Cresce investimento em moda sustentável no Brasil

Por Letícia Feitosa e Luiza Ester

A produção frequente e rápida de peças de pouco custo, conhecido como fast fashion, é uma tendência das grandes marcas desde os anos 1990. Esse modo de confecção levou a indústria da moda a ocupar o segundo lugar no ranking dos mais poluentes do mundo, segundo a BBC. Diante disso, a preocupação com novos hábitos para conscientizar e harmonizar a vida no planeta tem gerado transformações em atitudes e ideais de cada pessoa. Um desses costumes é a moda sustentável ou “eco fashion”, um nicho do mundo da moda que empresários têm aplicado, cada vez mais, confiança e capital.

De acordo com o Instituto Akatu, organização não governamental que trabalha, sem fins lucrativos, pela conscientização e mobilização da sociedade para o consumo consciente, a moda sustentável é voltada para 5% da população brasileira. Ou seja, para quase 10 milhões de pessoas que se preocupam em realizar um consumo menos prejudicial ao meio ambiente. Esse mercado no Brasil, conforme o Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas (Sebrae), é explorado por alguns estilistas renomados, por pequenas empresas e novos nomes que percebem uma oportunidade nesse nicho, apesar de encontrarem algumas dificuldades.

Um obstáculo para quem se interessa em investir no ramo sustentável é o de se adequar a uma nova lógica de produção. “Pesquisa, consultoria e adequação nas produções requerem investimento e isso pode, inicialmente, impactar o financeiro da empresa”, afirma a fundadora do Instituto Ecotece, Ana Cândida Zanesco, ao Sebrae. Outro empecilho é o preço das peças, que custam 30% a mais que as tradicionais. Por causa da confecção artesanal e em menor escala, as roupas sustentáveis podem encarecer quando comparadas às peças feitas em empresas de “fast fashion”.

Brechós

Com o aumento do investimento empresarial em moda sustentável e a busca de preços baixos por consumidores, os brechós, lojas de artigos usados, ganham cada vez mais adeptos. Ainda de acordo com o Sebrae, o número de lojas que vendem produtos de segunda mão cresceu 23% de 2013 a 2015.

Houve um aumento do número de lojas que vendem produtos de segunda mão. Foto: Sebrae

Orleanne Barreto, fundadora do brechó Retroagir, não imaginava o quanto seu empreendimento iria crescer. Após o retorno dos consumidores, Orleanne investiu no ramo e estudou os propósitos e o bem que a loja de artigos usados poderia fornecer para ela, seus clientes e, de certa forma, para o mundo. “Foi por uma necessidade [financeira]. Sem perceber, por ser um brechó, ele já estava engajado no ser sustentável e mais econômico. Então, apenas busquei aprofundar mais no assunto e começar a ter esse pensamento que muito importa”, conta.

Orleanne acredita que as pessoas estão cada vez mais conscientes em saber qual a origem dos produtos comprados e torce para que a atitude não seja transitória. “Mais informações sobre o assunto estão sendo visados. Fico muito feliz com essa nova preocupação dos consumidores e torço para não ser mais uma modinha, e sim um movimento”, opina.

Sustentabilidade

Para falar de sustentabilidade no mundo da moda é preciso refletir acerca dessa mudança comportamental. Segundo Renata Santiago, designer de moda e professora da Universidade de Fortaleza (Unifor), isso está conciliado à cultura e o local onde cada um está inserido. “A moda tem essa capacidade de penetrar no âmbito cultural e embutir novos valores como a gente se comporta com as pessoas, com as coisas e com os objetos. Sustentabilidade nada mais é que a gente cuidar das coisas”, afirma.

“A moda tem essa capacidade de penetrar no âmbito cultural e embutir novos valores como a gente se comporta com as pessoas, com as coisas e com os objetos. Sustentabilidade nada mais é que a gente cuidar das coisas” (Renata Santiago)

Pensar nesse contexto é analisar o ambiente, a economia e a sociedade. Quando se fala em moda sustentável, se trata do uso de métodos e processos menos poluentes, com o intuito de diminuir o impacto ambiental. “Produção de roupa é desde a fibra do tecido até como esse consumidor vai consumir, como ele vai ter acesso ao produto já pronto”, esclarece a professora Renata. Assim, nesse estilo são fabricadas peças com fibras orgânicas, tecidos eco-friendly (linho, bambu, algodão orgânico), corantes naturais, tecidos descartáveis e com o uso do upcycling (construção de peças com materiais que já existem).

Ética

Quando a gente fala de moda ética, que é outro conceito pregado pelo uso da sustentabilidade na moda, a gente leva em consideração os direitos humanos e dos animais”, diz Renata. Nessa perspectiva, são fabricados produtos cruelty free, em que a proposta busca, além de explorar como é feita a fibra dos produtos, realizar um comércio justo.

Cruelty free significa “livre de crueldade”. A moda ética se baseia em empregar mulheres e grupos étnicos, produzir em pequena escala e sem componentes de origem animal, valorizar a tradição histórica do povo e a cultura local de onde as roupas estão sendo produzidas, além de não realizar testes em animais. Esse conceito abrange a remuneração justa para todos, ou seja, quem produzirá as peças, quem lida com os fornecedores e, também, os consumidores por meio de um preço justo.

Moda consciente
Foto: reprodução.

De acordo com Renata, moda consciente é a integração dessa percepção social com a fabricação de roupas que podem ser para a vida inteira. Quem consome de maneira consciente tende a obter produtos da slow fashion, “em que a gente produz menos roupas, mas peças com melhores condições ambientais, sociais, com transparência em toda a cadeia produtiva”, diz Santiago.

A sustentabilidade da moda é construída tendo como base as modas ética e consciente. Para a professora, a moda sustentável abrange uma percepção ética, de consciência do ambiente e da economia. “No final das contas, tudo é e se resume a se preocupar com o que vem depois e a frear um pouco esse consumismo exacerbado e essa produção desenfreada que tanto nos prejudica”, explica.

No final das contas, tudo é e se resume a se preocupar com o que vem depois e a frear um pouco esse consumismo exacerbado e essa produção desenfreada que tanto nos prejudica” (Renata Santiago)

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