Ilustrações de Salvador Dalí estão expostas na Caixa Cultural

Clara Menezes

Dalí: A Divina Comédia” está em exibição na Caixa Cultural desde o dia 26 de abril até 2 de julho. As 100 gravuras do artista, feitas entre as décadas de 1950 e 1960, fazem referência a cada canto da obra de Dante Alighieri, a Divina Comédia. Com entrada gratuita, a exposição será realizada das terças aos sábados, de 10 horas às 20 horas, e aos domingos, de 12 horas às 19 horas.

​Aquarela do Canto 1 do Purgatório, “O Anjo Caído”. Foto: Reprodução.

Assinadas pelo artista surrealista, as imagens, apesar de serem uma homenagem aos 700 anos do poema de Dante, possuem iconografias típicas de Dalí, como os elefantes, as formigas, os relógios derretidos, os ovos e os caracóis. As aquarelas de Salvador Dalí, um dos artistas mais conhecidos do surrealismo, além de terem sido xilografadas pelos gravadores Raymond Jacquet e Jean Taricco, foram publicadas na forma de livros com número limitado por uma editora francesa. As obras estão divididas de acordo com a estrutura sequencial do poema, ou seja, O Inferno, com 34 imagens, O Purgatório e O Paraíso, com 33 imagens cada.  

O poema de Dante Alighieri, A Divina Comédia, que era antigamente conhecida por O Poema Sagrado de Dante, possui 14.230 versos hendecassílabos, ou seja, cada verso é formado por 11 sílabas. A primeira parte do poema é o Inferno,  descrito com nove círculos de sofrimento da Terra, que são os virtuosos pagãos, a luxúria, a gula, a ganância, a ira, a heresia, a violência, a fraude e a traição. A segunda parte é o Purgatório, que, segundo o autor, seria uma montanha onde os pecadores arrependidos iriam para se purificarem. A última parte é o Paraíso, baseado nas quatro virtudes cardinais, que são a prudência, a justiça, a fortaleza e a temperança, e nas três virtudes teologais, ou seja, a fé, a esperança e a caridade.

Quebra de padrão

Apesar de ser um poema considerado complexo, uma das organizadoras da exposição, Carolina Vieira, formada na Escola de Belas Artes da Universidade Federal de Minas Gerais, confirma “mesmo que o público não tenha tido acesso ao texto literário de Dante, as imagens que Dalí fornece criam uma ponte efetiva com o poema”. Ela conta que o impacto visual dessas ilustrações poderá levar o espectador a ter uma compreensão inicial das palavras de Dante.

“Mesmo que o público não tenha tido acesso ao texto literário de Dante, as imagens que Dalí fornece criam uma ponte efetiva com o poema” (Carolina Vieira)

A Divina Comédia já foi ilustrado por diversos artistas renomados, como Botticelli, Barceló e Bouguerau, porém, Dalí se destaca por ter criado seus próprios sentimentos acerca do poema de Dante Aleghieri. Com uma quebra de padrão do poema épico e teológico, o artista nos faz entrar não somente em seu próprio mundo do subconsciente, mas também no mundo de Dante.

​”A Persistência da Memória” pintada em 1931 por Salvador Dalí. Foto: Reprodução.

O pintor espanhol nasceu no dia 11 de maio de 1904, em Figueras, e produziu cerca de 1500 pinturas durante sua vida. Com uma mistura de realidade e fantasia dos sonhos, do irracional e do subconsciente, Dalí fez parte do surrealismo que surgiu na década de 1920. O movimento artístico e literário francês rejeitava os padrões impostos pela sociedade burguesa, criticando os métodos que caracterizavam a arte na época.

O artista, influenciado pela psicanálise de Freud, deixou inúmeras obras antes de sua morte no dia 23 de janeiro de 1989.  Uma de suas pinturas mais conhecidas é “A Persistência da Memória”, que demonstra, intensamente, o que Dalí falou sobre suas obras “toda a minha ambição no campo pictórico é materializar as imagens da irracionalidade concreta com a mais imperialista fúria da precisão”.

No entanto, “Salvador Dalí se desvinculou do surrealismo porque queria seguir seu próprio caminho”, conta o professor de História da Arte e da Estética na Unifor, Carlos Velázquez. Após várias críticas dos próprios artistas dessa vanguarda, “o surrealismo precisou se reformular porque você não pode mandar no inconsciente” continua o professor.

“Salvador Dalí se desvinculou do surrealismo porque queria seguir seu próprio caminho”  (Carlos Velázquez)

Após se afastar do movimento surrealista, Dalí começou a produzir obras mais clássicas e tradicionais. Para Velázquez, “a produção do Salvador Dalí é muito importante para a história da arte”.

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