Caminhos sensíveis e resistentes de Jucineida Rodrigues

Por Luiza Ester

A infância com os avós, o contato com as artes desde cedo, a convivência com os irmãos e a racionalidade para lidar com o tremor essencial (manifestação de oscilação do movimento das mãos) e o período da Ditadura Militar fez de Jucineida Rodrigues Leite, 78, uma apaixonada pelas estórias e a História. “Eu aprendi a ver o mundo melhor com a História. […] A arte foi a alma da minha vida”, declara. A vida da professora aposentada é, de longe, uma aula do que é a apreciação das pessoas, do mundo e da realidade.

“Eu aprendi a ver o mundo melhor com a História. […] A arte foi a alma da minha vida” (Jucineida Rodrigues Leite)

Nascida em 14 de novembro de 1938, no município de Apuiarés, interior do Ceará, Juci, como é carinhosamente chamada, teve forte influência para seguir o caminho da educação. Seus avós paternos, que ajudaram a criá-la, eram muito ligados à escola e se preocupavam com seu desenvolvimento sensível e intelectual. Por isso, desde cedo ela teve contato com leitura de livros, citação de poemas e até ensino do canto.

Jucineida sempre viveu com intensidade cada singelo momento. Passar um tempo também na casa dos avós maternos era uma terapia para ela. O fato de ser a mais nova dos netos fazia dela a “queridinha” de todos, sendo rodeada de afeto. “Os meus avós… da mamãe… eles gostavam muito de mim, sabe? Pequeninha, a última neta…”, conta. As características distintas das duas famílias fizeram Juci permear por diversos gostos e, consequentemente, se tornar um misto de razão e emoção.

Juventude
Juci em sua juventude. Foto: Arquivo Pessoal

O motivo da mudança de Jucineida para Fortaleza também foi por influência da família paterna. Suas tias, preocupadas com a educação dos sobrinhos, aconselharam seu pai, Raimundo, a encaminhar os filhos para a capital. “Vocês me fizeram comprar essa casa aqui em Fortaleza, agora vocês vão cuidar deles, porque eu não vou deixar meus filhos soltos na vida”, relembra a fala de seu pai, preocupado sobre a decisão de deixá-la com seus irmãos na cidade grande.

Todo o esforço destinado ao ensino deu certo, e Juci teve seu primeiro contato com o curso da sua vida. Formada pela Universidade Federal do Ceará (UFC), ela conta sua dificuldade na hora de escolher entre Odontologia e História. “Eu tive que fazer a escolha e disse logo que não queria nada com sangue. Papai queria muito que eu fosse pra área da saúde, mas eu disse não”, declara com a voz firme.

A menina decidida, do interior serrano do Ceará, logo se identificou com o pensamento crítico instigado pela História e o debate proporcionado pela Universidade. Jucineida participou ativamente do Movimento Estudantil e esteve, desde então, engajada com as causas sociais.

Tremor das mãos

Por ser uma condição hereditária, o tremor essencial (movimento involuntário que ocorre quando utilizadas as mãos) está presente na vida de Jucineida desde sempre. Pai, avó e prima também tinham dificuldades ao manusear objetos. Mas, foi na UFC que descobriu o que, até então, era bastante confundido com Parkinson. Ela volta ao tempo e lembra o diagnóstico de uma profissional da Faculdade de Medicina: “Dona Jucineida, não é Parkinson”.

A médica receitou alguns remédios para a estudante e os tremores foram aliviados. Mesmo com uma condição que poderia ser problema para outros, Juci, teimosa que só ela, ignorou o retorno à consulta. “Assim eu fiz… até que um belo dia a doideira bateu na cabeça e eu parei. Ai fiquei nesse estágio que eu estou”, conta sobre quando decidiu parar de tomar os medicamentos.

Corajosa para tudo em sua vida, nunca teve medo de agravantes. E segue até hoje. Recentemente, não se curvou para um médico que, por um acaso, a atendeu. Depois de muitos anos sem ir à um consultório por isso, Jucineida se deparou com o questionamento: “a senhora arrumou este tremor aonde?”. As respostas, como é de se esperar, estavam na ponta da língua:

Ditadura

A época em que Jucineida Rodrigues ingressou na UFC coincidiu com um dos momentos históricos do Brasil, a Ditadura Militar. Ela lembra a afirmação de um professor que foi sua inspiração para se engajar na História: “Essa turma será o testemunho do golpe de Estado no Ceará”.

Como o professor previa, as memórias desse período continuam vivas. Jucineida estava sentada na escada da Universidade, quando ouviu no rádio as notícias sobre o “expurgo” do, então presidente, João Goulart. Mas ela só percebeu, de fato, que o exército tinha assumido o poder, quando um amigo, ao se despedir, disse que as autoridades estavam chamando todos os garotos para comparecer aos quartéis.

Não foi fácil para a determinada e questionadora “menina da História” aceitar a condição de submissão ao Exército. Junto aos estudantes, começou o movimento contra o regime autoritário. “A gente [estudantes] não se aquietava. Chamaram o grupo estudantil no espaço de aula pra gente conversar sobre o que tinha na cabeça, o que queria fazer, onde fazer”, relata.

Engajada como Juci era, esteve presente durante as estratégias dos estudantes. Era preciso ter firmeza para lidar com a situação. “Mais ainda no começo, depois você vai aprendendo, criando força… E vai resistindo. Mas até criar resistência é fogo. O exército ficava até altas horas na faculdade, em cima da gente, pressionando” lembra.

“Mais ainda no começo, depois você vai aprendendo, criando força… E vai resistindo. Mas até criar resistência é fogo. O exército ficava até altas horas na faculdade, em cima da gente, pressionando” (Jucineida Rodrigues Leite)

Coragem

Jucineida também sentiu de perto o clima de perseguição. Quando ela fazia parte do Clube de Estudantes Universitários (CEU), autoridades abordaram o grupo e encontraram ovos nas bolsas e mochilas dos presentes. “Tinham uns mais danados. E, ainda hoje, tem um pessoal que ninguém sabe o paradeiro, muitos se dispersaram. A gente chorava… Escondido, né!?” conta. Segundo ela, o “cerco” foi apertando cada vez mais.

“Tinha que fazer tudo o que mandavam. Eu não sei como a gente tinha aquela coragem naquela época. A gente era sempre tenso”, recorda Jucineida. Todo cuidado era pouco quando se tratava de estar na presença do exército e, mesmo assim, a união dos estudantes prevalecia. Ela conta que os universitários confeccionaram faixas contra o regime e costumavam colar na frente dos departamentos da Universidade. Os oficiais não aceitavam “mentiroso” e só sossegavam quando descobriam a origem do protesto.

“Tinha que fazer tudo o que mandavam. Eu não sei como a gente tinha aquela coragem naquela época. A gente era sempre tenso” (Jucineida Rodrigues Leite)

O cenário ultrapassava as barreiras da desconfiança e ia para o de batalha. “Tem cruzamento” era um dos códigos de aviso sobre a presença dos militares. O encontro das ruas da universidade já era, de praxe, um local de “combate”. “Aquela esquina da UFC… Nem me pergunte o que vem de lá. Só não matavam a gente porque não tinha chegado a hora. Eles [militares] vieram descobrir depois que, quando a gente falava em ‘cruzamento’, a gente tava falando do exército”, afirma Jucineida.

“O que a gente queria era falar da verdade, do que tava acontecendo, mas ninguém queria acreditar. Era todo mundo sério, ninguém arredava o pé. Diziam: ‘Tal hora, tal lugar’. Ninguém falava mais nada, era só ir”, conta Jucineida, ainda como se estivesse vivendo cada segundo do que diz. A Ditadura Militar fez de Juci mais do que uma fortaleza, mas, como dizia seu professor, um testemunho. Ela não só estudou História. Ela viveu.

“O que a gente queria era falar da verdade, do que tava acontecendo, mas ninguém queria acreditar. Era todo mundo sério, ninguém arredava o pé. Diziam: “Tal hora, tal lugar”. Ninguém falava mais nada, era só ir” (Jucineida Rodrigues Leite)

Paixões
​Foto: Arquivo Pessoal

Arte, fotografia e viagens são exemplos do que preenchem a alma de Jucineida. Ela nunca deixou de apreciar o que a faz sentir viva. “Hoje continua a arte no mesmo lugar, faz parte da minha vida”, afirma. As viagens eram um prato cheio para Juci, pois conseguia unir os seus fascínios. Quando viajava, os primeiros programas turísticos eram culturais.

Jucineida aprendeu sobre fotografia na Casa Amarela (equipamento cultural que oferece cursos nas áreas de cinema, fotografia e animação) da Universidade Federal do Ceará. Seu primeiro gasto foi com equipamentos para patrocinar o afeto pela captura de imagens. “Fotografia… Ah! Eu gastei muito! Um bom lugar, com o professor Albano. O Albano era um amor de gente. Era porque sabia. Era muito bom! Acho que uma aula do Albano é assistir uma vivência histórica”, lembra com carinho as aulas com o professor e fotógrafo Zé Albano.

No âmbito do amor, Juci recorda uma paixão antiga, mas que não deu certo por conflitos de interesses. “Ele queria de um jeito, eu não queria. Não podia dar certo! Podia dar certo? Lógico que não podia”, atesta. Mesmo auto-suficiente e convicta, não se considera uma mulher à frente do seu tempo, mas “no tempo”. Para Jucineida, só é preciso apreciar a verdade e a essência de cada ser humano. “Eu gosto das pessoas como as pessoas são. Não tem que se modificar para agradar ninguém”, afirma.

“Eu gosto das pessoas como as pessoas são. Não tem que se modificar para agradar ninguém” (Jucineida Rodrigues Leite)

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