Curso de Psicologia realiza evento para discutir suicídio juvenil

Por Lia Bruno

“O que a morte nos questiona sobre a vida?”. Foi com essa pergunta que a professora da Universidade Estadual do Ceará (UECE), Alessandra Silva Xavier, deu início à discussão sobre o Suicídio na Adolescência, realizada nesta segunda-feira (18). Considerada a segunda maior causa de mortes no mundo e a terceira em todo o Brasil, o suicídio juvenil tem sido tema de grandes debates mundo afora. Estima-se que cerca de 67% dos jovens possuem ou já tiveram pensamentos suicidas. Ao trazer esses dados para o público presente, Alessandra buscou indagar quais atitudes estão sendo tomadas pelas escolas e familiares desses jovens na tentativa de driblar essa realidade.

Para a professora, a primeira medida a ser tomada é a quebra do preconceito contra o sofrimento psíquico. Geralmente, as pessoas se recusam a aceitar a ideia da depressão, ansiedade e outros transtornos psicológicos, o que agrava ainda mais a situação. “Se você tiver com hemorragia, ninguém diz que é frescura, mas se você estiver depressivo, as pessoas não te levam a sério”, alerta a professora.

O suicídio indica a existência de uma dor insuportável, constante e angustiante, que ultrapassa a capacidade de esperança do indivíduo. De acordo com Alessandra, sofrer faz parte da vida, mas se a vida for só sofrimento, angústia e solidão, para onde irá a dor dos que sofrem por existir? Qual rede afetiva, profissional e criativa podem ser oferecidas para ajudar essas pessoas?

“Comprei uma bolsa de grife, mas ouçam que cara de pau, ela disse que ia me dar amor. Acreditei, que horror. Ela disse que ia me curar a gripe. Desconfiei, mas comprei. Comprei a bolsa cara pra me curar do mal. (…) Ainda tenho a angústia e a sede, a solidão, a gripe e a dor e a sensação de muita tolice. Nas prestações que eu pago, pela tal bolsa de grife, nem pensei. Impulso, para sanar um momento, silenciar barulhos, me esqueci de respirar”

Amparo psicológico

Ao mencionar a letra da música “Bolsa de Grife”, da Cantora Vanessa da Mata, a professora também questiona a forma como buscamos conforto nos bens materiais em momentos de angústia e depressão. “Essa é uma sensação momentânea. O amparo psicológico só pode ser feito com a ajuda de outro ser humano, é um outro tipo de acolhimento, é algo que precisa de escuta, cuidado e atenção”, explicou.

“Tia, olha pra mim, eu odeio minha vida… eu moro com meus avós.. eu nunca tenho um dia feliz… meus pais eu nunca vi, me abandonaram quando eu nasci… minha avó diz que minha mãe não presta, usa drogas… ela diz que sou igual minha mãe… eu não tenho amigos, ninguém gosta de mim… eu não gosto da escola… eu sou feia… eu sinto uma coisa ruim no meu peito… eu não vou ser nada. Meu avô bebe, bate em mim… eu queria outra vida… eu sofro, eu choro, mas ninguém se importa… pra que viver?” V, 16 anos.

Foto: Lia Bruno

Ao trazer esse relato, a professora Alessandra buscou discutir o sentimento de fracasso e de impossibilidade que o adolescente sente ao tentar atingir as próprias expectativas. Segundo ela, esse jovem acaba se comparando a outro e vendo que não possui o mesmo padrão de vida, felicidade e capacidade de fazer as coisas que eles fazem, se sente desesperançoso em continuar vivendo. Para a professora, as pessoas, na maioria das vezes, desqualificam o que o adolescente sente e o que ele pensa, pois elas não têm ideia da dimensão da dor que certas situações, por mais insignificantes que sejam, causem nesses jovens.

Segundo pesquisa citada pela professora durante a palestra, 90% dos casos de suicídios estão ligados a depressão, transtorno bipolar, esquizofrenia ou borderline (outro tipo de transtorno). Excessos de experiências traumáticas, fragilização de relações com a família e/ou amigos e violência física e/ou verbal também são um grande agravante. “Além disso, os adolescentes constituem um dos grupos mais sensíveis a um grande número dos mais graves problemas da atualidade, como fome, miséria, anafalbetismo, abandono, prostituição, entre outros”, explicou a professora.

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