“Para mim, o cinema é uma arte social”

Por Luiza Ester

A globalização transforma cada vez mais o cotidiano. Não é diferente no panorama de cineastas, teóricos do cinema e apreciadores da sétima arte. Faz um tempo que as grandes salas de cinema estão deixando de ser um lugar exclusivo para se assistir a um bom filme. Mesmo assim, para o norte-americano Richard Peña, 64, considerado um dos mais renomados especialistas em cinema no mundo, a essência de se fazer filmes ainda está ligada à trocas discursivas e sociais.

O que se modifica são as descobertas. Para Peña, a “era cibernética” vem permitindo a visualização de produções cinematográficas em diversas plataformas, feitas por profissionais que são referências ou até por desconhecidos no ramo. Longe do tumulto das bilheterias, hoje é possível ver um filme em qualquer lugar, seja no aconchego do edredom ou no tempo livre do trabalho. Basta um click.

O professor de cinema Richard Peña. Foto: Ares Soares/Unifor

Peña, que é professor da Escola de Artes da Universidade de Colúmbia, localizada em Nova Iorque, costuma debater o panorama do cinema mundial. Formado na Universidade de Harvard, mestre em Cinema pela Massachusetts Institute of Technology, atua na área de teoria cinematográfica e cinema internacional. Ele já foi diretor de programação da Film Society Lincoln Center e diretor do Festival de Cinema de Nova York, no período de 1988 a 2012.

Com exclusividade ao JornalismoNIC, após a palestra “Um Olhar para os Curtas-Metragens realizada na Universidade de Fortaleza no dia 1º de setembro, Peña concedeu a entrevista a seguir. Ele fala sobre as mudanças e permanências do cinema e a essência de se fazer filmes:

Com o advento da tecnologia, o modo de ver e fazer diversos projetos, sejam eles cinematográficos ou não, mudou. Como você vê o cenário do cinema mundial na contemporaneidade?

Talvez o maior desenvolvimento dos últimos 20 anos é a chegada de toda tecnologia digital. Realmente, aumentou a produção em quase todos os países do mundo. Isso é, de certa forma, uma coisa muito boa, porque mais pessoas têm a possibilidade de fazer filmes. Isso permite que vozes novas e pontos de vista novos sejam representados no Cinema. Um mal é que, com tantos filmes que nós vamos descobrir aquelas vozes e pontos de vista, é realmente difícil ter uma ideia de toda produção. Um país como o Brasil está fazendo 140 filmes por ano. Se eu vejo 30 [filmes], em um ano, é muito. O resto é impossível, não tenho oportunidade. Então, a situação hoje é que temos um excesso de produção, mas, também, a chegada de mais e mais vozes.

Esse excesso de produção pode ser visto nos filmes “blockbusters”, termo usado para denominar obras de grande sucesso, com grande orçamento, divulgação e apelo comercial. Você acha que essas produções atrapalham a essência de fazer cinema?

O negócio é que as pessoas vão continuar fazendo filmes, porque é mais fácil do que nunca. Qualquer pessoa pode fazer um longa-metragem. Talvez não seja bom, mas pode fazer. Não é tão difícil agora como era no passado. Então, isso não atrapalha. As pessoas vão fazer. A questão é como eles vão fazer para que as pessoas possam ver aquele filme e quais são as plataformas. Acho que isso é a grande questão que nós temos agora. Vamos continuar com o modelo de distribuir filmes em teatros? Isso é muito limitado. Quantas telas existem? Poucas. Então, isso limita muito os filmes. Agora, vamos passar para a Internet, para a televisão.

Existem técnicas utilizadas no cinema, que são ferramentas para auxiliar a transmissão de alguma mensagem ao público. Como um filme pode mudar as visões de mundo e a realidade de indivíduos?

Pode mudar para pessoas individuais. Tem poucos filmes na história do mundo que realmente mudaram a opinião de toda uma sociedade. Mas, tem filmes, até na minha vida, que eu vi que realmente me afetou. De uma maneira que eu comecei a ver coisas de outro jeito. Então, acho que o efeito é um nível mais pessoal, mais individual.

O papel do Cinema, como técnica e como arte, é gerar uma discussão?

De alguma forma, sim. Eu acho que, se nós retomarmos a história em 1895, mais ou menos o nascimento do cinema, nós temos o cinetoscópio de Thomas Edison e o cinematógrafo dos Irmãos Lumière. Por que damos tanta atenção ao cinematógrafo? Porque ele projetava filmes para grupos. [Já] o cinetoscópio era uma máquina para uma pessoa só, para ver filmes apenas uma vez. Essa para mim é a diferença. O cinema nasceu como uma arte social. Uma arte que você experiencia em grupos. Essa reação em massa era o verdadeiro adendo do cinema. Agora, se pode dizer que, após 120 anos, o cinema está voltando a Edison, com todos usando ipads, vendo filmes em casa. Talvez, estamos voltando para o cinema individual. Mas, para mim, o cinema é uma arte muito social.

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