil, eles relatam a experiência de cruzar um furacão. Uma vez, passaram por isso em uma viagem em outro barco que saia da Europa e ia em direção ao território brasileiro. “Nós temos que fazer cálculos para plotar o barco (localizá-lo no mapa), ver a velocidade do furacão. O furacão saiu de Cabo Verde e a gente saiu das Ilhas Canárias. A gente vai se cruzar, então você tem que calcular quem vai passar primeiro. Se o furacão passar primeiro e ele voltar, ferrou, porque tem grandes chances de atingir o barco. Mas se você passar primeiro e encontrar um lugar para se esconder e torcer para ele desviar, melhor ainda. E foi o que aconteceu”.

 

Estudando no barco
Rafael e Emerson estudando.
Foto: Arquivo pessoal.

Depois da aventura ter começado, Rafael, 16, passou a estudar em uma escola americana chamada Clonlara School, que permite a interação por meio digital. A instituição não acredita no método convencional de ensino, por isso trabalham por meio do método de estímulo. Emerson conta que, diariamente, seu filho tem que executar desafios. Um deles, foi desenhar o barco Horizonte, identificando ângulos, arestas e a escala. Durante a entrevista, expliquei o conceito básico de pauta, como elaborar as perguntas para o entrevistado e como funciona o processo de produção das reportagens. Logo, ele já tinha o conteúdo aprendido do dia, e depois teria que explicar para a sua professora, via Skype, sobre a experiência e contar o que aprendeu.

Apesar das suas vantagens, Ivanilda conta que, por trás de um bom método, ela sente falta da socialização. Como a educação é a distância, Rafael não tem os colegas de sala. Mas isso não é problema para a família Passos. Emerson sempre tentou estimular o aprendizado do filho, muitas vezes  com ele mesmo dando as aulas. Ele conta que os dois gostam de sair pela cidade em que estão atracados atrás de personagens e de pessoas interessantes para as suas próprias matérias, que produzem por diversão, aprendizado e para alimentar o blog do Projeto Horizonte.

 

A parte doce

Mesmo com muitos desafios enfrentados diariamente, a família Passos ainda tem boas histórias para contar. Eles relembram de uma engraçada que ocorreu quando viajaram para o Rio Paraguaçu, Salvador. Eles estavam no barco com um casal alemão e seu Antonio. A sonda, que mede a profundidade da água, estava com um alcance muito grande, ou seja, passava a impressão de ser um fundo falso. Eles estavam a uma profundidade de 3 metros, mas a sonda estava indicando 18 metros de profundidade. Emerson logo percebeu que tinha algo errado, e quando foi consertar o problema, Antonio afirmou que estava tudo bem e que não tinha nada com que se preocupar. Apesar da certeza de que algo estava errado, ele deixou passar.

Depois de algum tempo a maré começou a baixar. Emerson começou a se preocupar, então ele disse a seu Antonio que ia lavar a louça e que depois ia recolher tudo para eles irem embora, senão o barco ia encalhar. Apesar de demorar um pouco para convencê-lo, ele concordou. Enquanto Emerson lavava a louça, o barco fez um barulho muito alto. Tinha encalhado. Eles tentaram tirar o barco do lugar, mas ele não se mexia. De repente, a proa do barco (parte da frente) levantou e todos os móveis foram jogados para o lado oposto do que estavam, inclusive a geladeira. “Parecia a casa maluca do Playcenter, porque estava tudo torto ou de cabeça para baixo. Eu fechei todas as vigias (janelas) porque o barco ia deitar, ia entrar água e molhar tudo”.

O barco havia atolado não na areia, mas sim em monte de pedras, ou seja, corria o risco do casco do barco quebrar. Emerson fez um berço usando madeira e pedras grandes para apoiar sua parte inferior. Assim, quando a maré subisse de novo, ele ia conseguir se sustentar e poderiam continuar seu caminho. Depois de muito tempo, o Horizonte finalmente virou e eles puderam continuar a viagem, dessa vez, com uma história a mais para contar. “A gente deu muita risada nesse dia”, conta Emerson. 

 

“A gente deu muita risada nesse dia” (Emerson Passos)

 

Além das experiências e aprendizados, estar velejando permite a oportunidade de ver coisas diferentes, como a visita de alguns animais, por exemplo. A família conta que já presenciaram vários como jacaré, cobra, baleia, golfinho, tubarão e tartaruga. Eles ressaltam que, principalmente em Fortaleza, a visita dos golfinhos é diária. Emerson adiciona que as estrelas vistas do barco durante a noite são muito diferentes das que podem ser vistas da cidade, e que, apesar de vê-las todas as noites, ele nunca perde o encanto pela vista do Horizonte, um céu estrelado.

 

 

Especificações técnicas

O barco Horizonte tem 80 toneladas movidas a um motor Ford de 250 cavalos. Consome em média de 20 a 30 litros de diesel. Como a vela é usada com frequência, acaba compensando o motor, consumindo em média de 11 a 15 litros por hora. O barco possui dessalinizador, que transforma água salgada em água doce, o que pode ser muito útil em um barco, apesar da família ainda não ter usado ainda. A vela do barco funciona de duas maneiras: a favor do vento e contra o vento. No contravento, que é quando o vento entra a 40º graus, é mais difícil de velejar. Só que por esse barco ser pesado e pequeno, e não um veleiro de performance, ele sempre vai navegar a 50º graus de vela. Assim, tem que navegar fazendo zigue-zague. Já a favor do vento, o barco desenvolve uma velocidade maior, nem é necessário ligar o motor, o que facilita ainda mais a viagem.

 

Perspectivas para o futuro

Apesar de estarem vivendo um sonho, é preciso aterrissar e voltar para a terra firme. A família conta que não pretendem viver no barco por mais tempo, e que sua aventura vai ser até o Caribe e a volta para casa, Ilhabela. “Eu não tenho vontade de morar no mar, eu tenho vontade de navegar. Nunca quero deixar de navegar, mas eu já escolhi o pedaço onde eu quero viver, entre Ilhabela e Ilha Grande. Esses pedaços pra mim são um dos mais bonitos que existem no Brasil”, opina Emerson. Já Ivanilda, que não é uma pessoa “do mar”, prefere ficar em terra firme. Contudo, Rafael revela que não pretende fazer uma faculdade, por enquanto. Ele gosta de viver no barco e um dia quer dar início as suas próprias aventuras.

A viagem não termina aqui. A experiência de contar a história da família Passos foi algo do qual eu nunca vou esquecer, porém, é hora de levantar âncora para a próxima aventura. Como diz um famoso ditado de um navegador “Arrie suas velas e siga em frente”, a família Passos é um exemplo disso. Algo que começou como um convite, se transformou em um sonho e acabou se tornando a maior aventura de suas vidas, resultou em muitas histórias para contar na mesa de jantar.

A rota do veleiro Horizonte está disponível no mapa abaixo, com todas as informações sobre as aventuras da família Passos durante a concretização desse sonho.

 

Memórias do Horizonte

Confira a galeria de fotos cedidas pela família Passos.

 

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

css.php