Cresce presença feminina em profissões antes restritas a homens

Por Luiza Ester

Há uma grande disparidade de gênero entre alunos de muitas graduações, em que a proporção entre pessoas do sexo feminino e masculino ainda é gritante. Contudo, cada vez mais mulheres ingressam em cursos da área tecnológica e de exatas, como Matemática, Física e Engenharias, vistos como cursos tradicionalmente masculinos.

Cada vez mais mulheres ingressam no ITA. Foto: Uol

O Instituto Tecnológico de Aeronáutica (ITA), localizado em São José dos Campos (SP) é uma instituição universitária  ligada ao Comando da Aeronáutica (COMAER) e especializada no setor aeroespacial. Apesar de ser considerada um ambiente majoritariamente dominado por homens, as mulheres já somam 25,3% do total de inscritos para o vestibular, conhecido como um dos mais difíceis do Brasil. Esse número representa um crescimento de 1,3% em relação ao ano passado (2016), onde foram registradas 3.010 mulheres para o exame de admissão.

Em 2012, o Governo Federal lançou o “Mulheres que inovam”, com o intuito de promover a entrada e capacitação delas em cursos do Programa Nacional de Acesso ao Ensino Técnico e Emprego (Pronatec). Os cursos gratuitos oferecidos pelo Pronatec têm parceria com as redes federais, estaduais, distritais, municipais e privadas de educação profissional e tecnológica. Assim, a campanha incentivou mulheres a entrarem em profissões ocupadas, na maioria das vezes, por homens.

Isso teve consequências no encorajamento das brasileiras. A Fundação de Apoio à Tecnologia (FAT) mostrou que, em 2016, o número de aprovadas nas escolas técnicas estaduais cresceu consideravelmente em relação à 2014. Os números passaram de 5,42% e 3,75%, em eletroeletrônica e eletromecânica, para 8% e 6%, respectivamente.

Motivação

O interesse de Bruna Serpa, 20, pela Engenharia Mecânica, surgiu ainda no primeiro ano do ensino médio, a partir de uma visita à Feira de Profissões da Universidade Federal do Ceará (UFC). “Já sabia que queria engenharia, mas não sabia qual, e lá me apaixonei pelo curso”, conta. Ela diz que um dos fatores para a escolha foram os desafios tanto na graduação quanto na profissão, principalmente por não ser um curso com tantas mulheres.

Mesmo assim, Bruna declara que, em sua Universidade, nunca sentiu um tratamento diferente destinado às alunas. “Muito pelo contrário, pelo menos no meu curso. Nossa coordenadora geral é até uma Engenheira Mecânica”, afirma. Ela lembra estar em uma aula, e ter ouvido a própria coordenadora mencionar sobre essa diferenciação: “Aqui não tem homens e mulheres, têm futuros engenheiros e engenheiras. Nunca deixe alguém dizer o contrário disso”.

Segundo a estudante, a minoria de mulheres no curso deriva de uma sociedade ainda machista. Mesmo com as inúmeras conquistas no mercado de trabalho, Bruna acredita que nada é comparado ao espaço que a mulher realmente merece. “Hoje, no ano de 2017, ainda tem gente com a cabeça antiquada, que acha que um serviço feito por uma mulher não tem a mesma qualidade de um serviço feito por um homem”, opina. Isso pode desmotivar o interesse de algumas mulheres para cursar mecânica.

“Hoje, no ano de 2017, ainda tem gente com a cabeça antiquada que acha que um serviço feito por uma mulher não tem a mesma qualidade de um serviço feito por um homem” (Bruna Serpa)

Obstáculos

Gabriella Maia, 19, estudante de Engenharia Civil, conta que seus pais a incentivaram e ela praticamente “entrou de cabeça” no curso. Geralmente, as “engenharias” têm uma predominância de meninos nas turmas e, para Gabriella, isso ocorre porque as pessoas fazem distinções do que pode ser executado por gênero sexual: o típico “para meninos” e “para meninas”. “Acredito que seja, desde cedo, uma profissão mais prática, mão na massa, e, consequentemente, muitos pensam que seja para um público masculino”, diz ela.

A estudante relata que existem, diversas vezes, diferenciação da abordagem destinada às alunas, até implicitamente. “Dá para perceber o olhar intimidador dos homens em relação ao seu comportamento em sala e nas suas notas, como quando você se impõe numa cadeira (disciplina) mais específica do curso”, declara. Ela destaca que, invariavelmente, professores e alunos olham meninas com algum receio, julgando-as precipitadamente.

“Dá para perceber o olhar intimidador dos homens em relação ao seu comportamento em sala e nas suas notas, como quando você se impõe numa cadeira (disciplina) mais específica do curso” (Gabriella Maia)

Engenheiros civis podem trabalhar tanto em obras, quanto em escritórios, voltados para questões burocráticas. Sobre o mercado de trabalho, Gabriella afirma já ter sido questionada se iria trabalhar em escritório, por esse espaço ser visto como “coisa de mulher”, em vez de estar em campo, lidando diretamente com os funcionários e a própria construção. Apesar disso, ela revela ser otimista quanto à mudança desse preconceito, pois cresce o número de meninas no curso.

Predestinação
Crianças costumam ganhar brinquedos de acordo com seu gênero. Foto: reprodução

O ensino ligado ao cuidado das pessoas e à saúde é constantemente associado a atividades relacionadas com as mulheres. O Censo de 2010 do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) mostra que, entre vinte cursos com maior número de graduados, elas ainda são maioria em Pedagogia, Enfermagem, Serviço Social e Psicologia.

Essa diferença é consequência dos estímulos atribuídos, desde o nascimento, aos meninos e às meninas. Os divergentes incentivos são construídos culturalmente e vão de brinquedos a conselhos. Segundo o artigo “O conceito de gênero por Heleieth Saffioti: dos limites da categoria gênero”, de Adriano Senkevics, publicado em 2012 pelo blog Ensaios de Gênero, “as relações de gênero estão imbricadas à relações de poder, as quais hierarquizam homens e mulheres ao longo da história”. Isso indica funções sociais, sob a ideia padronizada de que tarefas e objetos são determinados de acordo com o gênero sexual de cada um.

“As relações de gênero estão imbricadas à relações de poder, as quais hierarquizam homens e mulheres ao longo da história” (Adriano Senkevics)

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