Apesar do domínio masculino, mulheres conquistam espaço no surfe

Por Letícia Feitosa

Margot Rittscher foi a primeira mulher a surfar em ondas brasileiras, em 1936, e abriu caminho para o surfe feminino no país. Porém, o esporte ainda hoje é predominantemente masculino. De acordo com a Associação Brasileira de Surfe Profissional, o número de mulheres que surfam profissionalmente no Brasil é dez vezes menor que o de homens. Diante dessa situação, as surfistas enfrentam uma série de dificuldades por serem minoria no esporte, seja por causa de preconceito, ou por falta de apoio. Mesmo assim, aos poucos, as mulheres estão conquistando seu espaço e ganhando cada vez mais destaque nas ondas.

Isabela Sousa, 27, é uma das referências do surfe nacional. A atleta foi tetracampeã mundial e está no topo da elite de bodyboard há mais de 10 anos. Ela sempre teve afinidade com o mar e surfa desde os 11 anos. Aos poucos, a cearense conseguiu títulos importantes, tendo sido campeã mundial e vice-campeã latino-americana em 2010. Uma de suas patrocinadoras produziu um vídeo mostrando o cotidiano da atleta como bodyboarder profissional:

 

O esporte atrai wahines (gíria havaiana para mulheres que surfam) de todas as idades. A cearense de 15 anos, Marinna Barroso, surfa desde os seis anos. Desde pequena, ia à praia com seu pai, que lhe ensinou a subir em uma prancha. Foi por causa dele que ela se apaixonou pelo mar e pelo esporte. A jovem começou no bodyboard, mas logo mudou para a pranchinha e, hoje, pratica apenas por hobby.

“Coisa de homem”

Marinna Barroso. Foto: João Pinheiro

Marinna conta que já competiu uma vez e que percebeu dificuldades para as competidoras, pois não recebem tanta divulgação quanto os atletas homens. “Quando participei do campeonato, colocaram minha bateria (feminina) para maré seca, horário onde havia pouquíssimas ondas, o que dificultava muito. Já as baterias masculinas, estavam em um horário onde a maré estava perfeita e com uma boa quantidade de ondas, dando assim, maior importância para o surf masculino”, relembra.

A psicanalista Joana de Vilhena Novaes, 39, para o portal online da revista TRIP, explica que, esportes que envolvem ação, risco e natureza, têm uma relação com o sentimento de dominar e de controlar o ambiente. “A cultura da virilidade tem muito a ver com essa relação com o poder de dominação”, explica. A especialista em grandes ondas, Maya Gabeira, 25, falando para o mesmo portal, revela que muitas garotas sentem-se intimidadas no esporte. “O surfe tem uma questão que inibe muito as meninas, que é o ambiente no qual ele é praticado. Conheço muita mulher que, de cara, diz que não é pra ela, que não se sente confortável no mar, que é um lugar de condições adversas”.

Busca por patrocínio

Mas há quem faz do surfe uma profissão. E para quem vive de campeonatos, as dificuldades são frequentes se a atleta não conseguir um patrocinador. Ana Cristina, 43, uma das precursoras do bodyboard cearense, foi campeã estadual em 1989 e hoje compete o Masters, circuito Francisco Rosa. A surfista percebe que as complicações de hoje para as mulheres no surfe ainda são parecidas com as que encontrava quando começou a competir.  “A questão do apoio aqui é quase escasso. Por ser mulher ainda fica mais complicado. No meu tempo era bem difícil também, mas hoje eu mesma compro meu material”, conta.

 “A questão do apoio aqui é quase escasso. Por ser mulher ainda fica mais complicado.” (Ana Cristina)

A única representante feminina do Brasil na maior competição do surfe mundial, o WCT (World Championship Tour), é a cearense Silvana Lima. Com uma infância humilde, começou a surfar com uma prancha improvisada na praia de Paracuru, litoral oeste de Fortaleza e, após muito esforço, a atleta tornou-se duas vezes vice-campeã mundial e bicampeã brasileira. Mesmo com tantas conquista, Silvana ainda persiste na luta por patrocínio.

Em 2016, em entrevista à BBC Brasil, Silvana explicou que as marcas de surfwear, as que mais apoiam os atletas, procuram surfistas inseridas em padrões de beleza específicos para patrocinar. “A gente tem que ser modelo e surfista ao mesmo tempo. Então, quem não é tipo modelinho acaba não tendo patrocínio, como foi o meu caso. Você acaba ficando de fora, é descartável. Os homens não têm este problema”, enfatiza. Para arcar com as viagem para competir e com as taxas de inscrições dos torneios, Silvana abriu um canil no quintal de casa e lucra com a venda dos filhotes de seus dois buldogues. Com o dinheiro das vendas, a atleta pôde viajar para competir na Nova Zelândia e na Espanha, onde conquistou o título de campeã.

Infografia: Vinícius Rodrigues

Solidariedade feminina

Para inserir as garotas no lifestyle do surf e fomentar a conquista feminina no âmbito do esporte, centros de treinamentos abrigam apenas mulheres surfistas que estão em busca de aperfeiçoamento. De todas as idades, de iniciantes a atletas, as casas hospedam uma diversidade de surfistas que compartilham o amor pelo esporte. O Centro Itinerante de Treinamento da Brasil Surf Girls (BSG), com sede na Praia da Macumba, Rio de Janeiro, foi idealizado por Mariana Vervloet e recebe garotas de todo o país. “Queremos formar atletas. Tem muito mais meninas na água agora do que há dois anos, até mesmo nas escolinhas. Acho que estamos mostrando isso, que mulher pode surfar”, disse ela, em março de 2017, ao site O Globo.

Em busca de empoderar as mulheres por intermédio do surfe, duas paulistanas criaram a Longarina, organização que começou como um portal online sobre surfe feminino e objetiva atrair mais mulheres para o esporte. As idealizadoras, Cris Brosso e Van Bertelli, agora pretendem criar um espaço, a Casa Longarina, para que mais surfistas do Brasil inteiro possam se ajudar e participar de aulas de surfe, de atividades em grupo como yoga, aulas de alimentação saudável e troca de experiências sobre ser mulher. Para ter esse espaço, criou-se uma campanha de financiamento coletivo, em parceria com a ONU mulher. Assista ao vídeo sobre o projeto:

 

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