Publicidade se adapta ao online sem perder diálogo com offline

Por Luiza Ester

Blogs, portais, páginas em redes sociais e aplicativos. Muito se ouve sobre as novas tecnologias e mídias de interação. O mercado de trabalho da comunicação está, cada vez mais, atrelado ao mundo moderno. Contudo, o curso de Publicidade deve perceber o profissional não só como vetor da “era cibernética”, mas como profissional que conversa com diversas estratégias comunicativas, sejam elas conectadas ou não.

Quem faz Publicidade pode criar e manter boa imagem de produtos, pessoas e organizações, produzindo a comunicação de seus anunciantes. O curso de Comunicação Social com habilitação em Publicidade e Propaganda da Universidade de Fortaleza (Unifor) foi o pioneiro no Ceará, e em 2017 completa 20 anos. Por isso, a ampla experiência, com a formação dos publicitários e com o mercado de trabalho, torna a graduação reconhecida por capacitar pessoas nos mais variados segmentos do ramo.

A coordenadora Alessandra Oliveira. Foto: Thais Mesquita

Alessandra Oliveira, 34, é coordenadora do curso de Publicidade e Propaganda da Unifor. Formada em Comunicação Social – Jornalismo, mestre e doutoranda em Educação, atua, principalmente, nas áreas de comunicação, cultura urbana, cibercultura e educação. Ela também tem experiência na coordenação de projetos e na produção voltada às mídias sonoras e digitais.

Na entrevista a seguir, Alessandra fala sobre como o publicitário pode ser um agente de transformação, em qualquer veículo:

A evolução tecnológica está muito presente no nosso cotidiano. Como a Publicidade tem se adaptado e aproveitado as novas mídias?

São várias formas de uso das novas mídias na área da comunicação como um todo. Eu dou uma disciplina chamada Sociedade de Informação e Tecnologias, que discute exatamente as mudanças que a tecnologia acaba trazendo para as nossas formas de comunicação. A publicidade muda com as novas tecnologias em vários sentidos. Um sentido que é muito latente de mudanças no formato de produzir é que a publicidade era mais voltada para um número grande de pessoas. Mesmo os produtos que eram segmentados, que eram voltados para jovens, se comunicavam com todos os jovens. Hoje, a publicidade, através das mídias digitais, se comunica de pessoa a pessoa. Ela desenvolve um conteúdo para cada pessoa. Então, a gente vê essa participação mais ativa do público, que também influi nas marcas e acaba trazendo uma relação quase pessoal.

Outra questão, super recente, é que as marcas começam a sentir uma necessidade de se posicionar. Antes as marcas tinham que ficar um pouco fora de questões políticas. Hoje, as marcas se posicionam, porque as pessoas querem engajamento das marcas nas questões. Isso tem muita relação com as novas mídias, pois as pessoas não querem mais ser só receptoras, elas também querem ser produtoras de comunicação, também entendem a comunicação como algo dialógico, querem conversar com as marcas. Essa conversa precisa ser mais pessoal, precisa ser mais engajada, precisa ter uma relação mais interpessoal do que uma marca para um grande público.

Tem outras coisas também, têm transformações na forma como a gente consome, que isso influencia demais na publicidade. Hoje você não compra um produto caro sem antes olhar os sites, como, por exemplo, o ‘Reclame Aqui’. As redes sociais colocam os consumidores em diálogo, que é uma coisa que também é muito forte hoje, com as redes sociais, com as novas mídias, fazendo com que tenha uma necessidade também maior de resposta, de ter um produto que seja produzido de uma forma mais responsável. A marca fica mais perto, mais exposta, e precisa ficar o tempo inteiro se comunicando.

O curso da Universidade de Fortaleza oferece como diferenciais o Núcleo Integrado de Comunicação, os grupos de pesquisas e as monitorias. Como é feito o acompanhamento dos alunos quanto a sua preparação, uma vez que o mercado de trabalho está em constante mudança com o mundo?

O curso de publicidade acabou de passar por uma transformação. A partir de 2016, a gente começou a moldar um novo curso. Dentro desse novo curso nós fizemos algumas coisas para trabalhar com isso. A primeira coisa é que a gente incluiu disciplinas que não existiam como disciplinas, como a disciplina de Mídias Digitais. Mas a gente acredita que mais do que mostrar técnicas de como produzir textos para a internet, é importante entender esses processos em mudança. Então, é uma matriz que tem mais flexibilidade.

Nós diminuímos o número de disciplinas obrigatórias e aumentamos a quantidade de créditos de disciplinas optativas que os alunos precisam cursar. As disciplinas optativas são ofertadas de forma sazonal. O mercado necessita de um determinado conteúdo, a gente monta uma disciplina optativa para suprir essa demanda ou então para prever coisas que a gente poderia também contribuir para o mercado. A gente implementou, que não tinha na publicidade, as disciplinas de estágio.

O NIC [Núcleo Integrado de Comunicação] já era muito pungente na publicidade, a agência de publicidade tem 19 anos. Então, a gente já tinha esse espaço de prática, mas não tinha dentro da matriz do curso. Agora nós temos 3 disciplinas de estágio obrigatórios. Uma disciplina é para práticas de agência, e dentro das práticas a gente está incluindo essa visão, não só do offline mas também do online. A disciplina de Estágio II, que a gente vai ofertar pela primeira vez no próximo semestre, é uma disciplina de novos modelos de mercado de comunicação. Tem empresas que não são agências de notícia, não são agências de publicidade, mas trabalham com comunicação. Os alunos vão desenvolver projetos para solucionar problemas de comunicação, problemas reais. Por exemplo, pode ter um problema na mobilidade urbana de Fortaleza, mas como a gente poderia criar um projeto comunicacional que atuaria e melhoraria esse problema na cidade? A ideia é criar e implementar um projeto que possa trazer uma solução para a cidade, nesse caso. Pode até ser localizado, mas a ideia é projetos que possam ser implementados, que a gente possa pensar em soluções de comunicação e pensar em outras formas de produzir comunicação. Comunicação na rua e em plataformas digitais, sem ficar amarrado no veículo.

O foco é pensar em comunicação e depois no veículo; o veículo é uma consequência daquilo que a gente quer chegar, o problema é que vai ser o nosso norte. E temos a disciplina de Estágio III, que é no mercado. Então a gente buscando ter essa relação mais forte com o mercado e, também, trazendo essa flexibilidade para que a gente possa mudar ao longo dos anos.

Antes ouvia-se falar que a criatividade era fundamental para quem desejava cursar Publicidade. Hoje em dia, com as novas tecnologias, quais outros fatores são exigidos para a formação profissional?

Nós temos algumas disciplinas no curso que  trabalham com técnicas de criatividade. A gente costuma dizer que a criatividade não é uma inspiração. A gente tem várias técnicas para estimular, para trabalhar, para chegar a uma solução interessante. Não é só isso, isso é uma das áreas de publicidade. A publicidade trabalha com estratégia de comunicação, produção voltada para o marketing, para o atendimento, que atendem a esse novos modelos de comunicação, então, é muito mais amplo do que o criativo. Claro, o surgimento e o advento das mídias digitais acabam ampliando as áreas de atuação de um profissional da publicidade, possibilitando ele a pensar nesses outros espaços. Por exemplo, uma área nova, que a gente está desenvolvendo, é trabalhar com análise de dados. A publicidade está fazendo muito isso hoje, pegar esses dados e trabalhar com big data [conjunto de dados armazenados]. Com esse grande volume de dados, analisar para entender o comportamento do consumidor, que tipo de campanhas podemos desenvolver, que tipo de produtos podemos oferecer. Enfim, trabalhar muito com estratégia, a gente tá fortalecendo muito esse campo na área da publicidade.

O que difere, justamente com a explosão das tecnologias da comunicação, do mercado antigo para o da atualidade?

O mercado da publicidade está passando hoje por um processo de transformação muito grande. Então, até eu falar como é exatamente o mercado hoje, seria até irresponsável, porque ele muda o tempo inteiro. Mas, o cenário da comunicação, aqui em Fortaleza, apesar de nós termos essas mudanças das novas tecnologias, o mercado em comunicação na cidade ainda precisa de profissionais que entendam melhor desse novo cenário na área. Então, ainda existe um certo tradicionalismo na forma de produzir comunicação publicitária aqui no Ceará. Isso tem que mudar. Já está mudando, mas precisa mudar mais, porque senão a gente fica realmente para trás, a gente precisa trazer essa transformação.

Isso não quer dizer que tudo precisa ir pro online. Não quer dizer que agora basta fazer uma comunicação na internet que estamos com os nossos problemas resolvidos. O consumidor é que vem mudando. Está mais exigente, quer ter uma relação mais pessoal. Isso quer dizer que você pode utilizar de estratégias online ou offline. Tem que pensar no consumidor de uma forma diferente.

O curso está buscando não só acompanhar o mercado, a gente quer formar um profissional capaz de pensar nas mudanças, de criar essas mudanças, de proporcionar um novo cenário da comunicação no estado. Conseguir dialogar com todos esses fatores e ser um vetor de transformação deles também. Conseguir fazer essa leitura, desses dados que estão hoje disponíveis e pensar em processos de transformação do mercado local, contribuindo para outros mercados. Porque também temos muitos alunos que saem da universidade e vão para eixo Rio e São Paulo, para outros estados aqui do Nordeste ou mesmo para fora. A nossa ideia é compreender essas transformações, não seguir o mercado e, sim, construir pessoas capazes de serem vetores de transformação.

O advento das tecnologias não quer dizer que outros caminhos vão desaparecer?

Não quer dizer. E também não quer dizer que uma coisa que hoje está cabulosa, pronto, aprendi isso, estou tranquilo. Alguns meses atrás todo mundo usava o Snapchat, você via os digitais influencers utilizando. Você vê hoje que o Snapchat, depois que o instagram colocou essa possibilidade bem parecida com o Snapchat, ele cai. O mais importante é formar pessoas que possam se adaptar ao que for. Entender a linguagem publicitária, e não aprender a fazer vídeo para o snapchat. Então, é mais amplo, é mais pensamento crítico do que técnico.

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