Mia Couto encanta professores em palestra na Unifor

Por Luiza Ester

“Não se pensa só com o cérebro, a gente pensa com o corpo todo. O pensamento é uma viagem, uma visitação”, ensinou o jornalista, professor, escritor e biólogo moçambicano Mia Couto, durante uma palestra realizada na tarde de ontem (30), no Teatro Celina Queiroz da Universidade de Fortaleza (Unifor). Cada frase seduzia o corpo docente da instituição, público exclusivo do evento. Promovida pela Pós-Unifor e o Escritório de Gestão, Empreendedorismo e Sustentabilidade (EGES), a ocasião contou também com a presença do vice-reitor de Ensino de Graduação, Henrique Sá, que apresentou o convidado.

A existência do mundo e do pensar é interesse de pessoas envolvidas com a educação e, consequentemente, com o aprendizado. Por meio das suas vivências, Mia Couto relatou como traduzir a palavra realidade. Segundo ele, não tem nenhuma outra no português de Moçambique semelhante à significação brasileira. O escritor explicou que é importante abrir portas e caminhos para a interpretação do que é factual e verdadeiro.

É preciso, também, repensar o próprio pensamento para mudar a realidade e a percepção da vida. Para o autor de Terra Sonâmbula, considerado um dos dez melhores livros do século XX, a realidade precisa estar envolvida na imaginação singular de cada um. “A realidade tem uma consistência própria, é uma substância autônoma. Ela não precisa de nós para existir. Mas, para que essa realidade seja, para nós, verdadeira, seja nossa, ela tem que estar envolvida em uma narrativa, fazer parte de uma certa ficção”, afirma Mia Couto.

“A realidade tem uma consistência própria, é uma substância autônoma. Ela não precisa de nós para existir. Mas, para que essa realidade seja, para nós, verdadeira, seja nossa, ela tem que estar envolvida em uma narrativa, fazer parte de uma certa ficção” (Mia Couto)

Professores durante a palestra. Foto: Ares Soares/Unifor​

Caminhos entre professores e alunos precisam estar envolvidos nessa narrativa, da capacidade de desenvolver e capacitar a criação. Mia Couto diz que essa construção começa na infância, quando as crianças conceituam estar na presença dos pais como tradução para proteção, como se ela fosse eterna. “Esse conforto, esse remédio, é bem mais real do que qualquer remédio que se compre na farmácia”, acrescenta. Essas ficções são incentivadas e resultam em diferentes e particulares realidades.

Para Mia Couto, é importante pensar na trajetória do homem desde muito pequeno, e, apesar da qualidade dos livros terem aumentado significativamente, a qualidade de vida não melhorou. Os índices de violência e miséria crescem cada vez mais e é preciso mudança no plano de ensino. Ele diz que, no Brasil, a realidade mais pungente é a política, em que existe uma incerteza e a educação é uma espécie de salvação. “A grande realidade da política é que ela deixou de ser realidade”, opina.

“A grande realidade da política é que ela deixou de ser realidade” (Mia Couto)

O escritor afirma que, quando criança, “queria ser tudo” e diz ser uma invenção as limitações impostas ao homem. Cada um tem competência para transformar, encorajar e  desprender caminhos, vistos como inacessíveis no seu mundo e no de alguém. “Os sinais batem à porta e alguém precisa abrir a porta. Esse porteiro é a capacidade que nós temos de converter estímulos e dar significado”, conta Mia Couto.

Debate

Após a palestra, Mia Couto participou de uma discussão mediada pelo vice-reitor Henrique Sá. Na ocasião, foi questionado sobre a realidade africana e o que difere suas obras da produção de literatura europeia, já que é um homem viajado e de outra percepção de mundo. Segundo ele, esse tipo de pergunta revela o desconhecimento do brasileiro sobre Moçambique, onde existem 25 povos distintos. “Há uma enorme diversidade. Em cada uma dessas culturas rurais existe um mundo próprio. Essas culturas africanas de Moçambique não tem muito a ver com aquilo do Brasil, que é mais para o lado Ocidental, como Nigéria, Angola, Congo. Então, o que eu posso dizer é uma resposta muito rápida. A base, o fundamento, o crescimento, às vezes, é completamente diferente”, declarou.

Por falar do vazio da política e da representatividade, foi perguntado sobre a atual situação do Brasil. “Eu acho que é preciso não ter medo de aceitar que estamos realmente perdidos, para que não ocorremos a fazer emendas, costuras. Nós estamos pensando em uma coisa que é encenação”, advertiu.

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