“Eu não tinha ideia do ódio”, diz feminista em debate na Unifor

Por Luiza Ester

Relatos com um teor violento e sem fundamento são vistos constantemente em postagens e comentários do mundo online. O advento da Internet permitiu dar voz a pessoas comuns. Contudo, elas passaram a publicar – sem limites – qualquer coisa. Escondidas através do anonimato de um dispositivo eletrônico, muitos não costumam medir o conteúdo de seus discursos. Esse foi o tema tratado no VI Simpósio de Ética, Cidadania e Jornalismo realizado hoje (19) na Universidade de Fortaleza (Unifor).

A convidada Lola Aronovich, professora de Letras e autora do blog “Escreva, Lola, Escreva”, é vítima de diferentes formas dessa manifestação. Por abordar em seu diário virtual temas como o feminismo, Lola recebe diariamente injúrias e ameaças. Entre 260 mil acessos mensais, muitos usuários são criminosos do ciberespaço. Em dezembro de 2016, o reitor da universidade em que Lola trabalha recebeu um email pedindo sua demissão. Caso contrário, o remetente mataria 300 pessoas.

Além desse episódio, a escritora constantemente é tema de debates em chans, que são fóruns anônimos em que homens, declarados de direita e neonazistas, compartilham seu ódio por mulheres, negros, homossexuais e judeus. “Eu sempre fui feminista, mas eu não conhecia esse nível de misoginia que eu vim a conhecer nas redes sociais. Eu não tinha ideia do ódio”, lamentou Lola. Para a autora, blogs ativistas atraem essa fúria.

“Eu sempre fui feminista, mas eu não conhecia esse nível de misoginia que eu vim a conhecer nas redes sociais. Eu não tinha ideia do ódio” (Lola Aronovich)

A professora e blogueira Lola Aronovich. Foto: Gabriel Goersh/Unifor

Alguém vai sempre se manifestar, seja contra ou a favor. A professora afirma que os criminosos realizam tais atos por “gerar publicidade”. A campanha #GoogleNãoCensuraALola, por exemplo, ocorreu depois de um ataque programado por um grupo dos chans. Homens denunciaram o blog de Lola por pedofilia. Ela conta que a plataforma quase retirou do ar sua página na web.

Além disso, a blogueira cita o “Movimento pelos direitos dos homens”, criado nos Estados Unidos, como um protesto sem fins verdadeiros de reivindicação. Para ela, os masculinistas (como se intitulam no Brasil) são apenas um grupo de ódio contra mulheres. Por isso, costuma chamá-los carinhosamente de “mascus”. Como exemplo de um mascu, Lola fala sobre Silvio Koerich, autor de um dos maiores blogs com conteúdos de ódio. Em uma de suas postagens, Silvio dizia “Seja homem, mate uma mulher e um negro hoje”.

Papel da imprensa

O outro convidado, Emílio Moreno, coordenador de mídias sociais do Sistema Jangadeiro e editor de engajamento digital do jornal eletrônico The Intercept Brasil, disse na sua intervenção que muitas pessoas acreditam que a Internet é um “território sem lei”. Por isso, o jornalista afirma que o principal desafio é filtrar as informações, pois existem implicações sérias dentro desse debate.

Uma das maneiras de filtrar os comentários é com o Monitor de Debate Político, uma ferramenta digital de mapeamento e análise de dados. Nele, são levantadas as fake news, termo usado para se referir às notícias fabricadas ou distorcidas. Para Moreno, os veículos de comunicação não devem esquecer sua função de moderar os ataques de ódio.

“Se produz na redação apenas aquilo que vai gerar audiência, e não traz nenhuma reflexão sobre isso. As métricas de vaidade acabam mascarando o papel que a mídia tem hoje e dão voz muito menos para casos como esse”, declara o jornalista em referência ao relato de Lola. De acordo com Moreno, a imprensa precisa, além de mostrar os fatos, combater o discurso de ódio com denúncias.

Código Penal

De acordo com Fábio Holanda, advogado e professor de Direito Penal, também presente no debate, cerca de 100 milhões de brasileiros têm acesso à Internet e permanecem quatro horas por dia nas redes sociais. A grande quantidade de usuários gera mais discussão e, consequentemente, mais crimes. Esse discurso bastante atual se contrapõe ao Código Penal Brasileiro, criado em 1940.

“As leis penais são fracas para tratar sobre isso”, afirma Holanda. Para o professor, não há como determinar o prejuízo ético e moral das vítimas de crimes no mundo online. Essas violações são consideradas crimes contra a honra, como calúnia, difamação e injúria. As penas variam de 1 a 2 anos para calúnia, 6 meses a 1 ano para difamação e 1 a 3 meses para injúria. Um dos passos importantes para mudar essa realidade foi o Marco Civil da Internet, lei que regula o modo como se navega no Brasil. Essa lei, aprovada em 2014, prevê a garantia de direitos e deveres para quem usa as redes.

Mesmo assim, Holanda diz que, como o Código é muito antigo, há “brechas” usadas no Tribunal. Além disso, os passos para processar alguém ainda é muito complicado. Segundo o advogado, é necessário uma atualização das leis para que medidas sejam realmente efetivas. Enquanto isso não acontece, ele aconselha que as vítimas processem os criminosos de maneira autônoma. Para isso, é preciso peticionar o poder judiciário para que os provedores informem o IP (número de protocolo do computador) do criminoso e, posteriormente, fazer o Boletim de Ocorrência.

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