II Sarau da Juventude busca revitalizar vidas e praças

Por Luiza Ester

Com a crescente violência e o avanço das tecnologias, certos costumes foram deixados de lado. Observar pessoas sentadas nas calçadas, como também usufruindo das praças, se tornou algo incomum ou até surpreendente. Assim, a Associação Amacauassu, do Eusébio, realiza o II Sarau da Juventude, entre os dias 21 a 23 de julho. O evento faz parte do projeto Arte na Praça e busca permitir o diálogo entre o espaço público e a população, por meio de linguagens artísticas.

Nesta edição, o tema do Sarau da Juventude é “Queremos ser ouvidos, por nossa arte, por nossa vida”. Natanael Gomes, 18, coordenador do projeto Arte na Praça, acredita que existe bastante discussão em torno do mundo e que é preciso instigar a atual geração e as gerações “mais maduras” a explorá-lo. Para ele, o Sarau da Juventude é um movimento da comunidade e, como todo diálogo, pessoas precisam ser ouvidas.

Este ano, o evento da juventude irá abranger a sede da Associação Amacauassu e as Praças do Posto de Saúde e da Igreja Nossa Senhora de Fátima, ambas no bairro Cauassu, localizado no Eusébio. De acordo com Natanael, o objetivo é ampliar horizontes do projeto e tocar novos públicos.

A comunidade, e quem mais quiser participar, poderá ter acesso às oficinas artísticas, mostra de curtas, atrações musicais, feirinhas de artesanato, barracas de comida, intervenções coletivas e até aulas de zumba. Além disso, será inaugurada a Biblioteca Raimundo Pessoa e realizada uma roda-debate sobre “criminalização da arte”.

Memórias
​​Uma das intervenções do projeto, ainda no I Sarau da Juventude. Foto: Arquivo Pessoal

O I Sarau da Juventude rendeu muitos frutos. Perdido nas recordações, Natanael Gomes conta que, quando as pessoas têm oportunidade, compartilham as expressões do sensível e do que é interno. Para ele, esse diálogo, aberto pela arte, é uma ferramenta de audição e de transformação de um povo. Uma de suas memórias mais fortes é a do dia 20 de novembro, o Dia da Consciência Negra. Natanael conta que um menino havia afirmado que a polícia achava pessoas negras ruins, seguido de um “não é verdade”.

Segundo Natanael, a população, ao falar e usufruir da arte, fez a praça movimentar-se novamente. Ao receber tal evento, o espaço público falava por si só. “Recordo-me de ver a Dona Zélia, pela primeira vez, pintando um painel junto a 20 pessoas durante uma das noites do último sarau. Lembro-me de ver um pé pintado com o nome ‘Neuma’, escrito no painel. De ver crianças e pais se misturando para dar cor ao papel”, relata o coordenador.

Arte na Praça

Estimular a ocupação dos espaços públicos compreende uma maior interação entre pessoas. O projeto Arte na Praça tem o objetivo de ser um “gerador de sociabilidade”. De acordo com Natanael Gomes, a juventude contempla os diversos e distintos interesses da sociedade, traduzidos pela sua relação de antecipação do futuro. “É pra gente [jovens] que os olhares se voltam… Então, que nós possamos, também, falar sobre como nos sentimos em relação a esses olhares. O projeto dá as ‘armas’ pra que esse debate seja aberto. Essas armas, que poderiam muito bem ser chamadas de oportunidades, vêm da arte”, ensina Natanael.

“É pra gente [jovens] que os olhares se voltam… Então, que nós possamos, também, falar sobre como nos sentimos em relação a esses olhares. O projeto dá as ‘armas’ pra que esse debate seja aberto. Essas armas, que poderiam muito bem ser chamadas de oportunidades, vêm da arte” (Natanael Gomes)

“Quando eu pensei em fazer um projeto social que interliga a ocupação de espaços públicos, através da arte, com o trabalho com as juventudes, eu, por várias vezes, me senti impotente”, afirma o coordenador do “Arte na praça”. O projeto foi idealizado no início de 2016, quando, em um grupo de formação política da Associação Amacauassu, Natanael repensou sobre o esvaziamento das praças. Ele confessa ainda ter medo de seguir com a proposta, mas diz que “não há mais volta”. Para ele, tal afirmação é “a cara da juventude”.

A aflição de Natanael é constituída, também, pela origem da arte e a sua acessibilidade. O “Arte na praça” surgiu, definitivamente, mediante a ideia de gente, vista a partir de um comercial de televisão. Na propaganda, uma revista classificava as pessoas como uma composição de ‘moda, arte, luxo e decoração’. Eu pensei sobre essa ideia de gente, principalmente porque minha gente não tem o menor acesso a conteúdos como esse”, afirma o coordenador.

“Por que a arte tem que ser a dos grandes museus? Por que a arte tem uma forma, um suporte específico ou legitimado? Por que ela não pode ocupar as praças, por exemplo? Por que ela não chega às pessoas?”, questiona Natanael. Ele busca democratizar esse tema e afirma ir no caminho inverso à história da arte, pois o projeto é feito “pelos de baixo”. O sarau do “Arte na praça” constitui a categoria artística de “museu fictício”, mas Natanael não gosta de chamá-lo assim. Para ele, o projeto é “bem real” para que fique apenas no campo ficcional.

“Por que a arte tem que ser a dos grandes museus? Por que a arte tem uma forma, um suporte específico ou legitimado? Por que ela não pode ocupar as praças, por exemplo? Por que ela não chega às pessoas?” (Natanael Gomes)

Amacauassu
Associação Amacauassu. Foto: Reprodução/Amacauassu

Entidade sem fins lucrativos, a Associação dos Moradores e Amigos do Cauassu (AMACAUASSU) foi fundada em 13 de março de 1987. Nasceu com a perspectiva de “educação ao longo da vida” e, desde então, oferece diversos cursos, palestras e oficinas. A associação trabalha em áreas como saúde, educação, esporte, lazer, profissionalização, segurança, infra-estrutura e cultura, com o objetivo de assegurar o bem da comunidade do Cauassu, no município de Eusébio. Ela não tem vínculos governamentais, partidários ou religiosos.

 

Serviço

Data: 21/07 a 23/07

Hora: 21/07 – a partir de 18h

          22/07 – a partir de 8h

          23/07 – a partir de 8h

Local: bairro Cauassu, no Eusébio

Para as oficinas dos dias 22 e 23, as inscrições podem ser realizadas a partir do dia 14/07

Mais informações: Amacauassu Eusébio

Entrada gratuita

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