Seminário debate o enfrentamento à violência sexual

Por Ana Luiza Souza

“Quando eu cheguei [na Perícia Forense do Estado do Ceará], eu encontrei uma mulher com o olho roxo. Eu estava de vestido nesse dia e me sentei na cadeira da recepção. Uma cadeira de metal. Na hora que eu sentei, aquele frio veio nas minhas pernas e eu imaginei. Me transpus violentada, doída, rasgada, mutilada sentada naquilo ali. Você já entra com outro olhar, com outro sentimento. É impossível você se deparar com uma imagem dessas e não sair mexido. E, ao mesmo tempo, impotente. É mais ou menos assim como eu me sinto”, relatou a professora Luiza Jane Eyre de Souza Vieira, no Seminário “Violência e Perícia Forense – Saberes e Práticas Interdisciplinares”. O evento começou hoje (31) e continuará amanhã (01), no auditório do Bloco H, na Universidade de Fortaleza (Unifor).

Organizado pelo Programa de Pós-Graduação em Saúde Coletiva da Unifor, o seminário aborda a necessidade do enfrentamento à violência sexual contra a mulher no campo da Perícia Forense do Estado Ceará (PEFOCE). Segundo uma das organizadoras, a professora Raimunda Magalhães da Silva, o evento busca debater sobre como melhorar o atendimento às vítimas na PEFOCE, antigo Instituto Médico Legal, e ampliar as ações sociais e pesquisas em relação à violência sexual no Estado.

O seminário, que busca também demonstrar a interdisciplinares do tema, teve início com a apresentação dos palestrantes das áreas de Medicina, Enfermagem e Assistência Social. Mirna Albuquerque Frota, coordenadora do Programa Pós-Graduação em Saúde Coletiva da Unifor, destacou, em sua fala de abertura, a importância da participação dos profissionais da área da saúde para o enfrentamento da violência sexual e suas consequências. “Mesmo diante de um retrato difícil da violência doméstica, nós temos aqui um momento de alegria. A partir do momento que temos pesquisadores renomados, sensíveis e desenvolvendo pesquisa de grande porte, como esse projeto, que visa a mudança dessa realidade”.

Pesquisa sobre o atendimento

A mesa-redonda “Análise da atenção às mulheres em situação de violência sexual no âmbito da Perícia Forense do Estado do Ceará” começou com a contextualização sobre o tema, realizado pela professora Ludmila Fontenele Cavalcanti, da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Ela explicou que a violência sexual contra as mulheres no Brasil começou ainda em 1500, quando as índias brasileiras foram abusadas sexualmente pelos navegantes portugueses recém chegados. Atualmente, a violência se perpetua “em consequência da naturalização dos atos machistas, sexistas e misóginos, que acabam culpabilizando as vítimas”, acredita Ludmila.

A professora da UFRJ destacou ainda o papel da Perícia Forense para o enfrentamento da violência sexual contra a mulher. “É função da PEFOCE fazer perícia da violência sexual para elaborar laudos e fornecer provas contra o agressor. A cada dez minutos, uma mulher é estuprada no Brasil. Por isso é fundamental que estudemos o tema em parceria com grandes instituições de ensino superior, como a Unifor e a UFRJ, e uma Instituições Federal, como a PEFOCE”.

“A cada dez minuto,s uma mulher é estrupada no Brasil. Por isso é fundamental que estudemos o tema em parceria com grandes instituições de ensino superior, como a Unifor e a UFRJ e uma Instituições Federal, como a PEFOCE ” (Ludmila Fontenele)

Confira um trecho da fala da professora Ludmila Fontenele Cavalcanti sobre a trajetória do enfrentamento à violência contra a mulher no Brasil:

 

Já a segunda palestrante da manhã, Luiza Jane Eyre de Souza Vieira, professora da Pós-Graduação da Unifor, apresentou os dados da pesquisa, ainda em andamento, sobre o atendimento às mulheres na Perícia Forense da Capital. Segundo ela, a pesquisa é uma parceria entre a Unifor, UFRJ, Universidade Federal do Ceará e a Perícia Forense do Estado do Ceará. A professora contou que o estudo surgiu a partir das dúvidas de uma das estudantes do Programa de Pós-Graduação em Saúde Coletiva, que já atuava na PEFOCE, sobre como atender vítimas de violência sexual.

Para a professora Luiza, os Institutos Médicos Legais, que deveriam assumir o papel de identificar e responsabilizar os agressores, estão sendo espaços de revitimização da mulher. “É um contingente [da Perícia Forense] masculino, machista, que produz e reproduz violências no discurso e na ação. No olhar, no deboche, no sacudir do ombro”, conta. As mulheres procuram ajuda legal, mas acabam sendo tratadas de forma violenta pelos profissionais que são responsáveis pela perícia. Daí a importância da pesquisa, que busca analisar o atendimento às vítimas na PEFOCE com o objetivo de “melhorar as respostas dos serviços especializados, para fortalecer cada vez mais a atenção às mulheres em situação de violência sexual”, relata a professora.

“É um contingente [da Perícia Forense] masculino, machista, que produz e reproduz violências no discurso e na ação. No olhar, no deboche, no sacudir do ombro” (Luiza Jane Eyre)

Programação – 1º de setembro de 2017
  • 08:30 – Mesa-redonda: “Histórias, desafios e expansão da Perícia Forense no Estado do Ceará”
  • Moderadora: Profa. Dra. Luiza Jane Eyre de Souza Vieira (Unifor)
  • Palestrantes: Prof. Dr. Renato Evando Moreira Filho (UFC e Pefoce)
  • Marcelo Borges Cavalcante (Pefoce)
  • Renata Adele de Lima Nunes (Prefeitura Municipal de Russas e Pefoce-núcleo Russas)
  • 10:30 – Lançamento do aplicativo EVISU – Informações sobre o enfrentamento à violência sexual contra a mulher (UFRJ e Unifor)
  • 11:00 – Lançamento do livro “Corpus Delicti – Medicina Legal no Ceará” do Prof. Dr. Renato Evando Moreira Filho
  • 11:30 – Encerramento

Programação disponível no site da Unifor.

Um comentário em “Seminário debate o enfrentamento à violência sexual

  • 18 de setembro de 2017 em 13:25
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    ÓTIMO o artigo, muito bom! Sanou todas as minhas dúvidas, muito obrigada pelas dicas!

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