A trajetória de Shinoda nos palcos

Por Letícia Feitosa

A infância recheada de atividades lúdicas instigou Luis Carlos Shinoda, 26, a enveredar pelo mundo das artes. Educado junto a cinco irmãos, Shinoda cresceu em um cenário de criação constante. Por causa da pouca condição financeira da família, raramente ganhavam brinquedos, dessa maneira, os irmãos tiveram que encontrar nas coisas simples uma oportunidade de diversão. “Era um ambiente divertido. Inventávamos muitas brincadeiras, como pegar tampa de garrafa e criar jogo de futebol, frasco de desodorante e transformar em carrinho de Fórmula 1. Tudo isso além das brincadeiras tradicionais de bola, bila, pião, pipa, e tudo mais!”, relembra. Hoje, o ator, diretor e professor de teatro percebe na infância uma faísca do seu atual amor pela arte. Eu me via como uma criança feliz e que aproveitou bem a infância”, afirma.

Eu me via como uma criança feliz e que aproveitou bem a infância” (Luis Carlos Shinoda)

Nascido em Maracanaú, no dia 12 de novembro de 1990, Shinoda sempre estimulou o imaginário. A disciplina de Artes da escola serviu como contato inicial ao mundo artístico. Foi na sala de aula em que ele descobriu o fascínio pela dança e chegou a se apresentar em espetáculos de danças cearenses. Na adolescência, ele jogava futebol, participava da natação, dançava na escola e estava descobrindo o que viria a ser sua maior paixão, o teatro. Logo, aos poucos, começou a seguir um caminho repleto de expressões artísticas.

Com o passar dos anos, Shinoda percebeu um intenso desejo de trabalhar com arte. Porém, a vontade de viver como ator não foi muito aceita pelos familiares logo de início. “Meus pais ainda aceitavam [o teatro] como diversão, não pensavam que eu iria querer a arte como opção de vida”, fala. Para ele, seus maiores incentivadores foram os professores. Apesar do pouco estímulo familiar, Luis encontrou em seus mestres o encorajamento necessário para prosseguir com seu sonho.

Formação de Ator

No início de sua carreira, na adolescência, Luis Carlos Shinoda entrou em um grupo teatral, quando ainda atuava por brincadeira, e conheceu Dylla Marques, quem o iniciou como ator e dançarino. “Ela era muito exigente, dedicada e cobrava bastante da gente nos ensaios. Mas era também muito divertida, e pude fazer muitos amigos nesse grupo de teatro”, retrata.

No espetáculo “Balões, eu te amo”. Foto: Dani Chaves

Decidiu formalizar-se na profissão de ator, e ingressou no Curso Princípios Básicos de Teatro (CPBT), no Teatro José de Alencar. No curso, Shinoda pode aprender artes cênicas com Joca Andrade, professor, ator e diretor teatral. Joca é uma de suas maiores influências e pôde adicionar conhecimento à trajetória artística de Luis. “Joca é um mestre. Meus referenciais como artista e cidadão, perpassa os aprendizados que tive com Joca. A importância do treino e trabalho corporal do ator, do processo colaborativo, da ética e postura profissional como artista, do engajamento político, e de saber que o teatro e todas as artes são  transformadoras”, comenta.

Formou-se em 2009 do CPBT e, em 2011, decidiu ingressar no ensino superior em teatro. Indicado por professores, como oportunidade de crescimento pessoal e profissional, a formação em Teatro do Instituto Federal do Ceará (IFCE) foi um divisor de águas para Shinoda. No começo de sua carreira, os maiores obstáculos foram os poucos incentivos da família, mas não só estes. “Depois vem outros obstáculos maiores, como a administração pública do nosso país”, afirma o ator que percebeu uma falta de interesse dos políticos com as políticas públicas culturais, o que torna complicado a disseminação de espaços culturais pela cidade de Fortaleza.

Coletivos Teatrais

O contato com grupos teatrais de Maracanaú e de Fortaleza fez com que Shinoda construísse uma carreira rica em experiências. O Grupo Garajal, coletivo de Maracanaú, é uma das referências para a formação ética e artística de Luis. O trabalho dessas companhias foi o que mais influenciou e motivou seu ofício de ator. “Em Fortaleza, poderia destacar alguns artistas e grupos, como o meu querido professor Joca Andrade, Silvero Pereira, Valéria Pinheiro, o Grupo Bagaceira, o Grupo Expressões Humanas e o Pavilhão da Magnólia”, profissionais e grupos que o encoraja a manter o sonho de atuar.

Ainda em Maracanaú, Shinoda, com o objetivo de unir jovens para melhorar o mundo, criou o Cangaias Coletivo Teatral, em 2005. “A ideia de criar um grupo teatral surgiu na necessidade de entender a arte como ferramenta de transformação da sociedade”, conta. O Cangaias foi cria do Movimento de Reintegração das Pessoas Atingidas pela Hanseníase (MORHAN), com adolescentes da comunidade sob a coordenação de Jaqueline de Aquino. No início, os atores faziam peças voluntárias e trabalhavam com um teatro informal. “Durante anos, nós apresentamos em secretarias e postos de saúde da prefeitura, informando e sensibilizando as pessoas acerca da doença hanseníase”, lembra.

“A ideia de criar um grupo teatral surgiu na necessidade de entender a arte como ferramenta de transformação da sociedade” (Luis Carlos Shinoda)

Shinoda e Angélica, do coletivo Cangaias, no espetáculo “Na colônia penal” Foto: Eduardo Ramos

Em 2012, o grupo mudou-se para Fortaleza, desvinculou-se do MORHAN e se assumiu como uma companhia de teatro profissional. Novos artistas ingressaram no Cangaias, que hoje é composto por Luis Carlos Shinoda, Adonai Elias e Angélica Nunes. Os membros assumem diversas funções dentro do grupo, como atuação, direção artística, produção, gestão, marketing e comunicação. De acordo com Shinoda, o objetivo do grupo é “criar uma pesquisa de linguagem própria e pensar o teatro como trabalho diário, como profissão”.

Dos principais trabalhos do grupo, destacam-se os espetáculos “Balões eu te amo”, “Miau!” e “Na Colônia Penal”, que ainda estão em cartaz. O Cangaias também oferece o Curso Livre de Práticas Teatrais, no Café Teatro das Marias. “Estamos em andamento com a primeira turma e está sendo uma experiência incrível. Trabalhar na formação de atores é uma experiência estética e ética”, declara Shinoda.

Trabalhos artísticos

A primeira peça como ator profissional foi no espetáculo “Maquinocracia”, em 2009, como trabalho fruto do curso no Teatro José de Alencar, com  João Andrade Joca na direção. Shinoda, desde então, dirigiu e atuou em  peças, e não consegue escolher um espetáculo mais marcante, mas é capaz de enfatizar alguns trabalhos.  “Destaco alguns, por exemplo, como ator em “Romeu e Julieta”, do Grupo Garajal, em 2011. E “Prometeu”, do Núcleo Habitat de Atores da Inquieta Cia de Teatros, em 2014. Como diretor, destaco meu primeiro espetáculo que assumi a encenação, que foi a montagem do clássico do Ariano Suassuna, “O Santo e Porca”, de 2012”, ressalta.

Luis Carlos Shinoda, hoje, além de estar em cartaz com três espetáculos, também encontra-se entusiasmado com a atual experiência como professor do Curso Livre de Práticas Teatrais. “Estou como professor e percebo nos alunos-atores o desejo de vivenciar o teatro, isso me contagia e me instiga bastante como artista”, compartilha.  Porém, Shinoda está em constante procura de vivenciar novas linguagens e deseja revisitar a dança, principalmente a contemporânea. “Tive recentemente uma experiência com o curso técnico em dança e estou completamente apaixonado e instigado a vivenciar um trabalho de consciência corporal e de treinamento físico”, declara o ator que segue sua sina de criar fantasias como fazia quando menino em Maracanaú.

“Estou como professor e percebo nos alunos-atores o desejo de vivenciar o teatro, isso me contagia e me instiga bastante como artista” (Luis Carlos Shinoda)

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