Nordeste sofre a pior seca dos últimos 100 anos

Por Letícia Feitosa e Mirelly Oliveira

Há seis anos que a região semiárida sofre com  uma estiagem que já atinge 23 milhões de pessoas. De acordo com uma pesquisa do site Monitor de Secas, as chuvas de abril de 2017 e dos meses anteriores reduziram a gravidade da escassez de água em áreas mais ao norte, como no Maranhão, no norte do Piauí e no norte do Ceará. Mas o mapa dos estados segue mostrando a existência de seca extrema em grande parte do Nordeste. Um levantamento de dados do Ministério da Integração Nacional, feito pelo G1 (portal de notícias da Globo), mostra que 80% das cidades da região estão em estado de emergência. Diante desta situação, as condições futuras ainda são incertas.

Comparativo da seca do Nordeste do mês de Janeiro e Abril. Fonte: Monitor de Secas

O Governo do Estado do Ceará, juntamente com a Companhia de Gestão dos Recursos Hídricos (Cogerh), criaram algumas medidas para amenizar o impacto da seca na população. Além da verba de 68 milhões (terceira maior verba do Brasil) liberada pelo Governo do Estado, o Plano de Segurança Hídrica é um dos exemplos de medida contra a crise. O Ceará é o estado que mais detém cisternas espalhadas pelo interior. No mês de abril, foram 7.900 pequenos reservatórios entregues para famílias da zona rural. Mas, mesmo assim, o acúmulo de água quando chove não é o suficiente para uso da população. Os carros-pipas, transportes equipados com um reservatório de água, também são comuns nos locais afetados pela seca em todo o Nordeste.

Socorro Albuquerque, 46, é moradora do município de Pedra Branca, no interior do Ceará, e compra água dos carros-pipas para realizar os afazeres domésticos, porém o preço não é muito acessível, já que o valor de um garrafão com 20 litros de água dobrou por causa da seca, de R$ 7 para R$ 15. Para economizar mais, Socorro teve que modificar alguns de seus hábitos. “Agora eu reutilizo água da máquina de lavar roupas para dar a descarga no aparelho sanitário, por exemplo. Além de  mudar os meus hábitos, principalmente na hora do banho, de escovar os dentes e de lavar as louças”, conta.

A escassez de água também causa uma “guerra” entre a população. Maria do Carmo Mesquita, 60, reside no município de Alcântaras e conta que a Prefeitura da cidade instalou um poço compartilhado para as residências próximas. Ela ficou responsável da chave que libera a água do tanque todos os dias. “Infelizmente, a água acabava muito rápido e sempre havia brigas entres as famílias para pegar o maior número possível de água. O que acontece é basicamente uma guerra por água aqui”, relata.

“O que acontece é basicamente uma guerra por água aqui” (Maria do Carmo Mesquita)

As capitais dos estados do Nordeste não vivenciam tanto a escassez de água quanto as cidades dos interiores. O Ceará, por exemplo, é dividido em 12 bacias hidrográficas. Cada bacia com sua respectiva gestão, porém a bacia metropolitana, a qual atende Fortaleza, é a mais privilegiada do estado. “Muitos [fortalezenses] não dão importância pra seca porque têm água disponível diariamente, apesar de alguns bairros já terem começado a apresentar escassez”, conta Eveline Viana, professora de Planejamento e Gestão de Recursos Hídricos na Universidade de Fortaleza.

Além da população, a seca também atinge os setores industriais e agrícolas. Esses meios de produção usam água abundantemente e, antigamente, sem nenhuma supervisão. Atualmente, o Comitê de Bacias Hidrográficas libera uma quantidade controlada para esses setores. No caso de exceder o limite, a água é cortada até o pagamento de uma multa. Esses tipos de medidas ajudam para uma maior economia da água, pois a conscientização é o único meio prático de tentar amenizar a seca.

Fenômeno natural

O Ministério do Meio Ambiente afirma que todo ano há uma probabilidade de 60% de ter seca na região semiárida. Tudo depende de processos meteorológicos. De acordo com a professora de Planejamento e Gestão de Recursos Hídricos Eveline Viana, a presença do El Niño e da La Niña são decisivos. Quando ocorre um El Niño muito forte, provavelmente o ano será mais seco, e quando acontece uma La Niña, os períodos chuvosos sucedem acima da média pluviométrica de 800 mm (milímetros). Porém, nesses últimos anos, teve mais El Niño do que La Niña.

Box: Ravelle Gadelha

O Nordeste também sofre por causa da evaporação. “Aqui tem muita radiação solar. A chuva evapora muito rápido. Por isso temos tantos açudes e investimentos na área de recursos hídricos para tentar minimizar esse problema com escassez hídrica”, conta Eveline. Segundo ela, a seca não depende de ninguém, apenas das condições naturais. “A escassez hídrica é um fenômeno natural para nossa região. O homem é que tem que conviver com a região semiárida porque o clima não vai mudar” , garante.

“A escassez hídrica é um fenômeno natural para nossa região. O homem é que tem que conviver com a região semiárida porque o clima não vai mudar” (Eveline Viana)

O Castanhão

As obras do Açude Público Padre Cícero foram concluídas em 2003 e, desde então, ficou conhecido como Açude Castanhão. É o maior açude público do Brasil, com capacidade de armazenamento de 6.700.000.000 m³. Construído sobre o leito do rio Jaguaribe, no estado do Ceará, ele é o maior reservatório do estado. A revista Veja realizou, no início deste ano, uma reportagem sobre a crise hídrica na região e mostrou a atual situação da bacia hidráulica do  Castanhão. No vídeo, o coordenador do complexo do Castanhão – DNOCS (Departamento Nacional de Obras Contra as Secas), Fernando Pimentel de Andrade, explica que o açude tem 36 mil hectares mas, por conta da seca,  apenas 5,8% da capacidade encontra-se com água.

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