Você usa black-tie?

Por Luiza Ester

Traje de festa luxuoso, o black-tie corresponde a roupas especialmente elegantes e formais. Usar esse tipo de peça não é para “qualquer um”. Apenas pessoas das classes dominantes têm poder aquisitivo e status social para vestir-se de tal modo. Em contrapartida, o filme “Eles não usam black-tie”, de Leon Hirszman e Gianfrancesco Guarnieri, retrata a vida e os ideais de quem oferece a força de trabalho para os ricos patrões ostentarem com tecidos sofisticados.

Poderoso. Lançado em 1981, “Eles não usam black-tie” consegue captar a realidade dos trabalhadores, dos sindicatos, das fábricas, das donas de casa e de um Brasil que experimentava uma distensão política com o último governo militar. O longa é baseado na peça homônima de Guarnieri, de 1958, e na música “Nóis não usa as bleque tais”, de Adoniran Barbosa. Com direção de Leon Hirszman e fotografia de Lauro Escorel, o filme ganhou diversos prêmios, dentre eles o “Leão de Ouro” do Festival Internacional do Cinema de Veneza e o Prêmio Especial do Júri do Festival de Cannes.

Desde 2015, a Associação Brasileira de Críticos de Cinema (Abraccine) aclamou o drama sócio-político como um dos 100 melhores filmes brasileiros de todos os tempos. E não há dúvidas. Com um roteiro aparentemente simples, a obra consegue transgredir a existência dos morros, a fortaleza dos trabalhadores industriais, a movimentação das greves dos sindicatos e a resistência contra a exploração. Assim, não usar black-tie significa lutar por direitos e ser a favor de uma vida digna.

Reflexão
Romana e Otávio, interpretados por Fernanda Montenegro e Gianfrancesco Guarnieri. Foto: janeladecinema

Os versos de Adoniran “O nosso amor é mais gostoso, nossa saudade dura mais, o nosso abraço mais apertado… Nóis não usa as bleque tais” retrata exatamente a essência de uma vida simples e sem regalias, em que gestos são mais importantes que os bens materiais. É assim que o operário Otávio (Gianfrancesco Guarnieri) e a dona de casa Romana (Fernanda Montenegro) vivem. Contudo, as ideologias da família são colocadas em jogo quando o filho Tião (Carlos Alberto Riccelli) resolve furar a greve dos empregados – liderada por seu pai – da fábrica.

No primeiro momento, o filme parece ser um romance, mas o público, progressivamente, é ambientado aos conflitos que o circundam. Envolvido com a gravidez de sua namorada Maria (Bete Mendes), Tião deixa transparecer sua negligência à luta dos operários. Isso evidencia o caráter egoísta do jovem diante do ideal progressista e revolucionário do seu pai, dos trabalhadores e, até mesmo, da futura esposa.

Demissões, mortes e agressões (físicas e psicológicas) tomam conta do enredo simultaneamente a risos e afetos.  O roteiro se torna brilhante quando todos esses conflitos fazem sentido e impactam. Forte é um adjetivo que pode facilmente traduzir a essência do filme. O espectador se vê em uma obra prima do cinema brasileiro. Não é à toa que “Eles não usam black-tie” é considerado um clássico. Assistí-lo deveria ser obrigatório.

 

FICHA TÉCNICA:

Direção: Leon Hirszman

Roteiro: Gianfrancesco Guarnieri e Leon Hirszman

Ano de produção: 1981

Duração: 134 min

Gênero: Drama

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