Padrões de beleza podem estimular preconceitos contra o corpo

Por Clara Menezes

O body-shaming é um termo americano utilizado para denominar críticas e depreciações ao corpo de alguém. Essa situação ocorre, principalmente, motivada pelos padrões de beleza impostos pela sociedade. No entanto, o critério do belo é mutável historicamente. Enquanto nos anos 50, o considerado “bonito” era ter uma composição corporal mais curvilínea, hoje o ideal é o do corpo musculoso, malhado. Para a psicóloga, Vanuza Ferraz, padrões são criados nos diversos períodos da cultura de cada povo, buscando uma perfeição uniforme na  criatura humana, o que não existe. Este fenômeno da busca do corpo ideal se intensificou após a massificação dos meios de comunicação e a indústria cultural global.

No Brasil, esse fenômeno tem se transformado na busca pela intervenção cirúrgica. Segundo uma pesquisa feita em 2016 pela Sociedade Internacional de Cirurgia Plástica Estética (Isasps, em inglês), foram realizadas no País 120 mil cirurgias a menos do que no ano anterior. Porém, esse número não desbancou o país do segundo lugar no ranking de países com maior quantidade de cirurgias plásticas por ano. Os 1,22 milhão de procedimentos realizados no terrítório brasileiro ainda evidenciam a necessidade de se encaixar em um ideal de beleza a qualquer custo.

Os  padrões de beleza impostos pela mídia, porém, trazem consequências preconceituosas. Um termo recente é a gordofobia, o preconceito contra pessoas gordas. “A minha vida toda eu escutei frases como: ‘seu rosto é tão lindo, por que não emagrece?’ e “se não emagrecer, nunca vai arranjar namorado’”, conta a estudante de Design de Moda, Stephanie Reis, 19. Para ela, todas as pessoas sofrem com body-shaming em algum momento da vida.

A minha vida toda eu escutei frases como: ‘seu rosto é tão lindo, por que não emagrece?’ e “se não emagrecer, nunca vai arranjar namorado’” (Stephanie Reis)

Indústria da moda

“Há Uma Beleza Nada Convencional” é o nome da, pesquisa realizada pela Edelman Intelligence e idealizada pela Dove, em 2016, que entrevistou 4 mil mulheres, sendo 2.800 jovens, para entender sobre a relação das mulheres com o corpo. Nos resultados, 83% das mulheres se sentem pressionadas para atingir o corpo perfeito e 63% acreditam que a aparência importa para ser bem sucedida. “A indústria cria modelos e estereótipos que acabam influenciando a massa a buscar sucesso e o padrão de belo.  Como se essas propostas fossem garantias de expressão social e felicidade”, afirma a psicóloga Vanuza Ferraz.

A magreza excessiva está cada vez mais sendo combatida pela sociedade. Foto: Reprodução.

Essa situação, no entanto, é influenciada, principalmente pela indústria da moda, que gera um ideal de beleza a ser seguido e idolatrado. Modelos extremamente magras, algumas até abaixo do Índice de Massa Corporal (IMC), propagam um ideal de beleza utópico. As consequências disso podem ser evidenciadas nos transtornos alimentares, os quais a busca por um corpo perfeito (de preferência, magro) é o principal objetivo. Em outra pesquisa feita pela Dove em 2014, intitulada “A Verdade Sobre A Beleza”, apenas 4% das 6.400 mulheres entrevistadas se consideravam bonitas. Apesar disso, 72% delas se consideram satisfeitas com a própria aparência, apesar de não se sentirem “belas”.

Na contramão

A indústria da moda e da beleza, apesar de ainda estereotipar o corpo perfeito, vem fazendo mudanças gradativas para a aceitação das diferenças entre as pessoas, em geral. A França, no dia 5 de maio de 2017, proibiu modelos extremamente magras de andarem nas passarelas. As profissionais precisam mostrar um certificado médico provando sua saúde. Se não for respeitado essa lei, os empregadores precisarão pagar até 75 mil euros (cerca de 250 mil reais).

A coleção “FAT AND FAB” estimula o amor ao próprio corpo. Foto: Arquivo Pessoal.

Pensando na representatividade gorda, a estudante de Design de Moda, Stephanie Reis, criou uma coleção chamada “FAT AND FAB” (gorda e fabulosa, se traduzido para o português). “Eu criei a coleção pensando em expressão e, como na moda plus size brasileira é muito difícil você encontrar roupas jovens, coloridas e divertidas, que mostram o corpo [resolvi propor uma coleção com esse conceito]”, conta a estudante sobre suas roupas inspiradas, também, na obra do artista cearense, Leonilson. Para ela, a moda plus size ainda não traz conforto para quem usa.

 

Amor ao corpo

“Cada mulher deve olhar para si e perceber sua beleza natural. O importante é buscar se sentir cada vez melhor consigo mesma, evitando se engessar em padrões que não condizem com sua forma de ver a vida e o mundo”, aconselha a psicóloga. Para a estudante Stephanie, se amar e ajudar os outros a se amarem é extremamente importante para amenizar as consequências da imposição de um padrão. “O caminho não é fácil, mas eu falo por experiência própria: a aceitação vale muito a pena”, conta ela.

“Cada mulher deve olhar para si e perceber sua beleza natural. O importante é buscar se sentir cada vez melhor consigo mesma, evitando se engessar em padrões que não condizem com sua forma de ver a vida e o mundo” (Vanuza Ferraz)

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

css.php