Vida útil dos produtos está cada vez mais curta com a obsolescência programada

Por Luiza Ester

Eletrodomésticos, eletrônicos, eletroeletrônicos e dispositivos digitais são, invariavelmente, descartados depois de algum tempo. Isso ocorre, muitas vezes, pelo desgaste do produto ou pela vontade do consumidor de adquirir novas versões daquele objeto de desejo. O que muitas pessoas não sabem é que esses objetos podem ser feitos pelos próprios fabricantes para não funcionar depois de um tempo programado, caracterizando a obsolescência programada.

O produto acaba se tornando ultrapassado ou não-funcional propositalmente, com o intuito de forçar a compra das suas novas gerações, fazendo aumentar a circulação e o consumo de produtos. Por isso, mais da metade dos aparelhos móveis e domésticos são substituídos em um curto período de tempo. Segundo o Instituto Brasileiro de Defesa do Consumidor (Idec) e a Market Analysis, empresa que realiza estudos de mercado e opinião pública, são trocados um em cada três eletroeletrônicos por falta de desempenho e três em cada dez eletrodomésticos por apresentarem defeitos, mesmo em funcionamento.

80% dos brasileiros não buscam assistência técnica e 46% preferem comprar novos aparelhos a consertar os velhos. Ainda de acordo com o estudo, dentre os aparelhos mais usados pelos brasileiros, o celular é o que tem menor durabilidade, com uma vida útil de, em média, três anos. Além desse dispositivo bastante familiar, outros equipamentos têm o tempo estimado semelhante:

Infografia: Luiza Ester​

 

Professor Geneflides Silva, atuante nas áreas de Computação e Telecomunicações.

Mas como os fabricantes conseguem diminuir a vida útil dos aparelhos? Segundo o professor Geneflides Silva, 48, mestre em Informática Aplicada, a transformação provém da crescente evolução tecnológica e, consequentemente, da busca por inovação. “As pesquisas científicas permitem cada vez mais um conhecimento das propriedades físicas e químicas dos componentes, ocasionando um controle quase que absoluto do comportamento desejado de tais substâncias. Desta forma, este domínio permite aplicar na fabricação e durabilidade dos dispositivos”, afirma.

“As pesquisas científicas permitem cada vez mais um conhecimento das propriedades físicas e químicas dos componentes, ocasionando um controle quase que absoluto do comportamento desejado de tais substâncias. Desta forma, este domínio permite aplicar na fabricação e durabilidade dos dispositivos” (Geneflides Laureno)

Estratégia de mercado
Charge: ​Diego Novaes

O principal objetivo da obsolescência programada é provocar a alta do consumo, uma vez que a tecnologia se tornou essencial na vida moderna. “A tendência é que os consumidores necessitem de uma substituição rápida”, declara Geneflides. Assim, ele garante um uso constante por meio da insatisfação dos compradores.

Muitos ativistas afirmam ser a obsolescência um fenômeno do sistema capitalista. Benito Muros, empresário espanhol e membro do movimento Sem Obsolescência Programada (SOP) disse, em entrevista para o canal Informativos, que “lutamos para que as coisas durem o que tenham que durar, porém os fabricantes de produtos eletrônicos os programam para que durem um tempo determinado e obrigam os usuários a comprar outros novos”.

“Lutamos para que as coisas durem o que tenham que durar, porém os fabricantes de produtos eletrônicos os programam para que durem um tempo determinado e obrigam os usuários a comprar outros novos” (Benito Muros)

“O consumo de nossa sociedade está baseado em produtos com data de validade. Mudar isso suporia mudar nosso modelo de produção e optar por um sistema mais sustentável”, critica o SOP. O gasto não acontece somente quando o objeto deixa de funcionar, mas também na resolução da própria garantia. Apesar dela ser assegurada por lei, muitos fabricantes, já sabendo o período de atividade do seu artigo, vendem uma garantia estendida mais cara que o normal. E, geralmente, o produto não vai ter nenhum efeito negativo antes do prazo que ela cobre.

Segundo o Idec, a quantidade de assistências técnicas dos principais fabricantes de celular, por exemplo, não é suficiente. “Em 13 estados, pelo menos uma das marcas não possui nenhum posto”, indica no próprio site. Os consumidores, ao procurarem uma assistência técnica independente, acabam surpreendidos com o preço do conserto. Por ser um valor elevado, muitos afirmam não compensar, e acabam adquirindo uma nova mercadoria.

Consequências
​Depósito de lixo eletrônico localizado no Chile​. Foto: Reprodução/Empa – ewaste

A prática de tornar um produto obsoleto gera inúmeras complicações. Por conter recursos químicos em sua composição, o lixo tecnológico (resíduo produzido pelo descarte de equipamentos eletrônicos) precisa ser descartado em um lugar especial. De acordo com o levantamento do Idec, uma minoria dos consumidores descartam os aparelhos em pontos de coletas específicos para produtos eletrônicos.

“Apesar da consequência positiva relacionada a manutenção do conforto do consumidor, o aspecto negativo para o meio ambiente é enorme”, afirma o professor Geneflides. Segundo ele, pesquisas comprovam a relação do aquecimento global com o uso desenfreado dos recursos do planeta, utilizados para produção dos bens de consumo.

Para o Movimento Sem Obsolescência Programada, os fabricantes devem ter consciência sobre as crises de endividamento dos usuários, o descarte de tantos aparelhos e o crime ecológico provocado.

Onde descartar?

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