A autenticidade na vida de Zaedes Santos

Por Lígia Grillo

“Por quê que a minha felicidade tem que depender de outra pessoa?”, indaga. Com jeito descontraído, ela relembra dos caminhos traçados em sua vida e é o exemplo de que ser autêntica é ser a melhor versão de você mesmo. A saudade dos avós, as dificuldades enfrentadas na infância, o amor por animais e as escolhas feitas em sua vida fazem da técnica do Laboratório Fotográfico, Zaedes Santos (46), uma inspiração sobre o que é ser feliz sem depender muito dos outros.

 

“Por que que a minha felicidade tem que depender de outra pessoa?” (Zaedes Santos)

 

Nascida em 17 de Maio de 1971, em Fortaleza, Ceará, Zaedes Santos conta que desde cedo ajudou sua mãe com o cuidado de seu irmão mais novo, Ricardo, durante a infância. Quando era pequena, relembra que sempre foi tímida e que gostava de ficar em casa.  “Eu não era de brincar muito na rua, não gostava muito não, sempre fui assim meio quietinha, meio na minha”. Apesar disso, lembra com carinho das brincadeiras que fazia com seu irmão. “Às vezes, brincava na rua de macaca, que o povo chama de amarelinha, mas que na minha época se chamava macaca. Brincava de corda e de elástico. Foi um tempo bom.”

Começou a estudar aos sete anos, entrando no primeiro ano da educação infantil, em um colégio de irmãs. Quando se formou na escola, entrou para a Universidade de Fortaleza (Unifor), onde cursou Letras. Zaedes conta que nunca pensou em atuar como professora, ela diz que não nasceu com esse dom. No passado, sonhava em fazer o curso de medicina veterinária, e até tentou o vestibular. Na época só tinha na Universidade Estadual do Ceará (UECE). Durante as duas tentativas ficou entre os classificáveis, mas logo depois surgiu a necessidade de começar a trabalhar para ajudar em casa e desistiu desse sonho. Hoje conta que esse talvez seja um dos únicos arrependimentos de sua vida. “Me arrependo entre aspas, porque eu não sei se eu ia ter, como o povo fala, sangue no olho para ver um animal sofrendo e morrendo. É bem delicado isso para mim”.

 

Fotografia

Zaedes Santos no laboratório fotográfico da Unifor.
Foto: Foto Nic.

Zaedes conta que seu primeiro contato profissional com a fotografia foi inesperado. “Eu comecei a trabalhar com fotografia, mas nem imaginava que iria trabalhar com isso”. Quando resolveu trabalhar, deixou seu currículo em várias lojas do centro da cidade. Foi contratada pela Esdras, Sonora e depois pela a Superfilme, todas lojas de fotografia. Aos poucos, a sua paixão foi crescendo. Ela trabalha na Universidade de Fortaleza (Unifor) como técnica de laboratório fotográfico há 17 anos e afirma que é uma grande oportunidade de poder ter contato com a fotografia analógica. “Na Unifor ainda dá para a gente ter essa oportunidade de ver a magia da foto analógica, de conhecer toda a história. Então, não tem como você não se apaixonar por fotografia”.

A laboratorista conta que sua relação com os alunos sempre foi muito boa. “A gente é meio que confidente deles. Eu acho legal eles confiarem, chegarem pra gente e contar alguma coisa sobre a vida deles ou simplesmente vir aqui [laboratório fotográfico] e jogar conversa fora, só rir, é legal passar por aí e ouvir alguém gritando ‘Zaedes!’”. Conta também que sua relação com seus colegas de trabalho é de amizade e de profissionalismo. “Eu costumo dizer que o laboratório de fotografia é a sala mais doce da Unifor. Porque a gente sempre está atraindo as pessoas pra cá, é legal o laço que a gente cria com os alunos e funcionários”.

Técnicos do laboratório fotográfico da Unifor.
Foto: Reprodução.

Sérgio Luís Chagas, 57, técnico de laboratório fotográfico e colega de trabalho de Zaedes conta que os dois executam seu trabalho com muita dedicação. “Ela é uma pessoa maravilhosa. Quando eu entrei, ela era muito difícil de ter um relacionamento, mas a gente foi se afinando com o tempo e hoje, graças à Deus, ela é minha excelente amiga”.

Zaedes relembra de uma vez, logo quando começou a trabalhar na Unifor, que os alunos fizeram uma surpresa de aniversário para ela. “Eu tava aqui dentro do laboratório e eu ouvindo um apitaço, uma loucura e eu pensei: meu Deus que loucura é essa? Aí eles abriram a porta de uma vez e vieram fazer uma surpresa pra mim, um monte de apito e um monte de balão, muito legal”. Recentemente, também em seu aniversário, os alunos arrecadaram uma quantia de dinheiro para Zaedes usar para comprar ração para os gatos da universidade.

 

“Eu costumo dizer que o laboratório de fotografia é a sala mais doce da Unifor.”  (Zaedes Santos)

 

Paixões

Ela é conhecida na Unifor por ajudar os gatos que vivem na universidade, dando água e comida. “Não é só paixão não, é um amor incondicional, grande, eles são carinhosos. O amor que eles passam pra gente é verdadeiro, isso é muito gratificante”, conta. Zaedes  gostaria de ter mais animais em casa, mas, por conta da falta de espaço e do dinheiro, ela infelizmente não pode realizar esse desejo. “Em casa eu tenho 4 gatos e uma cachorrinha que fez 15 anos. Lá em casa todo mundo gosta. A gente sempre criou [animais], desde criança que a gente cuida com amor”.

Além do amor por animais e pela fotografia, Zaedes também adora música e seu gênero preferido é o rock. “Gostaria muito de ter voz para cantar, mas se eu fosse cantar seria para louvar a Deus, é muito bom, fico emocionada”. Ela gosta de ir ao cinema, apesar de o fazer com pouca frequência, e de cozinhar. Além do trabalho como técnica de laboratório fotográfico, Zaedes também produz bolos para vender na universidade, com o intuito de ajudar com as despesas de casa e arcar com os gastos derivados das rações distribuídas para os gatos abandonados.

 

Lembranças da família

Zaedes relembra das tardes quando criança, de quando saía do colégio e chegava em casa para assistir seus programas de TV preferidos. “Eu vinha do colégio, correndo com meu irmão. A gente chegava, tirava o tênis e deitava na cama para assistir o Sítio do Picapau Amarelo”. Ela relembra com carinho do grande quintal da casa da sua avó Rosa, que tinha uma goiabeira que acabava fazendo parte das brincadeiras. Sua família sempre foi muito unida. Ela compartilha de algumas brincadeiras que fazia com seus irmãos, como brincar de guizado no quintal e fazer comida em panelinhas. “Os meus quatro avós foram maravilhosos. Eu tenho muita saudade deles e do cuscuz da vovó Rosa, que ela fazia toda noite. Ela foi quem ensinou a gente a rezar todos os dias”, acrescenta.

Zaedes Santos e seus irmãos.
Foto: Arquivo Pessoal.

 

Zaedes não é casada, não tem filhos e é a irmã do meio da família. “A melhor família é a minha, com certeza”, afirma em tom de brincadeira. Seus dois irmãos são casados e têm filhos. Ela mora com seus pais e afirma que a convivência com eles é muito divertida. Nunca brigou com seus irmãos e que a relação com eles sempre foi de amizade.

“Eu não pretendo ser mãe, tem gente que acha meio estranho, mas eu não vejo nada de absurdo nisso”, afirma Zaedes. Ela diz que a sua família não a julga por essa escolha, mas que existem pessoas que afirmam que uma mulher só é feliz quando ela se torna mãe. “Isso não tem nada a ver, porque que a minha felicidade tem que depender de outra pessoa? Eu nunca tive essa grande pretensão de ser mãe e agora com 46 anos é que eu não tenho mesmo”.

 

“Eu não pretendo ser mãe, tem gente que acha assim meio estranho mas eu não vejo nada de absurdo nisso” (Zaedes Santos)

 

Dificuldades

Durante a infância de Zaedes, sua família passou por algumas dificuldades. Eles moravam em uma casa feita de taipa (sistema de construção que usa barro e madeiras para construir as paredes). Nos dias e noites em que a chuva era muito forte as paredes caíam, pois não sustentavam o peso do material molhado. Felizmente, nenhum acidente aconteceu durante aqueles anos. “A parede caía e a gente passava o resto da noite sem dormir. No outro dia se tivesse sol, a gente levantava a parede. A vovó ajudava muito”.  Apesar dos desafios enfrentados, a família continuou unida e hoje os problemas transformaram Zaedes em uma pessoa forte. “Eu não lembro disso com tristeza, é uma superação. Nem eu e nem os meus irmãos, a gente nunca reclamou que a casa não era legal, que a gente corria risco, então foi uma parte difícil mas a gente lembra como superação”.

 

Um futuro de perspectivas

“Eu quero só ser feliz e sou feliz”, afirma Zaedes. Ela conta, em tom de brincadeira, que quer se aposentar rica, mas que não tem muitas pretensões. “Eu adoro viajar. Eu queria conhecer a Escócia, é por isso que eu preciso ser rica (risos)”. Zaedes conta que além da Escócia, quer conhecer o Brasil inteiro. “Tem muita coisa bonita aqui, acho que com toda a violência, toda a loucura e toda a roubalheira que a gente vive, ainda é o melhor lugar para se viver”. Não importa o destino da viagem, Zaedes Santos vai continuar espalhando alegria e mostrando que ser autêntico é ser a melhor versão de você mesmo.

 

“Tem muita coisa bonita aqui, acho que com toda a violência, toda a loucura e toda a roubalheira que a gente vive, ainda é o melhor lugar para se viver”.  (Zaedes Santos)

 

Um comentário em “A autenticidade na vida de Zaedes Santos

  • 10 de setembro de 2017 em 00:15
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    Que linda matéria! A Zaedes é uma pessoa incrível. Amiga que quero levar pro resto da vida.

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