Orelhões resistem nas ruas de Fortaleza

                                                                    Por Letícia Feitosa

Os orelhões fazem parte do cenário urbano de muitas cidades brasileiras. Em Fortaleza eles sobrevivem ao tempo e à evolução da telefonia móvel, e podem ser vistos em muitas esquinas da capital. De acordo com a companhia telefônica Oi Ceará, o estado dispõe de 35.975 telefones públicos, mas há os que sofreram com o vandalismo e com a falta de manutenção e encontram-se danificados ou inutilizados. Apesar dessas circunstâncias, os orelhões resistem e, junto a eles, os fortalezenses que continuam utilizando seus serviços.

“O uso que faço do orelhão é suplementar aos outros modos de comunicação, e acredito que ele também está inserido na modernidade da telefonia”, diz o historiador Raul Agrella, 23. O jovem usa o aparelho público há um bom tempo por causa da gratuidade das ligações. Em 2015, a Agência Nacional de Telefonia (Anatel) determinou ligações sem custo para telefones fixos locais e interurbanos. O serviço gratuito foi disponibilizado em 14 estados das regiões Norte, Sul e Nordeste. Essa medida foi implantada porque a empresa não obteve a porcentagem mínima de 90% de aparelhos em boa condição para o uso.

A mestre em educação, Marília Guimarães, 24, também usufrui do serviço sem pagar nada. Para ela, os orelhões são um auxílio. “Quando preciso fazer uma ligação que cobra altas tarifas, como cartão de crédito, por exemplo, corro pra rua. A ligação funciona direitinho e não gasto nada com isso”, conta. Marília afirma não ter nenhuma dificuldade em deparar-se com um telefone público em seu bairro, “os que eu uso são em frente a minha casa. E são três juntos”, diz.

Manutenção

É comum encontrar aparelhos em más condições. Foto: Celina Diógenes

Desde sua invenção, em 1971, os orelhões sempre foram mantidos pelos serviços de telefonia, que hoje são privatizados. A Oi é a empresa responsável pelo telefones públicos em Fortaleza e realiza a manutenção dos equipamentos. A empresa informou que, no início de 2017, 10% dos aparelhos estavam danificados. Logo, neste ano,  foram substituídos 510 cabines telefônicas nos meses de janeiro e fevereiro.

No entanto, para quem deseja telefonar por orelhões, encontrar um aparelho que funcione pode ser um desafio. A coordenadora de comunicação da Associação Caatinga, Jessika Thaís, 29, percebe as utilidades dos telefones públicos, mas reconhece a dificuldade de ligar de um em condições aceitáveis. “Eu encotro poucos orelhões, e a maioria não funciona. Então, dei sorte semana passada de encontrar um que estava funcionando e resolvi ligar para minha avó, que é telefone fixo e a ligação é de graça”, compartilha.

“Eu encotro poucos orelhões, e a maioria não funciona. Então, dei sorte semana passada de encontrar um que estava funcionando e resolvi ligar para minha avó, que é telefone fixo e a ligação é de graça” (Jessika Thaís)

Valor

A telefonia móvel facilitou a comunicação e por esse motivo o número de celulares aumentou consideravelmente nos últimos anos. Em 2016, haviam aproximadamente 168 milhões de smartphones em uso no Brasil, de acordo com a 27ª Pesquisa Anual de Administração e Uso de Tecnologia da Informação nas Empresas, feita pela Fundação Getúlio Vargas de São Paulo. Mesmo assim, os telefones públicos não caíram em desuso.

“A gente tem que lembrar que nem sempre o celular está em mãos”, diz a comunicadora Jessika Thaís. Ela ainda acredita no valor dos orelhões. Para Jessika, o aparelho celular trouxe mais praticidade para a comunicação, mas as cabines telefônicas ainda têm seus pontos positivos. “Eu sinto que as pessoas talvez não conversem tanto como conversavam nos telefones públicos. Existem as conversas de WhatsApp, mas são sempre muito picotadas e interrompidas. São conversas que começam hoje e você dá uma resposta amanhã. Eu acho que falar ao telefone, apesar de eu não gostar tanto, aproxima as pessoas”.           

Marília Guimarães concorda que a evolução da telefonia móvel induziu a uma certa individualização de recursos. A mestre de educação reconhece que, o que antes era compartilhado e com limite de uso, se tornou algo utilizado de forma particular, em que cada um tem o seu aparelho de comunicação. “Não só surge uma transferência do orelhão para o telefone celular, mas uma substituição do diálogo por ligação por uma rápida e intensa comunicação por mensagens de texto”.

Lembrança

Coleção de Heldair de Castro. Foto: Rhuan de Castro

Quando foi inventado, o orelhão trouxe uma inovação: telefonar em lugares públicos. No início, faziam-se filas para utilizar os serviços do aparelho. Devido ao seu sucesso, o projeto do equipamento foi exportado para países vizinhos, como  Colômbia, Paraguai e Peru. As cabines telefônicas ovais também cruzaram o Atlântico e podiam ser encontrados em Moçambique, na África, e até mesmo na China.

Heldair de Castro, dona de casa, relembra a popularidade dos orelhões. “Tinham as intensas filas e o pessoal rabugento que não conseguia esperar que eu passasse muito tempo telefonando. Me lembro de uma ocasião em que minha mãe passou tanto tempo conversando que veio uma moça e desligou o telefone”, conta. Até hoje, Heldair coleciona cartões telefônicos. “O principal motivo era que eu adorava as ilustrações [dos cartões]. Então, acabei juntando uma boa quantidade”. Aos poucos, a dona de casa reuniu mais de 300 cartões.

 

“Tinham as intensas filas e o pessoal rabugento que não conseguia esperar que eu passasse muito tempo telefonando. Me lembro de uma ocasião em que minha mãe passou tanto tempo conversando que veio uma moça e desligou o telefone” (Heldair de Castro)

Uma invenção sino-brasileira

Chu Ming Silveira, a criadora do orelhão, completaria, este ano, 76 anos. Ela nasceu na China, em 1941, e, aos dez anos, se mudou com a família para o Brasil. Formou-se arquiteta, em 1964, pela Faculdade de Arquitetura da Universidade Mackenzie. Logo, começou a trabalhar na Companhia Telefônica Brasileira (CBT). Seu principal projeto foi o orelhão, uma solução para uma comunicação acessível e pensada no conforto dos usuários. Chu Ming faleceu aos 56 anos, em 1997.

A designer tinha como objetivo criar um equipamento diferente em termos de estética e acústica. Mas, a forma oval foi adotada, segundo o texto no site Orelhão, “não só por suas características de design bem como pela sua coerência com o método de execução”. Foram criados, então, a orelhinha, para implantar em espaços semi-abertos, e o orelhão, para ambientes abertos. A orelhinha foi planejada para ser fixada em paredes e em pequenos postes, e eram encontradas em supermercados, por exemplo. Os orelhões foram feitos para aplicação externa e atende todo tipo de público.

Infografia: Vinícius Rodrigues

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