“Há um estigma em relação ao suicídio”

Por Clara Menezes

“Na depressão, as pessoas conjugam os ‘des’ de desesperança, desespero e depressão”, afirmou o psiquiatra e responsável pelo Projeto PRAVIDA (Programa de Apoio à Vida), Fábio Gomes de Matos e Sousa, durante palestra “Mortes por likes – O suicídio e as redes sociais”. O evento, promovido pelo Grupo de Estudos em Marketing Digital, teve como principal temática o Setembro Amarelo, uma campanha de conscientização sobre a prevenção do suicídio.

Mais de 800 mil pessoas cometem suicídio por ano no mundo, segundo um relatório da Organização Mundial da Saúde (OMS), de 2015. O Brasil está em oitavo lugar no ranking de países com maior taxa de suicídios. Para o advogado e mestre em Psicologia com Pesquisa do Comportamento Adolescente, Hugo Ramos Nogueira, essa situação demonstra a necessidade de quebrar o tabu sobre o assunto. No entanto, para o psiquiatra Fábio Gomes, a legislação brasileira ainda não proporciona o apoio necessário para atender pessoas com pensamentos suicidas. “O suicídio não vai esperar até outubro ou dezembro”, conta ele sobre a demora de tratamento nos hospitais.

Causas

O suicídio não tem apenas uma causa específica. Ele é um conjunto de experiências vividas pela vítima. Porém, para o advogado, Hugo Ramos, “o suicídio vai ser sempre um enigma porque a pessoa leva a resposta com ela”. As causas vão desde jogos que influenciam o atentado à própria vida à depressão e doenças psicológicas, em geral. Segundo o psiquiatra Gomes, a OMS afirma que 97% dos pensamentos suicidas provêm de depressão, bipolaridade, consumo de álcool e drogas, transtorno borderline ou esquizofrenia. Essa situação é causada, principalmente, pela falta de conversas entre pessoas, pelo descaso do Poder Público e pelo pouco ensinamento em escolas.

“O suicídio vai ser sempre um enigma porque a pessoa leva a resposta com ela” (Hugo Ramos Nogueira)

Redes sociais

Para o mestre em Direito da Tecnologia da Informação, Renato Torres, as redes sociais têm grande impacto nas emoções humanas. Em uma pesquisa feita pela Universidade de Pittsburgh, nos Estados Unidos, foi analisado a frequência com que as pessoas utilizavam as redes sociais. Os mais viciados têm 2,7 vezes mais chances de adquirir depressão.

Os ouvintes realizaram perguntas por meio de aplicativo para os palestrantes. Foto: Juliano Almada.

Algumas brincadeiras, como “A Baleia Azul”, podem influenciar até jovens sem quadro de doenças psicológicas a cometerem suicídio. Um jogo bastante propagado é o da “asfixia”, que pode causar a morte. A procura por uma suposta “euforia” no pré-desmaio já fizeram crianças e adolescentes falecerem. De acordo com uma pesquisa realizada pela psicóloga Dra. Juliana Guilheri, em 2015, 40% de 1.395 crianças francesas e brasileiras entre 9 e 17 anos confessaram já ter praticado o jogo da asfixia.

Além disso, a propagação de publicações nas redes sociais podem ser prejudiciais para o comportamento humano. O cyberbullying é uma prática de comportamentos hostis praticados a outros por meio da Internet. Apesar de ter uma lei brasileira que proíbe esse ato, ele vem causando efeitos adversos, principalmente, nos jovens. Diferente do bullying comum nas escolas, a tendência dessa violência física e psicológica na Internet é ser mais propagado. “As redes sociais são um grande megafone, por isso, é preciso cuidado com o que é postado. Ninguém está blindado por trás de um computador”, afirma o mestre Renato Torres.

Propagação do bem

Apesar dos malefícios das redes sociais, alguns atos nessa plataforma vêm aumentando a conscientização sobre o suicídio. Aplicativos, como “Your Are Important”, providenciam um conforto para pessoas que pretendem atentar contra à própria vida com apenas uma ideia: você é importante. Essa plataforma, voltada, principalmente, para o público LGBT (Lésbicas, Gays, Bissexuais, Travestis, Transexuais e Transgêneros), faz parte de um projeto americano chamado “It Gets Better” (“Vai melhorar”, em tradução livre do inglês). Fundado pelo jornalista Dan Savage e seu marido, Terry Miller, o projeto tem a meta de prevenir o suicídio entre jovens vítimas de bullying homofóbico. Seu principal propósito é propagar a ideia de que a vida vai melhorar.

O progresso da conscientização sobre o suicídio não ocorre apenas em países desenvolvidos. O Brasil também está progredindo para a diminuição de seus casos. Apesar de estar entre os países com maior taxa de suicídio, o Brasil já tem diversos projetos voltados para a causa, como o Instituto Dimicuida. Essa instituição cearense tem o propósito de propagar a conscientização sobre os jogos perigosos na Internet, como a Baleia Azul. A fundação foi criada após o suicídio inesperado do filho do fundador, Demetrio Jereissati, devido ao jogo da asfixia.

Como ajudar?

“O que falta para a gente é um amigo em quem contar”, diz o psicólogo e responsável pelo PAP – Programa de de Apoio Psicopedagógico da Unifor, Wneivton Barbosa. “Escute mais e fale menos”, aconselha a vereadora Cláudia Gomes, que desenvolveu um projeto de lei para implementar medidas de prevenção na rede pública de ensino, em Fortaleza. Além disso, recomendar a pessoa para um psicólogo é um ato imprescindível. É importante ressaltar que as pessoas não querem morrer, e sim acabar com a dor.

“O que falta para a gente é um amigo em quem contar” (Wneivton Barbosa)

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